Como Trump está a abalar o plano económico de longo prazo da China

A passagem progressiva da China de uma economia baseada em exportações baratas para uma economia verdadeiramente avançada enfrenta agora a política comercial mais agressiva dos EUA, colocando desafios nunca vistos nas últimas décadas a Pequim.

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Reuters/JONATHAN ERNST

Depois de três décadas de crescimento impressionante, que retirou o país da lista dos mais pobres para o transformar numa das maiores potências económicas mundiais, a China liderada por Xi Jinping vê a sua história de sucesso ser agora colocada sob ameaça. O plano de longo prazo de passagem de uma economia baseada nas exportações para um modelo mais equilibrado e sustentável está a ser abalado pela mudança de atitude das outras potências mundiais, principalmente os Estados Unidos, perante o sucesso chinês. E Pequim pode ser forçada a improvisar, se quiser contrariar um cada vez mais perigoso cenário de abrandamento económico.

O impacto das reformas iniciadas por Deng Xiaoping nos anos 1980 superou tudo o que se poderia imaginar na altura. De país essencialmente agrícola, a China passou a maior exportador do mundo e segunda maior economia mundial, com mais de 800 milhões de chineses a deixarem de estar em situação de pobreza extrema (a viver com menos de 1,9 dólares por dia), o que representa um contributo de cerca de 70% para a redução total da pobreza no planeta.

Este sucesso foi, em geral, aplaudido pelo resto do mundo, e até facilitado pela forma como os países mais ricos abriram os seus mercados aos produtos chineses, algo que se tornou particularmente evidente a partir do momento em que foi autorizada a entrada da China na Organização Mundial do Comércio em 2001. Desde aí, com taxas alfandegárias acessíveis, não foi difícil os consumidores e empresas norte-americanos e europeus habituarem-se a viver com o baixo custo dos bens "Made in China".

À medida em que os excedentes comerciais chineses se acumularam e as empresas europeias e norte-americanas começaram a deslocar a sua produção para a China (e para outros países asiáticos), foram subindo de tom as críticas às políticas seguidas por Pequim para garantir o sucesso das suas exportações: manutenção de uma divisa relativamente desvalorizada, práticas laborais muito abaixo dos concorrentes, ajudas de Estado exageradas e aplicação de preços abaixo de custo em alguns sectores.

No entanto, à China foi sendo sempre dado tempo para proceder às alterações na sua economia. E Pequim tem, ao longo dos últimos anos, dado motivos para acreditar que essa mudança é mesmo real.

Respondendo à crescente pressão internacional mas também aos interesses próprios do país na procura de um padrão de crescimento mais sustentável, Xi Jinping traçou um plano de longo prazo que tem como objectivo fundamental diversificar as fontes de rendimento da economia, reduzindo a dependência da China das suas exportações de produtos baratos para as grandes potências económicas da América e da Europa.

Fazem parte deste plano políticas como uma maior flexibilização da divisa, uma política salarial mais generosa para promover a procura interna, o investimento em investigação e tecnologia para aumentar o valor acrescentado dos produtos chineses e um ambicioso plano de expansão internacional, denominado “Belt and Road” ("Uma faixa, uma rota", na tradução oficial, replicando conceitos da Rota da Seda), que poderá ligar a China a novos mercados na Europa, Ásia e África através de uma rede de portos, linhas de comboio, estradas e parques industriais.

Pelo meio, e enquanto a economia não muda completamente de face, para conseguir manter o crescimento sempre acima dos 6%, sem recessões nem sobreaquecimentos, a China tem conseguido aplicar políticas monetárias e orçamentais expansionistas ou mais restritivas, conseguindo evitar crises graves mesmo quando no resto do mundo o cenário era de depressão.

Agora, contudo, a China enfrenta um desafio diferente e que não estaria previsto no plano estratégico da sua liderança. A vitória de Donald Trump nas eleições de 2016 trouxe para a Casa Branca uma administração que revela de forma aberta que considera a China como a sua maior ameaça económica e estratégica. E que apontou a China como a principal responsável pelos problemas económicos dos EUA, devido a práticas comerciais classificadas como injustas.

Donald Trump não se limitou às palavras, como chegaram a esperar os líderes chineses, e passou mesmo à prática, aplicando taxas alfandegárias mais elevadas em 250 mil milhões de dólares de produtos importados da China, ameaçando ainda ir mais longe.

A resposta da China a esta nova estratégia norte-americana tem vacilado entre assumir-se como uma potência mundial, retaliando em igual medida com as suas próprias taxas, e a procura de um acordo com a Casa Branca mostrando-se disponível para cedências.

Um dos problemas para a China é que este confronto com os EUA surge numa fase delicada para a sua economia, que tem vindo a registar nos últimos trimestres um abrandamento. A OCDE projecta que, depois de um crescimento de 6,6% este ano, a variação do PIB chinês seja de 6,3% em 2019 e de 6% em 2020.

Existe o receio de que, no caso de uma continuação da guerra comercial, estes números possam ser ainda mais baixos, colocando em risco a estabilidade social na China, um cenário que as suas autoridades tentam evitar a todo o custo.

Pelo lado positivo, a China tem alguns pontos fortes, nomeadamente os instrumentos que tem disponíveis para aplicar políticas orçamentais e monetárias expansionistas (algo em que a Europa e os Estados Unidos podem ter mais dificuldade). E além disso, a dependência da China relativamente às suas exportações é agora mais baixa do que há 10 anos , tendo o seu peso no PIB passado de 35% em 2007 para 18% em 2017.

Seja como for, Trump e a suas tácticas negociais extremamente agressivas trouxeram aos líderes chineses, conhecidos por gostarem de planeamentos de longo prazo, um sentimento de urgência.

Na reunião do G20 do passado fim-de-semana, Xi Jinping, antes de viajar para Lisboa, acordou com Donald Trump uma trégua de 90 dias para os dois países chegarem a um acordo. Para já, do lado chinês, a cedência feita para garantir que os EUA suspendem uma nova subida de taxas prevista para 1 de Janeiro, foi a promessa, ainda não quantificada, de mais compras de produtos norte-americanos.

Nos próximos três meses, a forma como irão decorrer as negociações comerciais com os EUA, vão revelar de que forma Pequim vai optar enfrentar o novo desafio colocado por Trump.