Opinião

É proibido compreender!

No Brasil, o desbragamento do Pêtismo deslegitimou a esquerda. Não é possível enganar toda a gente o tempo todo.

Se há coisa apelativa na vida, é certamente a de poder inquirir o mundo com plena liberdade. Compreender os fenómenos humanos, sociais e políticos que se verificam nos dias de hoje (como, aliás, no passado) é certamente um desafio a que nenhum intelectual se deve ou pode eximir. Uso aqui a palavra "compreender" como designando um conceito epistemológico específico das Humanidades, que as insere na tradição alemã do Verstehen (compreensão), por oposição às explicações nomotéticas próprias das chamadas ciências exactas ou disciplinas científicas.

Um abismo epistemológico separa estes dois grandes continentes do Saber. Este abismo foi assinalado por Giambattista Vico na sua obra Scienza Nuova, publicada em 1725. Dizia ele que havia “coisas” que se viam e conheciam de fora, como a abóbada celeste e os movimentos dos astros, por exemplo; e “coisas” que se viam e conheciam por dentro, como um regime moral ou a História, por exemplo. Porquê? Porque existiam fenómenos totalmente alheios a qualquer interferência humana – fenómenos naturais –, a par de fenómenos que, pelo contrário, eram obra da acção dos homens. Tudo o que se sabia “por dentro” pertencia ao reino do verum; tudo o que se sabia “por fora” pertencia ao reino do certum. Os fenómenos humanos podiam, portanto, ser "compreendidos" a partir das motivações humanas, e quem, melhor e mais do que os próprios homens, podia penetrar nelas?

Max Weber, em finais do século XIX, consagrou a chamada “Sociologia Compreensiva”, que teve, especialmente na Sociologia alemã, cultores brilhantes como Tönnies ou Simmel. A "compreensão", escreveria Berlin na segunda metade do séc. XX, exige “penetração empática, simpatia intuitiva” e até Einfühlung. Isto, que é um exercício impensável a respeito de uma galáxia ou de um átomo do universo, é um exercício indispensável se quisermos perscrutar “os motivos, propósitos, esperanças, medos, amores, ódios, invejas, ambições” (I. Berlin) que estão na origem das acções e movimentações dos seres humanos organizados em sociedade (ou não). Acções e movimentações consciente e racionalmente decididas – o que não significa que, projectadas num tecido de relações sociais em que são prosseguidos fins múltiplos, as intenções originais de cada um se venham a concretizar. Mas este facto não invalida o potencial cognitivo da “compreensão”. Em suma, não é possível entender fenómenos sociais, enquanto produtos humanos, da mesma maneira que se explica a composição do granito.

Vem isto a propósito do Brasil e da eleição de Bolsonaro. No final de Outubro, este jornal publicou um artigo meu intitulado “O povo é fascista”, em que eu sondava – tentava compreender – o que poderia ter levado uma clara maioria de brasileiros a votar num indivíduo não apenas ingramável como perigoso para a sobrevivência da Liberdade e Democracia. O artigo era curto e bruto, porque não acato, por regra e princípio, a ditadura do “politicamente correcto”, que permite à esquerda varrer para baixo do tapete as questões mais incómodas para a sua imerecida preeminência moral e política. Escrevi então, entre outras coisas, que para a maioria dos brasileiros uma hipotética solução para o cancro da corrupção desalmada, com metástases já disseminadas de cima abaixo na sociedade, nunca poderia ser alcançada com a cooperação do PT – porque isso seria o mesmo que abrir gentilmente a porta aos gatunos e convidá-los para jantar e pernoitar. No dia 1 de Novembro, o PÚBLICO publicou uma entrevista telefónica com António Araújo, que prezo e conheço pessoalmente. E lá estava: a “compreensão ou justificação do fenómeno Bolsonaro [...] revelou pessoas mais autoritárias; pessoas que a pretexto de compreender acabam por apoiar” (itálico meu).

Pelos vistos, “compreender” tornou-se perigoso: indicia propensões autoritárias e transigências indecentes. É extraordinário como a direita, em Portugal, está, com poucas excepções, mentalmente colonizada pela esquerda! É extraordinário como se submete humildemente à chantagem político-ideológica da esquerda! Para António Araújo, “o espaço da direita liberal está cada vez mais confinado”. Porquê? Face à entrevista de António Araújo, que exemplifica a generalizada genuflexão da direita perante a esquerda, a lógica autoriza uma única explicação: porque “o espaço da direita liberal” deveria ser... à esquerda! Absurdo? Não: a direita liberal portuguesa – pouco liberal e muito portuguesa – não deve e não pode atrever-se a ofender a esquerda, porque é esta quem determina o que se considera legítimo na polis. E donde procede a concessão à esquerda do extravagante privilégio de delimitar as fronteiras da polis? Da lamentável demissão, da covarde abdicação da direita.

Tout comprendre c’est tout pardonner”, dizem os franceses. Não espanta, porque a “Ideologia francesa” (B.H.Levy) carrega no seu ADN uma notória predisposição autoritária. A frase parece bonita, soa bem, mas não é verdadeira, é enganosa. Precisamente porque "compreendo" demasiado bem o que foi e o que é o Pêtismo, é que não perdoo, e pelo contrário condeno. Bolsonaro não passa do byproduct de um Pêtismo que fez do Estado brasileiro e arredores um alfobre de vigaristas e ladrões, cuja festança obscena, caucionada por belas justificações humanitárias, chegou ao fim. No Brasil, o desbragamento do Pêtismo, para já, deslegitimou a esquerda. E a esquerda não se deve queixar de Bolsonaro, muito menos dos “fascistas” que votaram nele, mas sim dela própria. Não é possível enganar toda a gente o tempo todo.