Johnson & Johnson terá ocultado presença de amianto no pó de talco

Empresa norte-americana teria sabido da presença da substância cancerígena nos seus produtos de talco, afirma a Reuters. É uma "teoria da conspiração absurda", defende a Johnson & Johnson.

Empresa foi obrigada a pagar quatro mil milhões de euros a 22 mulheres
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A empresa tem enfrentado processos multimilionários nos tribunais norte-americanos Reuters/Mike Blake

A gigante norte-americana de cosmética Johnson & Johnson (J&J) terá ocultado durante décadas que saberia da presença de amianto nos seus produtos de pó de talco. A acusação é da agência Reuters, que diz ter analisado documentos da empresa, alguns dos quais se encontram sob segredo de justiça.

A empresa tem enfrentado centenas de processos judiciais nos Estados Unidos movidos por consumidores que alegam ter contraído cancro devido à utilização dos seus produtos, mas tem negado a presença da substância cancerígena no pó de talco.

As suspeitas da presença de amianto nos produtos da J&J iniciaram-se, segundo a Reuters, em 1957, quando um laboratório externo apontou a presença de tremolite (um mineral fibroso que é um dos seis tipos de amianto) nas pedras de talco de um fornecedor italiano da empresa norte-americana.

Contudo, em 1976, quando a Food and Drug Administration (a entidade que fiscaliza a produção de medicamentos e alimentos nos Estados Unidos da América) começou a impor limites à presença de partículas de amianto nos cosméticos derivados do talco, a J&J afirmou não ter detectado qualquer amostra da substância nos seus produtos. Ora, de acordo com a investigação da Reuters, baseada em documentos produzidos no âmbito de vários processos judiciais, tal não será verdade: em pelo menos três análises feitas entre 1972 e 1975 foi detectado amianto no seu pó de talco — numa destas, numa concentração "significativamente elevada".

Desde então, e até ao início da primeira década do século XXI, a maioria das análises internas da J&J não identificaram a presença de amianto nos seus produtos, mas em algumas foram detectadas pequenas quantidades. A Reuters sublinha que apenas uma ínfima fracção do produto era testado e lembra que a Organização Mundial de Saúde indica que o amianto é perigoso mesmo em pequenas quantidades.

A empresa reagiu entretanto a esta investigação. Os advogados da J&J sublinham que o pó de talco da marca é seguro e que não contém qualquer substância nociva, argumentando que o consenso científico é o de que o talco usado para fabricar o pó não provoca cancro, independentemente dos seus componentes. 

"O artigo da Reuters é parcial, falso e incendiário. Simplesmente, a história da Reuters é uma teoria da conspiração absurda", declara a equipa legal da gigante de cosmética.

Nos tribunais norte-americanos, o sucesso da empresa na defesa perante os processos movidos por antigos consumidores tem oscilado. Em Julho, por exemplo, a empresa foi condenada a pagar quatro mil milhões de euros a 22 mulheres que afirmaram ter contraído cancro devido à utilização do pó de talco da marca. A J&J está a recorrer da sentença.

Esta sexta-feira, e perante a divulgação da investigação da Reuters, as acções da companhia registaram uma queda superior a 10% na bolsa de Nova Iorque.