“Índio em reserva é como animal em zoológico”, diz Jair Bolsonaro

Organizações alertam para perigo quando autoridades pretendem rever “aos poucos” as políticas de isolamento voluntário e abrir terras indígenas a exploração.

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Reuters/ADRIANO MACHADO

As terras dedicadas aos indígenas são demasiado grandes, eles querem ter acesso à riqueza que estas possam produzir, querem "internet" e “andar de avião”, diz o Presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro. Quando tomar posse, a 1 de Janeiro, muitos preocupam-se com as acções que se sigam a estas afirmações: a abertura de mais terras indígenas a exploração dos recursos naturais, aumentando a ameaça ao modo de vida de muitas das tribos.

Entre elas, está a ideia de reverter a política de não-interferência com as tribos isoladas do país. E é na Amazónia, em territórios que pertencem ao Brasil e ao Perú, que se concentra o maior número de tribos isoladas do mundo, que serão cerca de 140.

A antropóloga Susana Matos Viegas, investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS), avisava, numa conversa telefónica recente com o PÚBLICO, que as opções políticas para proteger as condições de vida destas tribos “são difíceis e estão em perigo com o aumento do racismo e da xenofobia e regimes menos democráticos”. Isto porque “a viabilidade para que estas pessoas possam existir exige uma certa visão sobre o mundo.”

E Bolsonaro vê a população indígena de um modo particular. Já afirmou várias vezes que “os índios em reservas são como animais em zoológicos”, argumentando que “não faz sentido” ter áreas tão vastas para as suas terras.

O Presidente eleito do Brasil é de opinião de que “o índio é um ser humano igual a nós”, e já antes tinha elaborado o que isso significa para si: “O índio quer evoluir, quer médico, dentista, internet, carro, viajar de avião. Quando tem contacto com a civilização, vai se moldando a outra maneira de viver, que é bem melhor que a dele. O índio não pode ser animal dentro do zoológico. Por que o índio não pode ter liberdade? Se quiser vender a terra, que venda, explore, venda.”

O líder indígena Davi Kopenawa Yanomani (de uma tribo não isolada) reagiu a esta forma de ver os índios: “o meu povo não disse a ninguém que nos queremos tornar brancos, que queremos exploração mineira, que queremos dinheiro”, afirmou, citado pelo diário britânico The Guardian. “O dinheiro passa como a chuva, como o vento. Nunca vi um indígena rico no nosso país”.

Kopenawa falou ao Guardian na abertura de uma exposição sobre os índios Yanomami no Instituto Moreira Salles em São Paulo, com imagens da fotógrafa Claudia Andujar. “O que era supostamente um projecto histórico transformou-se num projecto político urgente”, comentou o curador da exposição, Thyago Nogueira.

Uma das partes da exposição sobre os Yanomami detalha a sua luta pela sobrevivência em dois períodos catastróficos da sua História: o primeiro, quando a ditadura militar abriu, nos anos 1970, uma estrada pela sua floresta como parte da política de desenvolvimento forçado da Amazónia, e nos anos 1980, quando 40 mil garimpeiros invadiram as suas terras.

As políticas desde meados dos anos 1980 têm tido resultados. Ainda que haja casos de tribos específicas cuja população está a diminuir, a tendência é de crescimento: segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, de 146 milhões em 1991, o total da população indígena no mundo cresceu para 190 milhões em 2010. Isto quando ainda nos anos 1970 se pensava que as tribos estariam condenadas a extinguir-se.

Acabar com a demarcação de terras indígenas ou diminuir a sua extensão actual, comenta a antropóloga Susana Matos Viegas, “é já um desastre humano no nosso trajecto de diversidade”. Lamenta a opção por uma política que ignore “décadas de conhecimento e actuação sensível à complexidade do que significa o contacto com povos isolados" e considere o contacto "por alguma razão que não resulte da iniciativa explícita desses povos”.

Pior ainda, continua, “é uma negligência que viabilize que madeireiras, projectos de exploração de minério, projectos agrícolas motivados pela exploração de um solo como o da Amazónia, que é inadequado à agricultura ou pecuária, ou a construção de gigantescas hidroeléctricas invadam essas terras onde povos indígenas vivem em condições de ‘auto-isolamento’”.

Susana Matos Viegas sublinha que a diversidade não se esgota na biodiversidade. As tribos têm um papel e conhecimento diverso que contribuem para a riqueza da humanidade. “Ou há diversidade, ou não vamos sobreviver.

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