Dançar antes do trabalho? É um Regabofe Matinal

Lisboa já tem festas matutinas durante a semana, para dançar e tomar o pequeno-almoço antes do trabalho. Para já, decorrem no Juicy na primeira quarta-feira do mês.

Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria
Fotogaleria

A Rua Augusta ainda está silenciosa, praticamente vazia, cinzenta, como se recusasse acordar para o nevoeiro cerrado que gela esta manhã de Dezembro. Logo ali ao lado, no entanto, há quem tenha trocado mais uns minutos na cama para dançar antes de começar o dia de trabalho ao som de Ripa na Xulipa ou de um remix de Spice Girls. É mais um Regabofe Matinal, evento que chega a Lisboa para trocar as voltas ao conceito de festa dançante. A entrada é paga, com direito a carimbo na mão e um papelinho para trocar por uma bebida ao balcão, a música está bem alta e puxa para dançar como manda qualquer festa. Mas é quarta-feira, a porta fecha às 10h e o álcool é substituído por chávenas de chá, cappuccino ou smoothies.

Miguel Pires trouxe a ideia de Varsóvia, onde viveu durante cinco anos. Na capital polaca, o conceito era comum, mas com “música techno muito forte” e “umas sandes embaladas no dia anterior” para pequeno-almoço. “Lisboa é uma cidade que está a querer ser muito cosmopolita, com imensa gente nova, por isso achei que poderia funcionar cá, com as devidas alterações.” Miguel trocou o techno pelas sonoridades do funk e da disco – é ele quem comanda a pista na cabine de som –; substituiu as sandes “sem graça” por um menu de pequeno-almoço saudável e com a namorada, Joana Sousa Lara, criou a Regabofe Matinal. “Achamos que o nome dá imensa energia por si só”, contava Joana momentos antes.

A ideia é mesmo essa: contrariar a monotonia do quotidiano com uma festa matutina, onde é possível “estar com os amigos, tomar o pequeno-almoço, ganhar energia antes de ir para o trabalho e ficar mais bem-disposto”. Daí que o casal tenha escolhido as quartas-feiras. “Achámos que era uma boa altura para quebrar o gelo da semana e voltar a dar energia.” A primeira edição juntou cerca de 30 pessoas no dia 7 de Novembro. A segunda festa encheu esta quarta-feira o pequeno restaurante Juicy, na Baixa lisboeta.

PÚBLICO -
Foto

Carla, de 38 anos, soube do evento através do Facebook e decidiu desafiar os restantes membros da equipa com quem trabalha numa seguradora no Largo do Rato. Às 8h30, só Joaquim, 50, único homem do grupo, resiste à pista de dança. “Já é habitual acordar cedo. Assim temos uma manhã diferente e, como temos tido muito trabalho, sempre desanuviamos um bocadinho”, conta Carla. “Viemos preparar-nos para trabalhar”, ri-se Luísa.

Na mesa ao lado, foi João, 45, quem espicaçou os colegas mais novos, Ricardo e Francisco, de 26 e 27 anos, respectivamente. Não tarda, estarão todos sentados à secretária na Liberty Seguros, junto à praça Marquês de Pombal. Mas para já mantêm-se em conversa animada enquanto terminam o pequeno-almoço. Para eles, a dança hoje não sairá do prato. “Normalmente chegas ao trabalho, trocas um 'bom dia' com quem te cruzas no corredor e pronto. Aqui há outra energia”, compara Ricardo. A mesa vai somando opiniões: é engraçado; uma experiência diferente; dá para fugir à rotina; e ficar mais animado ao início do dia. “Até já vou trabalhar mais”, atira João, para gargalhada geral.

PÚBLICO -
Foto

O objectivo, conta Miguel Pires, é juntar “todo o tipo de pessoas”: advogados, consultores, artistas, estudantes, turistas. “Quero ter uma grande misturada.” O mais difícil será mesmo vencer a “resistência a coisas novas” dos portugueses e fazê-los adiantar o despertador a meio da semana. Para os brasileiros Fernando e Victor, a escolha “não foi muito difícil”: trocaram o ginásio pela festa, contam a rir. Vieram com uma amiga, a argentina Belen, que confessa estar atrasada para o trabalho. Devia entrar daqui a cinco minutos, mas a empresa é flexível e ela aproveita para dançar mais um pouco. “Não faria todos os dias, mas achei fixe.” Está uma “vibe gostosa”, dá para “encontrar os amigos” e “conhecer outras pessoas”, contam. “Já estamos a combinar vir à próxima festa.”

Para já, o Regabofe Matinal decorre no Juicy, restaurante vegetariano na Rua de São Julião, entre as 7h e as 10h da primeira quarta-feira do mês. Janeiro será uma excepção: a próxima festa está marcada para o dia 9. Mas a ideia é “aumentar o número de vezes por mês e o número de sítios”, conta a dupla responsável pelo projecto. Andam de olho na zona junto à Praça Marquês de Pombal – “achamos que passa ali muita gente que trabalha no Saldanha, na Avenida da Liberdade ou que vai para a A5”. E estudam a hipótese de expandir o conceito para os fins-de-semana, com brunch, e, eventualmente, ter festas semanais ao final da tarde “para quem gosta de dormir mais”. Crescer para outras cidades também não está fora dos planos. Miguel confessa que tem um amigo “que já quer fazer uma no Porto”.

Para Miguel, licenciado em comunicação com carreira na área da gestão, o mais importante era começar já, sem medo do frio. “Se conseguirmos embalar isto no Inverno, vai chegar o Verão e eu imagino isto num rooftop ou numa varanda, com bom tempo e o sol a nascer”.