Reportagem

O luxo de António é acordar às 9h no Inverno

O trabalho agrícola “dá uma sobrevivência". "Uma sobrevivência e mais nada", diz António. No campo, os rendimentos são incertos. O dinheiro é contado.

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António Cardoso dedica-se ao trabalho agrícola com a mulher. Têm receio da velhice, ?não conseguem poupar Adriano Miranda

Esta é a última de uma série de reportagens sobre pobreza. Todo o dossier pode ser consultado em: O que é ser pobre hoje em Portugal?

António Cardoso está a cortar aveia com uma roçadeira a combustão. O ruído ouve-se ao longe. Está a cortá-la para dar ao gado. Tem oito ovelhas. Antes de Abril, há-de cortá-la outra vez. Depois, há-de lavrar este pedaço de terra com vista para o Douro. No mês de Abril, costuma semear milho.

Este terreno não lhe pertence. Pertence a uma vizinha que já não o pode cuidar. “Ela faz-me o favor de mo emprestar e eu faço-lhe o favor de o manter limpo, cultivado”, diz o homem, de 58 anos. “Quando peguei nisto, estava cheio de mato.”

Mora em Castelo de Paiva, no distrito de Aveiro, sub-região do Tâmega. Isto é o Douro antes de começar a região demarcada, mas aqui também se produz vinho (verde).

Dedica-se ao trabalho agrícola com a mulher. Não se põe a desfiar quanto ganha aqui e acolá. Diz que o trabalho agrícola “dá uma sobrevivência”. “Uma sobrevivência e mais nada. É para comer e beber e pagar as despesas.”

Começa a pensar na “velhice” que se aproxima. A pobreza, que afecta 17,7% dos maiores de 65 anos, é um ponto de chegada de trajectórias de vida que tem menos a ver com escolhas do que com factores de natureza estrutural.

António trabalha desde pequenino. “A minha infância foi sempre a trabalhar com os meus pais na agricultura. Trabalhei com eles na agricultura até à idade de ir para a tropa. Fiz a tropa e voltei. Estive sempre ligado a este lugar.”

Trabalhou na agricultura a vida toda, mas não só. Esteve oito anos numa padaria, aqui mesmo, em Castelo de Paiva. E 20 anos numa fábrica de calçado que pertencia à Rohde, uma multinacional alemã, em Santa Maria da Feira.

A unidade era enorme. Chegou a empregar umas 1300 pessoas. Parecia que ia durar para sempre. António imaginava-se a trabalhar ali até estar mais perto da idade da reforma, altura em que, então sim, se dedicaria apenas à terra. Faria uma agricultura de subsistência, como vê fazer alguns.

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Há uns anos, a empresa entrou nas páginas dos jornais. Aquela fábrica acumulou prejuízos entre 2006 e 2008. Houve vários lay-offs. Em Setembro de 2009, a unidade foi declarada insolvente. Em Maio de 2010, fechou as portas.

António veio para casa sem indemnização. Não foi uma excepção. Os 984 trabalhadores que restavam ficaram todos credores da Rohde. As instalações foram vendidas em 2016, mas o dinheiro foi canalizado para despesas relacionadas com o processo.

Quando a fábrica fechou, António repensou a vida inteira. Só completara o 6.º ano. O que é que podia fazer com aquela escolaridade, aquela experiência, aquela idade? “Já não dava para andar por aí abaixo à procura de trabalho. Tinha 49 anos. Podia aguentar mais uns cinco anitos...”

Delineou um projecto e apresentou-o ao Instituto de Emprego e Formação Profissional. Recebeu o subsídio de desemprego por inteiro e investiu num tractor. Ao longo dos anos, tinha comprado algumas máquinas e utensílios. Podia prestar serviços agrícolas. “O dinheiro que ganhei lá em 20 anos foi gasto nestas coisas”, afiança, olhando para a roçadeira.

Cobra 15 euros por hora pelo serviço de tractor. “Há poucos pedidos”, diz. “No tempo da sementeira, há um ou outro que me chama.” Se não aliasse isso à criação de gado e ao cultivo da terra, dele e de outros, “não dava para sobreviver”. António e a mulher trabalham uns “dois hectares e meio”, uma parte deles, outra parte de outros, que lhes emprestam a terra. Produzem azeitona, milho, batata, feijão, tomate, couves e outros legumes. “Vamos equilibrando a vida.” Durante uma boa parte do ano, não há dinheiro a entrar no orçamento da família.

Agora mesmo está a roçar um pedaço de terra no lugar de Gondarém. Olha em volta e quase só vê abandono. “Há aí uma senhora que tem uma vinha. Para equilibrar a vida dela, ajuda um senhor idoso”, conta.

Parece-lhe que a agricultura está bem é para quem trabalha em grande escala. Para os pequenos agricultores, como ele e a mulher, nem por isso. “O dinheiro não é certo”, explica. “Hoje ganha-se, amanhã não.” Ora faz muito frio, ora faz muito calor, ora chove demasiado, ora não chove o suficiente. Acontece haver incêndios que tudo devoram, como no ano passado.

Ajuda ter casa própria. “Foi uma coisa que consegui no tempo em que trabalhei lá em baixo”, diz. Mesmo assim, “não dá para poupar”. “A gente tem qualquer coisa de lado para um momento mais difícil, mas isso vem de trás.”

Olha para o ganho e não vê sobra. “Não dá para dizer: vou passar umas férias à Madeira. E não é que eu não quisesse ir à Madeira.” O dinheiro está contado. Não dá para ir ao cinema, nem ao teatro, nem para jantar fora.

Pensando bem, foi uma vez de férias: “Estive acampado dois ou três dias no Gerês.” E ao domingo dá uma voltinha com a mulher. Ela é de Arouca. Ao fim-de-semana, gosta de ir ver a família dela. Pensando mais ainda, dá-se a um luxo: “Em vez de me levantar às 8h, levanto-me às 9h agora no Inverno.”

Do princípio de Abril ao fim de Setembro é um ver se te avias. É quando ele e a mulher amealham para o resto do ano. Levanta-se muitas vezes de madrugada. Aproveita tudo o que aparece. Andou, por exemplo, a carregar as uvas de Helena Matos, a tal que tem vinhas em Gondarém. “Essa está pior do que eu”, diz ele.

No mundo rural, como no mundo urbano, a pobreza afecta mais as mulheres do que os homens. A 15 de Outubro foi divulgado um estudo realizado em 17 países, incluindo Portugal e Espanha, pela empresa Corteva Agriscience, que aponta para o lento progresso no reconhecimento do trabalho agrícola das mulheres. Para lá das diferenças salariais, menos de metade sente-se valorizada.

Helena tem 70 anos e trabalhou a vida inteira. “Só fiz a quarta classe”, diz. “Naquele tempo era assim. Fiquei em casa, sempre. Agarrada à família, sempre. Depois, faleceu o meu pai, faleceu a minha mãe e lá fiquei.” Trabalhou muito. “Eu trabalhava em casa. Eu fazia costura. Eu lavrava. Eu andava com máquinas às costas. Eu fazia tudo. Eu ainda faço a poda na vinha. Vou plantar videiras na quinta-feira. Vejo videiras secas e vou lá.”

Já não faz tudo sozinha. “O senhor Cardoso vai com o tractor quando é preciso fresar a terra”, conta, referindo-se à preparação da terra para o cultivo. “Este ano, acartou-me as uvas.” Deu pouco. Demasiado calor em Agosto. Pelas suas contas, daí virão uns 1800 euros, mas não é tudo ganho. “Nas terras gasta-se um dinheirão.” É preciso tratar a vinha e as uvas e chamar gente. “Ninguém vai de graça.”

Não tem luxos. “Não tenho carro. Não vou de férias.” Mesmo assim, a vinha e a pensão, “a passar dos 400 euros”, não daria para tudo. “Se fosse só para mim, ia remediando, mas não é.” Tem em casa um irmão, divorciado, doente, desempregado aos 62 anos.

Há cinco anos, um vizinho, Orlando Faria Rodrigues, pediu-lhe que olhasse pela mulher, acamada. Entretanto ela morreu. E ele pediu-lhe que continuasse a trabalhar na casa dele. E ela ficou. “Dou uma ‘arrumadelita’ à casa, cuido da roupa, faço a comida.”

Não é só pelo “poucochinho” que ali ganha e que lhe permite ajudar o irmão, “também é pela amizade”. Fala de Orlando com grande entusiasmo. “Boa pessoa! Para ele está sempre tudo bem.” Já vai nos 90 anos. “Ele ainda conduz. Ele tem uns terrenos à beira do rio. Ele ajuda-me e eu ajudo-o.” Enquanto Helena conta isto, Orlando está na rua a serrar lenha, com uma pequena motosserra. Quando ele acaba, entra em casa, contente.

Estão sempre a mexer. Produzem os seus próprios legumes. De uma janela avista-se uma parcela de terreno com couves, favas, batatas. E têm cuidado com o que levam à boca. “Ele não come salgado. Não abusa. Sopinha ao meio-dia e à noite por cima da outra comida.” Se for preciso, têm centro de saúde a uns minutos e hospital a uma hora. “É ir vivendo.”