RUI GAUDÊNCIO

José Neves: quando a arquitectura faz filmes

Prémio Secil em 2010, professor universitário, José Neves, desenha, constrói e requalifica casas, escola, museus. Em continuidade com o que encontra nos lugares, numa relação sempre intensa com a paisagem o cinema, Perfil de um arquitecto que, neste ano, foi um cineasta no Museu de Serralves.

Na Internet, na página pessoal de José Neves, sob o nome de uma casa, encontra-se um fotograma de A Desaparecida, de John Ford. Ethan Edwards (John Wayne) a afastar-se na paisagem, enquadrado por uma porta escurecida que se fechará sobre o filme. Acção, lugar, luz e escuridão. Poder-se-ia dizer que estes são, também, elementos de Companhia, a exposição que em Serralves reuniu Pedro Costa a um conjunto de amigos: Rui Chafes, Paulo Nozolino, Jean-Marie Straub e Danièle Huillet, António Reis e Margarida Cordeiro, Pablo Picasso, Robert Bresson, Walker Evans, João Queiroz, John Ford, Jeff Wall, Jacques Tourneur, Maria Capelo, Andy Rector, Jean-Luc Godard, Max Beckmann. Outros cineastas, outros artistas, entre os quais o próprio José Neves.

Foi este arquitecto e professor que concebeu a transformação do espaço do Museu de Serralves para servir como casa temporária de Pedro Costa, trabalhando com as circunstâncias, rearticulando a arquitectura, trazendo o escuro do cinema para um lugar atravessado pela luz natural e pelas relações com o exterior. Do seu desenho, do trabalho colectivo que o permitiu materializar, José Neves fez passagens, percursos, colunas, uma sala de cinema. Um trabalho para estar com os outros.

José Neves não faz filmes, desenha e constrói casas, edifícios, escolas. Mas ama o cinema. No seu trabalho, as duas artes fazem companhia uma à outra, a arquitectura a tomar a dianteira e o cinema, mudo ou sonoro, a iluminar, ainda que na rectaguarda, o caminho. No seu atelier, na Rua Nova do Almada, em Lisboa, recorda o primeiro encontro com a arte dos Lumière: “Os Irmãos Marx de Um Dia Nas Corridas, numa matinée de um cinema de bairro, o Cinema da Encarnação, antes de saber ler.” Mas a relação apaixonada surgiu quando começou a estudar arquitectura. Alguns dos grandes ciclos de cinema na Gulbenkian, organizados por João Bénard da Costa, coincidiram, conta, com o início do estudo da arquitectura. “O Hitchcock, o Buñuel, o Ford, o Hawks. O ciclo do Hitchcock foi exactamente no primeiro ano do curso. Houve outras coincidências, amigos com que comecei a ver filmes e que também eram estudantes de arquitectura, como o Clemente Semide.”

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O familiar como revelação

O estudo e o trabalho da arquitectura e a paixão e o interesse pelo cinema caminharam juntos e lentamente o segundo começou a inspirar o primeiro. É o que nos dizem o desenho da Casa Rui Jordão, a presença da luz nos Blocos de Habitação do Cartaxo, a grande abertura para o exterior na Escola Francisco de Arruda em Lisboa (cuja requalificação e ampliação lhe valeu o Prémio Secil em 2012).

“Não me caberá a mim dizê-lo, mas com certeza não seria a mesma pessoa, ou o mesmo arquitecto, se não gostasse de cinema como gosto”, concede. “Um dia destes estava numa obra que está em construção, uma casa num sítio chamado Pinheiros Bravos, no Alentejo, voltada para uma paisagem espantosa e muito extensa, e pensei exactamente nisto. Quando tenho uma grande extensão em frente, abro portas, envidraçados e construo espaços cobertos entre o espaço interior e o exterior, para estabelecer uma determinada relação com a violência dessa paisagem. Se nunca tivesse visto A Desaparecida talvez não fizesse assim. Não são decisões premeditadas. São coisas que verifico depois. Acontece uma situação parecida com uma casa que desenhei para os cineastas Joaquim Pinto e Nuno Leonel, perto da Lourinhã, que é um pequeno refúgio debaixo de uma laje coberta de flores, que parece flutuar e que se abre também através de um espaço coberto para um vale.”

A arquitectura estabelece uma relação com a violência da paisagem. Mas que relação é essa? Ou melhor, que sentido tem essa violência? “A arquitectura serve para estabelecer relações com o mundo, com os outros. Serve para dar um nexo às nossas acções e às nossas palavras”, considera. Nexo tem o sentido de um entre, de uma distância para que uma relação se possa fundar. Eis o que a arquitectura, como parte do artifício humano, oferece. “As paisagens na Lourinhã, no Alentejo, são encantadoras, mas também muito violentas”, continua José Neves. “Não aguentamos a intensidade de estar permanentemente a contemplar uma paisagem. A arquitectura faz com que possamos dar um nexo a essa intensidade, para podermos, para sabermos viver com ela. Como esta mesa à volta da qual estamos sentados, este tecto e estas paredes altas, estas janelas de onde vem a luz dá um nexo à nossa conversa. Não será a mesma coisa estarmos aqui, assim, ou noutro sítio qualquer. A arquitectura permite que aconteçam coisas que noutras circunstâncias não aconteceriam. Por exemplo, é muito diferente estar a ver cinema num sítio qualquer ou estar a ver cinema numa sala de cinema”.

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PEDRO COSTA COMPANHIA José Neves concebeu a transformação do espaço do Museu de Serralves para servir como casa temporária de Pedro Costa, rearticulando a arquitectura, trazendo o escuro do cinema para um lugar que era atravessado pela luz natural e pelas relações com o exterior Companhia, Serralves — (axonometrias de Projecto)
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O cinema. José Neves tem uma predilecção especial por um certo cinema que traz para a arquitectura. “O cinema que me interessa demonstra, sublinha em cada segundo uma das evidências mais importantes para o trabalho de um arquitecto: as acções têm sempre um lugar, nunca estão desligadas dos lugares, há uma aliança entre as acções e os lugares em que elas se dão. Isto acontece tanto num filme do Manoel de Oliveira como num filme do Vítor Gonçalves, tanto num do Buñuel como no Mizoguchi, no Fritz Lang, no Buster Keaton… em todo o cinema a que se costuma chamar de 'clássico', antes de o espaço filmado ter passado a ser quase sempre mera informação, ou decoração. Há casos extraordinários como Os Verdes Anos, por exemplo, ou muitos dos filmes do Pedro Costa ou do Antonioni, em que a arquitectura ou os lugares aparecem mesmo como uma personagem. Isto não significa que para um filme ser bom a arquitectura do filme tenha de ser boa. Não, os cineastas trabalham com as circunstâncias, tal como nós, arquitectos.”

Próximos, cinema e arquitectura não se substituem, não são subsidiárias uma da outra. A relação é de diálogo, não de dependência. “É habitual reconhecermos cidades que visitamos dos filmes que vimos, mas estarmos lá é muito diferente. A experiência da arquitectura não é substituível por desenhos, fotografias ou filmes. A arquitectura é para ser experimentada independentemente das suas representações. Não há nada que substitua isso”. Mas não pode o cinema dar a ver a arquitectura de outra maneira? A esta pergunta, o arquitecto responde com um episódio: “Numa das minhas aulas, estava a mostrar Juventude em Marcha [de Pedro Costa] e, numa cena em que o Ventura está a visitar a casa que lhe foi destinada no Casal da Boba, houve um aluno que exclamou: ‘mas isto é a sala da minha da casa e, ao mesmo tempo, parece uma nave espacial! ’ Reconheceu a sala da casa dele como uma coisa estranha. O cinema fê-lo ver, pela primeira vez, de outra maneira”.

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Estabelecer um lugar para as acções, mostrar os lugares de um modo que antes não tínhamos visto são coisas que o cinema faz na sua relação com a arquitectura, mas tratando-se esta de uma arte pública, o cinema faz algo mais: torna visíveis os outros. Esta é uma possibilidade do cinema que também interessa José Neves, como demonstram a publicação do texto Os Lugares dos Imigrantes em 24 Filmes, de Trás-os-Montes a Sicília!, publicado no Jornal Arquitectos em 2009 ou o livro O Lugar dos Ricos e dos Pobres no Cinema e na Arquitectura em Portugal (Dafne, 2014). “Podemos pensar nesta visibilidade de duas maneiras. Uma é tornar visível uma coisa que está escondida. Há muitas coisas que estão escondidas ou esquecidas para muitos de nós. Esse texto sobre os lugares dos imigrantes é disso que trata – dos filmes em que vemos Ellis Island, ou os camiões apinhados de mexicanos, a salto, ou Paris às cinco da manhã, em que apenas se vêem os homens que limpam as ruas e as criadas que chegam à cidade, ou o bairro das Fontaínhas. E fazer isso sem ser obsceno é muito difícil. São necessárias uma violência e uma ternura que só o cinema muito bom consegue ter. Mas o cinema também nos dá o familiar como surpreendente, como revelação. O familiar como aquilo que pensamos conhecer e afinal não conhecíamos bem. Nesse sentido, talvez seja de facto a melhor maneira de mostrar arquitectura.”.

Traz-me a escuridão do cinema para dentro desta casa

Neste sentido, aquilo que o cinema faz não está muito distante daquilo que arquitectura faz. “O cinema reorganiza o nosso olhar a partir de um ponto de vista sobre a realidade. No caso da arquitectura, quando chegamos a um sítio para intervir, já existe lá qualquer coisa. Podemos ignorar isso, mas quando construímos, estamos inevitavelmente a reorganizar o que já lá estava. Para mim isso é fundamental. Os limites do que projectamos são sempre muito maiores do que os limites físicos do objecto arquitectónico propriamente dito. Aquilo que está à volta, perto, longe, faz parte do projecto. Pode haver rupturas, mas há uma reorganização e uma continuidade”. Esta é uma abordagem que se manifesta em Companhia, a exposição no Museu de Serralves. José Neves reorganizou o que lá estava, trabalhando com as circunstâncias, os seus limites e possibilidades. “Completamente”, concorda. “Havia o sítio, o Museu de Serralves, do arquitecto Álvaro Siza Vieira. Havia, digamos, o dono da casa, o Pedro Costa e os hóspedes dele, os outros artistas, e um programa, as obras para mostrar.” A reorganização comportava, no entanto, um paradoxo. “A primeira alínea do programa era: ‘Zé, traz-me a escuridão do cinema para dentro desta casa’. Ora, aquela casa é uma casa cheia de luz, de relações fortes com o jardim. Poderia parecer um contrassenso trazer para aquele museu tão luminoso e com uma arquitectura tão intensa, a escuridão da sala de cinema e do cinema.” Mas Companhia não se fechou no escuro, como uma blackbox, semelhante às que acolhem as obras em “vídeo” nos museus de arte contemporânea. “Uma das coisas em que pensámos logo foi a cor. Que escuridão trazer para ali? E, com a ajuda do João Pernão, que trabalha sempre connosco neste aspecto, acabámos por usar o amarelo mais escuro que existe, ou o negro mais luminoso que existe, porque tem amarelo. A percepção que teríamos e a memória que ficaria se fosse um negro neutro seria completamente diferente”.

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Escolhida a cor, ela caiu sobre as salas, entretanto rearticuladas, reorganizadas com uma subtileza intensa. Entramos na exposição pelo corredor e a rampa que sempre estiveram lá, mas não assim, sublinhados, separados das salas contíguas, conduzindo-nos à vertigem de Trás-os-Montes e à instalação de Rui Chafes e Pedro Costa. O espaço ao lado é um percurso em torno da sala onde se pode ver a instalação Alto Cutelo, que tem a configuração em planta da clarabóia existente, apagada. A sala é escura, mas aberta de um lado e do outro, permite que a luz penetre a partir de uma janela que se deixou aberta e que ilumina a carta de Robert Desnos. Deambulamos entre imagens, pintura, filmes, ecrãs grandes e pequenos, conduzidos pela arquitectura. A propósito da sala em que Paulo Nozolino e Pedro Costa se encontram, José Neves comenta: “Foi também uma alegria muito grande poder participar num trabalho em que, pela primeira vez, o Paulo Nozolino e o Pedro Costa estão juntos. Foi difícil. Como juntar bem um e outro? Aquele tríptico do Nozolino e aquele díptico do Pedro Costa? Também aqui se tratou de encontrar a posição e a distância certas entre eles num espaço que não existia no museu e que foi construído para este encontro se dar”. Fazer espaço ou fazer o espaço do museu desaparecer, sensação que se vai insinuando quando, depois de descermos as escadas, passeamos pela clareira das pinturas, entramos na floresta sagrada das fotografias de Jacob Riis. De repente, estamos mais próximos do cinema do que da arquitectura, com as colunas a sacralizarem os retratos profanos de pessoas. “Sim, aí há uma excepção, há um esquecimento da arquitectura do museu. Trata-se de uma espécie de sala hipostila, um espaço arquetípico na arquitectura, com muitas colunas. Na exposição, formam uma floresta de elementos verticais”. A floresta, que também pode ser vista como uma catacumba, antecipa o culminar da exposição, com Sweet Exorcist, simulando aí, no fim, uma sala de cinema.

De volta às disciplinas, é pertinente considerar Companhia um puro trabalho de arquitectura? E se sim, não será mais efémero que o trabalho convencional? “Sim, é mais efémero. Vai desaparecer rapidamente e permanecer apenas na memória. Mas toda a arquitectura é efémera, mais até do que as outras artes. A obra do Proust está como ele a escreveu. Diria que quase nenhuma obra daquele tempo estará hoje como foi construída. A arquitectura é para ser vivida e as marcas que vai incorporando com essa vida fazem parte da sua natureza, mas vai-se degradando, vai sendo alterada, demolida, quando não é destruída desde logo com uma construção má ou descuidada.”

Para lá da memória e da permanência, são as circunstâncias que determinam a organização e a requalificação do espaço. Todas as obras são distintas. “Estar a fazer uma casa a partir de um pequeno reduto do século XVIII, sobre um penhasco, a dez metros do mar, na Ilha da Madeira, ou fazer um pequeno Museu, num edifício urbano, em Tomar também são situações completamente diferentes”, sublinha antes de regressar ao cinema. “Nessa casa, a relação com a vista do mar é feita por uma grande janela, uma espécie de cinemascope exagerado. Um enquadramento que acompanha o horizonte. Aí não há alpendre”.

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CASA JOAQUIM PINTO E NUNO LEONEL E CINEMA IDEAL Não seria a mesma pessoa, ou o mesmo arquitecto, se não gostasse de cinema como gosta, ou se não tivesse visto A Desaparecida, de John Ford, diz José Neves... Casa Joaquim Pinto e Nuno Leonel e cinema ideal Não seria a mesma pessoa, ou o mesmo arquitecto, se não gostasse de cinema como gosta, ou se não tivesse visto A Desaparecida, de John Ford, diz José Neves...
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Laura Castro Caldas e Paulo Cintra

Estar com os outros

Aproveitando o desvio, eis a oportunidade para perguntar: o Ideal era um projecto que o arquitecto José Neves tinha desejado ou imaginado fazer? “Nós, os arquitectos, nunca sabemos bem o que nos vai calhar em sorte (risos). A sala de cinema é feita para desaparecer, de certo modo, enquanto está a ser usada. Mas a memória que tenho do cinema é a da sala estar sempre presente e nunca esquecermos que estávamos num espaço, juntos, a ver cinema. O interior da maioria das salas de cinema não era pintado de negro”. E José Neves regressa à Encarnação: “Lembro-me de estar no balcão e de ver, de cima, os outros miúdos. A arquitectura tem a ver com a condição de estarmos a sós, profundamente sós, e em companhia. Ora, essa condição transportada para o cinema é para mim é uma das experiências mais intensas que conheço.” Para o Ideal, a solução foi fazer um halo escuro à volta do ecrã, um tecido negro que o isola, mas deixando perceptível o resto da sala. Um equilíbrio, pois, considera José Neves, não vemos cinema, sozinhos, num sítio totalmente escuro, mas num lugar específico onde estão outras pessoas. A ver e a ouvir. “Fazer o projecto do Cinema Ideal foi um grande prazer”, observa. “O Pedro Borges demonstrou uma grande coragem cívica. Pensou sobre o que existe e o que não existe hoje em Lisboa e encontrou um modo de resistir”.

Voltamos à arquitectura. Onde se coloca José Neves quando pensa e desenha? “Quando estava a fazer o Cinema Ideal, a posição do espectador era para mim imediata, facílima”, responde.” Mas quando estou a construir uma escola também sou eu que estou a dar aulas, que sou a criança no recreio, que sou o funcionário que está a abrir a porta de manhã, cedo. Esta posição é vital. O Fernando Pessoa dizia que era poeta para estar sozinho. Qualquer arquitecto dirá: eu sou arquitecto para estar com os outros”. E como cineasta, imagina-se José Neves enquanto tal? Não o terá sido já em Companhia? “Sim, talvez… Como se trata de uma exposição, há uma relação entre o espaço e o tempo que é muito diferente da relação que existe na maior parte dos programas de arquitectura. Há neste caso uma sequência, uma sequência organizada a partir de um programa, de uma montagem definida pelo Pedro Costa. Uma exposição presta-se a esse passeio em sequência, a uma promenade architecturale como lhe chamava Le Corbusier. A organização espacial do Centro de Artes do Carnaval, em Torres Vedras, que está neste momento em obra, corresponde exactamente a uma sequência contínua de espaços, e a ideia que tenho é, de facto, a de uma montagem. Entramos por um velho matadouro, subimos umas escadas escuras circulares, desembocamos numa nave com uma janela ao fundo que enquadra a escarpa que resta de uma velha pedreira, voltamos a descer, estamos numa praça pública, etc.. É um plano sequência, com contrastes entre o escuro e claro, com uma sequência muito nítida de espaços. O gosto pelo cinema também não pode deixar de entrar nessa relação entre montagem e organização. A montagem é organização dos planos, e nós fazemos a organização dos espaços”.