Editorial

George Bush, as boas lições de um homem sensato

Foi a sua modéstia, pragmatismo, sentido de serviço público e honorabilidade pessoal que lhe garantiram um lugar de relevo no turbulento e exaltante final do século XX.

George Bush jamais seria homem para sobreviver à política radicalizada, fanfarrona e intolerante que hoje se pratica na América (e em boa parte do mundo). Mas foi exactamente a sua modéstia, pragmatismo, sentido de serviço público e honorabilidade pessoal que lhe garantiram um lugar de relevo nesse turbulento e exaltante final do século XX. Como qualquer líder com poder para governar a maior potência do mundo e de influenciar a vida de centenas de milhões de pessoas em diferentes geografias, a sua biografia está longe de ser consensual. No geral, porém, até a esquerda moderada pode suspirar pelos anos de 1990, quando havia essa confortável sensação de que o bloco democrático tinha uma linha de rumo para enfrentar os problemas globais.

George Bush foi capaz de construir a “ponte entre uma das maiores linhas de fractura da História”, como se lê no texto de Teresa de Sousa, e o mundo deve-lhe o seu contributo decisivo para o final da Guerra Fria. Se Ronald Reagan, a quem serviu como vice-presidente, ajudara a derrubar os muros do bloco soviético com ousadia e provocação, George Bush influenciou uma nova ordem unipolar à custa da compreensão, da partilha e do uso justificado da força. O apoio a Gorbatchev, o impulso à reunificação alemã ou a punição a Saddam Hussein pelo ataque ao Kuwait ajudaram a definir uma nova ordem na qual alguns viram um “Fim da História” e a reforçar o papel da América como a líder virtuosa do mundo livre.

Se Bush foi grande na política externa, algumas das linhas de ruptura que se encontram nas sociedades ocidentais de hoje podem igualmente ser-lhe imputadas. A aplicação de políticas económicas baseadas na redução de impostos aos mais ricos e no corte de apoios sociais aos mais frágeis acelerou a acumulação de riqueza e a degradação da classe média. A estagnação ou até a diminuição dos rendimentos do americano comum foi determinante para a ascensão do populismo radical do tea party ou para a eleição de Donald Trump.

Pelos seus feitos ou pelas suas contradições, George Bush é um ícone incontornável de um tempo em que a humanidade pôde acreditar num mundo mais seguro, mais livre e mais esperançoso. Trinta anos depois, esse ânimo desfez-se. Recordar George Bush e revisitar o seu exemplo de homem simples, moderado e sensato é útil para encontrarmos respostas aos terríveis desafios que o Ocidente, e o mundo, enfrentam.