Opinião

O estado da God/Art

Sendo um dos autores maiores da arte cinematográfica, JLG não deixa de ser muitas vezes cabotino e irritante. Mas também sucede ser magnífico, de uma beleza convulsiva como em O Livro da Imagem.

O culto chega ao ponto de ainda antes de um festival começar já se escrever que o filme de Godard vai ser “o filme” do festival. Longe de ser um marginal ele é acolhido pelas instituições
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O culto chega ao ponto de ainda antes de um festival começar já se escrever que o filme de Godard vai ser “o filme” do festival. Longe de ser um marginal ele é acolhido pelas instituições REGIS DUVIGNAU/reuters

Que Jean-Luc Godard, JLG, seja um dos mais relevantes autores da arte cinematográfica e o mais importante vivo é indubitável. Isso não quer dizer que não haja questões – que até pode suceder serem bem graves – a colocar a filmes seus. Ora, houve e há um processo de deificação de Godard – é a God/Art. De facto o que ocorre é uma narrativa muito insistente nas escolas de cinema, que daí passa para blogs e sites, e para as cinematecas, chegando às páginas de crítica de cinema nos jornais. O ponto vectorial desta narrativa é apresentar a nouvelle vague e em particular JLG como o padrão de referência de todo o cinema moderno. E nem se trata de toda a nouvelle vague mas daquela dos jovens turcos, dos críticos dos Cahiers du Cinéma (Godard, Truffaut, Rivette, Rohmer e Chabrol). E neste ponto há uma primeira deturpação da(s) histórias e da História do Cinema.

Esses mesmos críticos/realizadores entenderam englobar também no movimento o grupo dito da “Rive Gauche”, com Resnais, Marker, Varda e Demy, mais Jean Rouch e o seu cinéma verité, o isolado Jacques Rozier e o singularíssimo, misterioso e desaparecido Jean-Daniel Pollet. E contudo, e contra estes factos verificáveis, a narrativa canónica da modernidade cinematográfica apenas refere os cineastas/críticos dos Cahiers.

Nos 50 anos de Maio de 68 o que sucedeu na Cinemateca Portugesa? Apenas e só a apresentação dos filmes do Grupo Dziga Vertov, o colectivo formado por JLG, Jean-Pierre Gorin e outros. Claro que o material sobre Maio de 68 é imenso mas como se pode ignorar um filme, Mourir à Trente Ans de Romian Goupil, e sobretudo (e seriam apenas mais duas ou três sessões mais) os Grupos Medvkine, impulsionados por Chris Marker e muito mais importantes em termos de cinema e de gesto político, com a câmara mesmo passadas aos operários?

Quanto aos filmes do Grupo Dziga Vertov não dá mesmo para acreditar. Como é que Godard co-assinou algo de tão indigno como Vladimir et Rosa? Quanto a Vent d’Est, devidamente enquadrado pode hoje ser apresentado como exemplo do que era o discurso marxista-leninista-maoísta dos anos 70, com as suas invectivas contra o “revisionismo” e o “social-imperalismo”.

Mas voltemos à God/Art. O culto chega ao ponto de ainda antes de um festival começar já se escrever que o filme de Godard vai ser “o filme” do festival. Longe de ser um marginal ele é acolhido pelas instituições. Desde que em 1980 houve Sauve qui peut (la vie) que é uma presença constante em Cannes, culminando neste ano com a Palma de Ouro especial que o júri pediu por este O Livro da Imagem que agora estreia – fora de Cannes, houve também Je Vous salue Marie em Berlim e Prénom Carmen (Leão de Ouro atribuído por um júri presidido por Bertolucci, marcando a reconciliação entre ambos), Allemagne neuf zéro e For Ever Mozart em Veneza.

Mas não se trata apenas do facto de ele ser um autor institucionalizado. Por muito que isto choque os godardianos militantes, há que dizer que durante longo tempo ele não deixou de ter em conta o comércio do cinema – e não se tratava apenas de uma Grandeur et décadence d’un petit commerce de cinéma, título de um filme seu, bem fraquinho aliás. Não; recorrentemente JLG procurou a moeda de troca que seriam os actores/vedetas. Jean Seberg em O Acossado; Brigitte Bardot em O Desprezo; Eddie Constantine em Alphaville; Jean-Paul Belmondo (que, é certo, ele tinha lançado em O Acossado mas entretanto se tornara uma estrela de primeira grandeza) em Pedro, O Louco; Marina Vlady em Duas ou Três Coisas que eu Sei Dela; Mireille Darc e Jean Yanne em Fim de Semana; Jane Fonda e Yves Montand em Tout va bien; Isabelle Huppert e Jacques Dutronc em Sauve qui peut (la vie); Isabelle Huppert, Hanna Schygulla, Michel Piccolli e Jerzy Radziwilowicz (este então famosíssimo por O Homem de Ferro de Wajda) em Paixão; Johnny Halyday e Nathalie Baye (casal na altura ultra-medático) em Détective; Alain Delon em Nouvelle vague; Gérard Dépardieu em Hèlas pour moi. E não se esqueça que para o King Lear (que redundou num monumental desastre, ridículo mesmo) Godard queria Marlon Brando e Woody Allen. A lista é suficientemente eloquente,

Mas há mais: JLG aceitou encomendas comerciais como Le rapport Darty, cadeia de lojas de electrodomésticos, Puissance de la parole (magnífico aliás) para a France Telecom ou o clip para France Gall. Então JLG é assim tão marginal?

O que sucedeu nos últimos anos, culminando nas Histoire(s) du Cinéma (que pus nos meus “10 mais” na última votação dos melhores filmes de sempre da Sight & Sound) e agora em O Livro da Imagem, é uma concepção artesanal em que ele monta domesticamente todo um banco de imagens, e de referências históricas e literárias, seguindo um princípio que aparece várias vezes nas História(s), “Montage, mon bom souci/Montagem, meu belo desassossego”.

Mas antes de irmos a isso, a concepção godardiana das imagens, do seu museu imaginário (assim mesmo, retomando a reflexão e o título de Malraux, e através disso a arqueologia do saber e da história do século XX), há ainda um intermezzo político que é preciso fazer. Enquanto Susan Sontag foi para Sarajevo durante o cerco, para encenar À Espera de Godot de Beckett, Philippe Sollers, em óbvia boutade, escreveu um texto de título Marivaux e Sarajevo dizendo que era mais importante montar uma peça desse comediógrafo setecentista. Pegando nessa boutade JLG imaginou então um grupo de jovens que representa Não se brinca com o amor de Musset, três deles querendo mesmo ir para a capital bósnia. “Bela” forma de solidariedade com Sarajevo, este For Ever Mozart, que JLG praticamente fez nas traseiras de sua casa, junto ao Lago Leman! E como se essa obscenidade não bastasse nesse catastrófico filme colectivo que é As Pontes de Sarajevo JLG limitou-se a um remix de Ecce Homo e Je vous salue Sarajevo! Ele que se atreva depois destas abjecções a vir com lições de moral e política! Para mais Filme Socialismo que é suposto ser declaradamente político é sim uma grandíssima chatice.

Mas feita toda esta revisão do percurso de um realizador deificado, importa então o mais importante, este maravilhoso O Livro da Imagem e a sua relação com as História(s) do Cinema (que a Midas relança em DVD, bem como versões restauradas de O Acossado e Pedro, O Louco, que esta semana estarão em sala),

Notar-se-á desde logo que as História(s) do Cinema tinham um título plural, O Livro da Imagem é no singular, aliás duplamente, “livro” e “imagem”. É-o assim, também, porque é ainda mais artesanal (ainda que imagem tenha um âmbito mais lato que cinema).

De há muito que Godard se interessa por tecnologias mais leves (Número Dois, de 1975, foi um dos primeiros filmes, senão o primeiro, a usar as novas câmaras Aaton). O Livro da Imagem é praticamente feito em computador, com alguns programas específicos. Mas o prólogo é curiosíssimo: JLG discorre sobre os cinco dedos, os cinco sentidos, os cinco continentes, etc... mas na imagem há uma “velhinha” moviola, isto é a mesa de montagem que se usava antes dos meios digitais, com as duas bandas, de imagem e de som. Só que se filma num telemóvel.

Depois vêm os sete capítulos. “Montage, mon beau souci” com uma quase infindável sucessão de extractos de filmes, como o famoso diálogo “lie to me” de Johnny Guitar de Nicholas Ray, Os Nibelungos de Fritz Lang, O Testamento de Orfeu de Jean Cocteau — já referência fundamental nas História(s) do Cinema – até à auto-citação de Le Petit soldat. Mas não são só extractos de filmes, também há pintura. Exceptuando o último capítulo (já lá iremos) montagem confunde-se com colagem.

E há as inevitáveis citações, um dos aspectos mais reconhecíveis do cinema de JLG. Deveras surpreendente é que a citação mais longa seja colhida em De Maistre, mestre do pensamento “reaccionário”, contrarrevolucionário e ultramontano, defensor da restauração da monarquia em França mas subordinada à suprema autoridade do Papa. Mas, no oposto do espectro político, não deixa de haver uma referência a um liberal de esquerda anti-estalinista, Orwell, comum cartão indicando o título de Homenagem à Catalunha. Como nas História(s) os cartões são fundamentais e, por exemplo, quem imaginaria JLG citando Michael Snow, La Région centrale?

Fundamental é que há também um plano da capa de um livro, Images en parole de Anne-Marie Miéville, mulher de JLG, creditada como co-realizadora de vários filmes e das séries televisivas godardiana, e autora singular de Aprés la reconciliation, em que Godard é actor e que é um “filme conjugal”. O Livro da Imagem é também um diálogo com Miéville e é no título do livro dela que JLG se inspira para designar o de O Livro da Imagem.

E depois há o surpreendente sétimo capítulo, o único em que JLG faz uma narrativa, indo buscar o título, Arabie Heureuse, a Alexandre Dumas!

E se há muitas referências explícitas também há as latentes, de Breton (“La beauté sera convulsive ou elle ne sera pas” em L’Amour Fou) a Rimbaud (e o “Je est un Autre/Eu sou um Outro” estava já subjacente ao magnífico JLG par JLG – autoportrait de Décembre).

E há o mais importante, interrogarmo-nos sobre o projecto godardiano como explícito em História(s) do Cinema e agora O Livro da Imagem. Como disse Jacques Ranciére em Jean-Luc Godard, La religion de l’art (CinémaAction nº 109, Où on est le God-Art) há em JLG uma funda interrogação sobre “o fim da arte”, questão patente em vários artistas e teóricos e a necessidade de a salvar, e uma oposição “muito arendtiana e adorniana” (até mais em Adorno, com as suas invectivas contra as “indústrias culturais” que em Arendt) entre arte e cultura.

The Old Place, o seu filme sobre o MoMA é a este respeito fundamental. Mas sobretudo JLG colhe em Malraux a ideia do “museu imaginário” o que é determinante nas História(s) e em O Livro da Imagem.

E por essa via ele vai também narrando a História. “Para mim a História é a obra das obras ou, se assim quiser, a que as engloba a todas, a História é o nome de família, há os pais e as crianças, há a literatura, a pintura, a filosofia... a História, digamos, é o todo em conjunto. Então a obra de arte se de facto é bem feita releva da História, deseja-se como História, de que é a imagem artística” (Jean-Luc Godard e Youssef Ishaghpour – Archéologie du cinema et mémoire du siécle – dialogue). É a Arte como duplo da História que assim se transforma também numa história artística.

Sendo indubitavelmente um dos autores maiores da arte cinematográfica, JLG não deixa de ser muitas vezes cabotino e irritante. Mas também sucede ser magnífico, de uma beleza convulsiva como em O Livro da Imagem.