Mulher recebe 110 milhões de dólares em processo sobre cancro e pó de talco

Empresa Johnson & Johnson já foi condenada em outros três processos no estado norte-americano do Missouri. Não há consenso na comunidade científica sobre a relação entre o pó de talco e o cancro.

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O pó de talco não contém asbestos desde a década de 1970 DR

Um tribunal do estado norte-americano do Missouri condenou a Johnson & Johnson a pagar uma indemnização recorde de 110 milhões de dólares (101 milhões de euros) a uma mulher que diz ter desenvolvido cancro do ovário por ter usado durante décadas pó de talco vendido pela empresa.

Ao todo há cerca de 2400 processos contra a empresa, que é acusada de não ter disponibilizado informação suficiente aos consumidores dos seus produtos com talco sobre o possível risco de cancro.

A capital desses processos é St. Louis, no estado do Missouri, onde os tribunais já condenaram a Johnson & Johnson em três julgamentos só no ano passado: em Fevereiro, 72 milhões de dólares à família de Jacqueline Fox, uma mulher que morreu de cancro do ovário; em Maio, 55 milhões de dólares a Gloria Ristesund, uma mulher que também diz ter desenvolvido cancro do ovário por causa do pó de talco; e, em Outubro, mais 70 milhões de dólares num processo semelhante movido por Deborah Giannecchini.

Mas em Março deste ano a empresa parecia ter virado a maré a seu favor, quando um outro tribunal de St. Louis lhe deu razão num processo movido por Nora Daniel. A sentença conhecida esta semana volta a pôr a Johnson & Johnson em risco de ter de pagar outras centenas de milhões de dólares, numa altura em que estão marcados mais julgamentos no Missouri para Junho e Julho e o primeiro na Califórnia.

O que está em causa

Na prática, as queixosas nestes processos acusam a Johnson & Johnson de nunca ter colocado nas embalagens dos seus produtos uma referência à possibilidade de uma ligação entre o talco e o desenvolvimento de cancro do ovário – todas elas usaram produtos da marca para a sua higiene pessoal ao longo de décadas, e é essa exposição prolongada, combinada com a ausência de advertências nas embalagens, que tem levado os tribunais a condenar a empresa.

Para além da Johnson & Johnson, também a fornecedora de talco Imerys Talc está a ser levada a tribunal, embora esta última tenha sido ilibada em metade dos processos que terminaram com uma condenação e obrigada a pagar indemnizações muito inferiores, na ordem das dezenas de milhares de dólares.

"Mais uma vez mostrámos que estas empresas ignoraram as provas científicas e continuam a negar as suas responsabilidades para com as mulheres da América", disse Ted Meadows, advogado da mulher que apresentou esta última queixa, Louis Slemp.

A empresa reagiu com uma expressão de solidariedade "para com as mulheres afectadas pelo cancro do ovário", mas mantém-se disposta a combater todos os casos em tribunal, e vai recorrer da sentença conhecida esta semana: "Estamos a preparar-nos para outros processos este ano, e continuamos a defender a segurança do pó de talco da Johnson & Johnson", disse a empresa em comunicado.

Há risco, ou não?

No seu "Manual do Cancro do Ovário", o Grupo Português de Estudo do Cancro do Ovário afirma que "o uso de talco cosmético no períneo, quer em loções de higiene íntima, quer em pensos higiénicos, preservativos ou diafragmas contraceptivos, foi incriminado como possível factor de risco para o cancro do ovário".

"É possível que o talco possa ser transportado e alcance os ovários. O talco pode estar contaminado com quantidade significativa de asbestos. Tal facto conduziu ao estudo de grupos de trabalhadoras que lidam com asbestos (amianto) e foi assinalado um risco acrescido de cancro do ovário nesses grupos. Também operárias que contactam com aminas e hidrocarbonetos aromáticos estão em risco de virem a contrair cancro do ovário", lê-se ainda.

Mas não há provas irrefutáveis de uma relação causa-efeito entre o uso de pó de talco nos genitais e o aumento do risco de cancro do ovário – a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Cancro, num documento de avaliação do risco de cancro, considera que o uso de pó de talco na zona genital é "possivelmente cancerígena para os seres humanos". Mas esta classificação de "possivelmente cancerígena" é usada para classificar "agentes em relação aos quais há indícios limitados da sua carcinogenicidade em humanos e indícios menos do que suficientes da sua carcinogenicidade em experiências com animais".

Segundo o especialista em Saúde da BBC, James Gallagher, "o talco na sua forma natural contém asbestos e pode causar cancro, mas o talco sem asbestos tem sido usado no pó de talco para bebés e outros cosméticos desde a década de 1970".

Para além disso, "os estudos sobre o talco sem asbestos têm dado resultados contraditórios", diz o especialista.

"Foi ligado a um risco de cancro em alguns estudos, mas teme-se que a investigação possa ter sido adulterada, porque normalmente baseia-se em pessoas e nas suas recordações sobre a quantidade de talco que usaram há muito anos. Há outros estudo que dizem que não há nenhum risco e que também não há nenhuma ligação entre o talco em contraceptivos, como diafragmas e preservativos, e o cancro."

A organização britânica Ovacome, que presta informação a mulheres com cancro do ovário, afirma que não existe qualquer prova de uma relação causa-efeito e questiona os estudos que a estabelecem, pondo a hipótese de contaminação nas luvas dos investigadores e a validade de estudos com poucas mulheres.

"Ainda não sabemos o que causa o cancro no ovário", lê-se num documento da organização. "Mas é provável que resulte de uma combinação de vários factores hereditários e ambientais, e não de uma única causa, tal como o talco. É também importante lembrar que, entre as milhões de mulheres em Inglaterra e no País de Gales, muitas delas utilizadoras de talco, apenas um número muito pequeno desenvolve cancro no ovário a cada ano. Por isso, mesmo que o talco aumente um pouco o risco, muito poucas mulheres que usam talco vão ter cancro do ovário. Para além disso, se alguém tem cancro do ovário e usou talco, parece improvável que o uso de talco tenha sido a causa do desenvolvimento do cancro", conclui a Ovacome.