Opinião

Saudade de um líder como Bush

George Bush foi um Presidente de grande carácter. Foi um grande Presidente dos EUA. Tenho muita saudade de líderes da nação americana como foi George Bush.

O meu primeiro contacto com George Bush e a sua mulher, Barbara, deu-se em Março de 1986, era eu primeiro-ministro, num jantar informal na residência de S. Bento. George Bush era então vice-presidente dos EUA e fora convidado para a tomada de posse de Mário Soares. A impressão com que fiquei foi muito agradável, quer do ponto de vista político, quer do ponto de vista pessoal. Bush era um homem extremamente bem informado sobre as questões políticas externas, em especial europeia e africana, mas conquistou logo a minha simpatia e a da minha mulher com a sua afabilidade natural. 

Estabelecemos com o casal Bush uma relação amiga que se manteve ao longo dos anos. Fomos convidados para passar um fim-de-semana na casa dos Bush no Maine, Kennebunkport, antes do início da minha visita oficial a Washington, em Outubro de 1986. Os laços estabelecidos nesse descontraído contacto prévio foram muito importantes para os encontros que mantive em Washington nas visitas que efectuei. Numa visita oficial em 1990 fomos convidados pelos Bush para um encontro na parte privada da residência da Casa Branca.

Já depois de ter deixado a presidência dos EUA e a actividade política, veio a Portugal em 1994 e voltámos a encontrar-nos. Da sua mulher, registei uma frase que quase nos gritou para marcar como era importante para ela: "Há vida para além da política". Bush voltou a Lisboa para a minha tomada de posse como Presidente da República.

Nas duas visitas que efectuei à Casa Branca sendo George Bush Presidente, destaco as conversas referentes à guerra civil em Angola, em Janeiro de 1990, em que defendi as negociações directas entre o Governo e a UNITA, tendo em vista alcançar a paz e a reconciliação da nação angolana. Segundo o subsecretário de Estado Herman Cohen, essa conversa terá contribuído para a mudança da posição norte-americana em relação a Luanda.

Em Maio de 1991, quando foi assinado o acordo do Estoril para a paz em Angola, Bush enviou-me uma mensagem em que sublinhava enfaticamente o papel desempenhado pelos negociadores portugueses.

George Bush era um Presidente com um conhecimento profundo das questões internacionais, como tive oportunidade de testemunhar nas conversas que com ele mantive na Casa Branca após a queda do muro de Berlim. Falámos sobre a reunificação da Alemanha, a evolução política e económica na Europa Central e Oriental, o papel da NATO, o processo de integração europeia e a invasão do Kuweit pelo Iraque.

Bush teve sempre uma posição positiva em relação a Portugal. Bush foi um amigo de Portugal. Recordo como acolheu muito positivamente a proposta que lhe apresentei de renegociação do acordo de cooperação e defesa entre Portugal e os EUA de 1951, face à nova situação internacional, acordo que veio a ser assinado em 1995, já no mandato de Bill Clinton.

George Bush foi um Presidente de grande carácter. Foi um grande Presidente dos EUA. Tenho muita saudade de líderes da nação americana como foi George Bush.