Crónica

Estragou-se o jantar

A associação dos correspondentes da Casa Branca capitulou perante Donald Trump, que faltou aos dois últimos jantares e admite agora estar presente no próximo.

A tradição do jantar anual dos correspondentes da Casa Branca arrancou em 1921, com um programa do comediante Bob Hope. Desde aí, mas especialmente a partir dos anos 80 do século passado, tem sido uma ocasião para o humor, por onde passaram reis da boa disposição como Peter Sellers, Danny Kaye, Jimmy Durante, Jay Leno ou Stephen Colbert.

Mas a festa acabou. Para o ano, o monólogo irá pertencer a Ron Chernow, biógrafo de respeitáveis figuras como George Washington ou Ulysses S. Grant. A associação dos correspondentes da Casa Branca capitulou perante Donald Trump, que faltou aos dois últimos jantares e admite agora estar presente no próximo.

O humor agreste da comediante Michelle Wolf, no jantar do ano passado, olhos nos olhos com a porta-voz da Casa Branca, revelou-se uma dose demasiado pesada para ser digerida pelos jornalistas e pelas suas empresas, que pagam as mesas do jantar de beneficência. Estranhos tempos estes em que um dos trechos mais polémicos foi esta pérola certeira, mas não especialmente ofensiva, dirigida à própria Sarah Sanders: “Ela queima os factos e depois usa as cinzas para criar a perfeita sombra negra nos olhos.”

O problema é menos do mau humor de Trump do que do desacerto dos jornalistas que, seguramente, deviam praticar mais vezes esse gesto libertador que é o riso perante algumas das irrealidades que o Presidente norte-americano consegue fabricar. Esqueceram-se, ou não querem, de ler Nietzsche: “Uma coisa eu sei, porém – aprendia-a, certa vez, de ti mesmo, ó Zaratustra: quem quer matar do modo mais cabal, esse ri/ Não com a ira se mata, mas com o riso.”

Já Trump não esquece a força do riso. Embora o próprio desminta, há quem assevere que foi num desses jantares de correspondentes em Washington que, ridicularizado por Barack Obama, ele terá tomado a decisão final de se candidatar à presidência norte-americana. Um jantar que ficaria marcado pela ironia, esse de 2011, em que Obama foi gozado pelo comediante Seth Meyers por demorar tanto tempo a prender Osama bin Laden. No dia seguinte assistiria em directo à morte do líder terrorista.

O humor tem essa capacidade de desafiar o poder da forma mais inesperada, mas nos tempos de divisões que vivemos é cada vez mais difícil praticá-lo, como perceberam Michelle Wolf e os jornalistas norte-americanos. As insinuações, os duplos significados, o subtexto, o ridículo, a caricatura, respiram mal entre os polícias da linguagem e os ânimos acesos de quem em tudo vê um ataque.

Mas é importante que ele vingue, mesmo que esmagado entre os fundamentalistas islâmicos (lembram-se de Charlie?) e uma antiga estrela de reality shows transformada em Presidente. O humor tem este poder de desafiar os intocáveis e todos somos capazes de reconhecer o seu carácter virtuoso e terapêutico, que faz com que, mesmo em momentos mais complicados, ele traga uma cor mais viva às nossas vidas. Vale a pena abraçá-lo, nem que, especialmente em tempos duros como estes, transporte com ele uma certa amargura e melancolia.

Como um dia escreveu o filósofo Henri Bergson: “O riso nasce como esta espuma. Ele assinala, no exterior da vida social, as revoltas superficiais. Instantaneamente, desenha a forma variável destes movimentos. Também ele é uma espuma à base de sal. Como a espuma se desfaz. Representa alegria. O filósofo que o colhe para o provar encontrará de resto muitas vezes, numa pequena quantidade de matéria, uma certa dose de amargura.”