"As pessoas continuam a viver como se isto não tivesse fim. Isto é limitado, não vale a pena perder tempo"

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Joaquim Pinto (à esquerda) e Nuno Leonel RUI GAUDÊNCIO

A intimidade num ecrã andava desaparecida... Reencontramo-la num filme enorme. Vinte anos com o HIV e com a hepatite C. Joaquim Pinto, Nuno Leonel. E Agora? Lembra-me. Uma história do amor, estreia esta semana no Festival de Locarno.

O mundo visto daqui, do miradouro do Picoto: a aldeia da Columbeira lá em baixo; castros e grutas arqueológicas a pontuarem em redor hipóteses sobre os primeiros homens; à esquerda, junto ao mar, Porto das Barcas, onde no final dos anos 80 ficou suspensa uma promessa para o cinema português; ao fundo Óbidos e, mais longe, como uma extensão deste mundo que se consegue avistar, fica Madrid. Como num filme de Minnelli, "on a clear day you can see forever", e é muito o que se vê em E Agora? Lembra-me.

Joaquim Pinto, 56 anos, técnico de som, produtor de momentos áureos do cinema português, cineasta (Uma Pedra no Bolso e Onde Bate o Sol mergulham-nos na nostalgia pelo que não continuou...) está duplamente infectado há quase 20 anos com o HIV e com o vírus da hepatite C. A Columbeira é a aldeia para onde se retirou e de onde, apesar de ter uma empresa que aluga material técnico ao "meio" e apesar dos telefonemas que lhe vão dando notícias do "meio", assiste ao cinema de fora - já não tem resistência física para aguentar uma rodagem. É ali que se deixa obcecar pelos (seus) vírus: quer saber tudo sobre a vida eufórica dos vírus e da sua interacção com a vida - sem demonizar: um vírus, como aquele que lhe faz mal, é também responsável por tudo de frondoso que o rodeia; e permitiu-lhe separar o essencial do acessório e mandar para trás o que tinha como adquirido.

Foi da Columbeira que, durante um ano, com início em 21 de Novembro de 2011, viajou para Madrid para se submeter a tratamentos experimentais do vírus da Hepatite C - para o qual não existe vacina. Os tratamentos são prolongados, os efeitos secundários traumáticos e a taxa de sucesso limitada, sobretudo para portadores de HIV. No seu caso, o vírus provocou uma hepatite crónica que evoluiu para cirrose.

Mas ali na Columbeira, em redor, há vestígios de um amanhecer humano. O que sinaliza, para Joaquim, um equilíbrio (que já foi) perdido. "Há o perigo de pensar que estamos no centro das coisas. E com isso estamos a fazer mal a nós próprios", diz. Há em E Agora? Lembra-me a visão de algo que foi violado ou truncado - quando Joaquim diz "estamos todos infectados", a metáfora quer-se literal e vice-versa. "Quando voltarmos ao pó, a vida respirará de alívio." Por um pequeno segmento da História do Universo que se fechou.

"Antigamente mediam-se as coisas por milénios. Agora há uma aceleração, a degradação mede-se por décadas." Atira a imagem de uma espécie a caminhar estonteada e inconsciente para se esborrachar de encontro a um vidro: nós. Em background, lutas que envolvem interesses económicos, governos, investigadores e indústria farmacêutica, "cientistas brincando aos deuses, efeitos especiais a preços de saldo".

"As interacções entre vírus e bactérias sempre existiram, mas há uma aceleração nestes processos. Todas as semanas há coisas a acontecer. Mas estamos todos cegos para as evidências - é como a violência na TV. As pessoas continuam a viver como se isto não tivesse fim, como se tudo isto não fosse contingente. Isto é limitado, não vale a pena perder tempo." É vasto o que se vê em E Agora? Lembra-me, documentário que terá estreia mundial, em competição, no Festival de Locarno (dia 8), e que tem já agendadas exibições no QueerLisboa (20 a 28 de Setembro) e, em competição, no DocLisboa (24 de Outubro a 3 de Novembro).

Inundado de memória(s)

Em Madrid, os tratamentos deixaram-no knock out, com ligações ténues à realidade. Tinha de pensar antes de um movimento. Tinha de querer para querer. As dores tornaram maus os dias daquele ano que o filme documenta: uma começava na cabeça, dava a volta por trás e acabava num dedo, "como se tivesse sido desenhada a marcador". Era preciso manter o optimismo, propunham os médicos. Joaquim responde com o riso da radiografia dos seus dentes devastados pelos efeitos secundários. E a memória várias vezes ausentou-se. Perdeu óculos, não encontrou chaves, deixou papéis espalhados pela casa para não se esquecer, esqueceu-se das ideias que escreveu para não se esquecer.

Mas é um filme inundado de memória(s). Se nos lembrarmos de documentos terminais sobre como morrer com o vírus, La Pudeur et L"Impudeur, de Hervé Guibert (1992), Blue, de Derek Jarman (1993) ou Silverlake Life: the View from Here, de Tom Joshlin (1993), então este the view from Columbeira, a experiência de viver com o vírus, pode integrá-los no seu ADN, pode ter memória deles - Joshlin, Jarman e Guibert não podiam ter outros filmes e só tinham um presente irremediável que condicionava a memória do seu passado. Mesmo que seja exagerado o entusiasmo de alguém como Alain Cavalier ao dizer que "os homos­sex­u­ais são os pais do cin­ema na primeira pes­soa. Por causa da urgên­cia que sacode essas pes­soas, dev­ido à sida" (http://blogues.publico.pt/camaraescura/2013/07/15/alain-cavalier-le-filmeur/), a intimidade que se expôs naquele cinema ficou adormecida. O filme de Joaquim Pinto acorda-nos.

"Naquela altura a sida era sentença de morte. Não é mais, a questão agora é viver com o HIV. Por isso as pessoas arranjam soluções de compromisso. Ou não falam ou passam por cima. Há pessoas que têm a sua vida profissional e pessoal e isso pode causar dissabores. Eu não tenho nada a perder." Por isso achou importante "partilhar este processo".

Faz, em E Agora? Lembra-me, o seu "como cheguei aqui": 25 de Abril de 1974 e os filmes proibidos pela censura em Lisboa, Teorema, de Pasolini num cinema que passava pornos, Emmanuelle, Garganta Funda ou O Desprezo, de Godard. (A evocação do encontro numa cafetaria da faculdade, na RDA, para onde partira com bolsa, com a jovem Angela Merkel, é um episódio que serve à leitura deste filme como erupção de intimidade em tempos em que ela está em perda no espaço público, todo ele fabricado pela "crise").

Depois, 1979, ano em que as epidemias são declaradas extintas, e 1983, quando começam a aparecer notícias sobre uma doença que matava homossexuais. Em 1984 morre Michael Foucault. E em 1986 Joaquim começa a perder amigos: Copi, dramaturgo, Manfred Salzgeber, da secção Panorama do Festival de Berlim, Serge Daney, crítico... Em 1995, no final da rodagem de Comédia de Deus, de João César Monteiro, que ele produziu, "o colapso". "Conheço os sintomas mas não faço logo o teste." Em 1997, já com o diagnóstico de sida, acede às primeiras terapias antiretrovirais capazes de conterem o HIV ainda em fase de testes clínicos.

Ao vasculhar no baú... as imagens e os cheiros da rodagem de Uma Pedra No Bolso, ali ao lado, em Porto das Barcas. Encontra-se, em E Agora?, o pudor que já estava nessa estreia. É uma questão de cineasta e de cinema, o pudor. Dar-se-á conta Joaquim de que essa história interrompida é objecto hoje da nostalgia? Nada a fazer: de um lado, houve desencanto; de outro, nunca ter pensado fazer filmes "como uma coisa neutra".

"O trabalho não é uma coisa técnica que tem de se fazer bem. Ou me sinto motivado ou não consigo - quando não encontrava uma razão para fazer o que estava a fazer enquanto técnico de som, entrava numa espécie de depressão. Sobre os meus filmes... não senti urgência. A determinada altura, quando comecei a produzir, senti que era mais interessante possibilitar que outros concretizassem coisas. E percebo que tenha ficado uma coisa em suspenso."

É a caminho de Porto das Barcas que diz: "Se não fosse o Nuno, este filme não estaria aqui. Se não fosse o Nuno, eu não estaria aqui." O Nuno é Nuno Leonel, colaborador e companheiro da vida de Joaquim desde 1996. Nesta fase ainda não está "aqui", mas fará a sua aparição dentro de momentos. Quem aparece para já é João César. Isto porque ao falarmos de exposição íntima, de que Joaquim não tem medo, notámos que ela talvez seja coisa sem tradição nas imagens portuguesas. O mais longe que se foi antes? Talvez César e o seu alter-ego João de Deus. Mas era uma personagem - embora Monteiro a continuasse na "vida real". (Joaquim lembra que César chegou a pensar em Roberto Benigni para Recordações da Casa Amarela; foi Otar Iosseliani que atirou: "Deixa-te de merdas, ninguém pode fazer isto melhor do que tu.") Fala-se de César porque essa relação "excitante, tumultuosa e complicada" ficará como fundadora para Joaquim. Ainda sobre cinema: conta como Comédia de Deus foi realizado, com o cineasta não em boas condições físicas e emocionais, ao contrário do que os mapas de trabalho ditam: podia-se estar três dias sem filmar, no quarto filmava-se de sol a sol. "Sempre me fizeram confusão os mapas de trabalho", diz Joaquim.

E é então que Nuno aparece. No filme, Joaquim avisa: "Não penso que ficarão a conhecer o Nuno." É verdade. Joaquim enuncia, e comprova-se ao vivo: uma "estranha capacidade para entender as plantas, falar com os animais, desconfia da linguagem". A primeira sensação é essa, a de que Nuno desconfia. Ouviu a palavra "exposição"... "Concordo com a ocultação. Exposto estou desde o início. Com o passar da vida as pessoas vão-se cobrindo. Não gosto de ter coisas presas a mim, nem sequer conceitos e preconceitos." Nuno, que também vive com os seus vírus, não queria participar no filme. Tinha outras prioridades. "Cuidar de nós. Preservar a vida." Depois aceitou. "Para o filme poder existir. Para ele. No início ele estava sozinho. Apontava para ele e apontava para mim." Há planos que Joaquim não se lembra de terem sido filmados (pelo Nuno), tal era o seu estado catatónico.

"Não olhamos da mesma forma", começa por dizer Joaquim. Separa-os, por exemplo, o facto de para Joaquim a ideia de cinema ser "pegar no que existe e com isso construir qualquer coisa", surpreender-se com o que não viu mas que o acto de filmar tornou perceptível. Qualquer coisa da ordem da revelação. Tem dificuldade em aceitar a criação a partir do zero, o que, na sua opinião, é mais de Nuno Leonel, que vem da animação. "Mas estamos em sintonia. Há coisas do filme que não consigo dizer quem é que filmou. E nem da minha parte nem da parte dele havia uma ideia consciente de enquadramentos para veicular uma ideia. Foi algo que passou por uma escolha entre o que víamos e ouvíamos, mais do que por haver uma vontade expressa de fazer assim ou assado."

Alguns dos planos mais misteriosos - talvez aquele com o Cristo - são de Nuno. Qualquer coisa da ordem da assombração. "Não tinha um propósito", diz Nuno. A não ser continuar uma luta de ideias com Joaquim, sobre Cristo, Deus, a crença. Nuno é crente, mas não religioso, Cristo basta-lhe. Joaquim diz que ele sabe a Bíblia de cor. "Todo este processo aproximou-nos. Ao contrário de outras relações que vão em decrescendo, a nossa não", diz Nuno. E Agora? é um diálogo silencioso entre os dois, prolongando as conversas que mantêm ao vivo. Para Joaquim foi uma iniciação. Não é que tenha partido do ponto de cepticismo; mas percebeu, sobre a palavra de Cristo, que "para além daquilo que nos é transmitido, e tendo em conta os erros de tradução e de transmissão ao longo dos séculos, há qualquer coisa que passa; que há uma espécie de conjugação entre a informação, a forma e o ritmo; que é a própria experiência de aceder, como se de uma obra musical se tratasse, e que nos atinge directamente".

Atinge-nos o sorriso de Nuno, que, desconfiando da linguagem, é um amoroso do trabalho e dos gestos - e um conquistador-nato. Confessa-se com vocação para a dispersão: DJ, músico, realizador de animação, mergulhador, bombeiro, agora agricultor... ou um espírito da floresta de um Éden formado por ele próprio, Joaquim e aqueles que os mantêm mais "fortes e resistentes", os cães Rufus, Zorra, Bambi e Cookie, ali deitados junto ao lado.