Raed Fares foi assassinado e deixou “a Síria inconsolável”

Autor dos cartazes que fizeram da pequena Kafranbel a “consciência da revolução”, era uma das vozes mais respeitadas entre os que recusavam capitular perante o regime e os extremistas que sequestraram a revolta.

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Raed Fares com os filhos, Mohamad e Ahmad DR

A “Síria está inconsolável”, escreveu o grupo de defesa de direitos humanos The Syria Campaign a propósito do assassínio de Raed Fares e de Hammoud al-Juneid, na madrugada desta sexta-feira em Kafranbel, província de Idlib. Pode parecer exagero, mas “a Síria” a que o comunicado se refere tinha no activista transformado em jornalista (ex-agente imobiliário) Raed Fares um dos seus heróis – e um dos últimos, depois de tantos mortos e exilados.

A notícia da morte de Raed Fares provocou uma vaga de mensagens de pesar nas redes sociais. Activistas, jornalistas, sírios no exílio e sírios que resistem na Síria. Todos choram o homem por trás da “consciência da revolução”, como ficou conhecida Kafranbel, pequena cidade de 30 mil habitantes. Sírios e não só habituaram-se a esperar pelas sextas-feiras para saber o que Kafranbel lhes preparara: faixas em árabe e inglês com mensagens dirigidas ao mundo; desenhos e palavras capazes de comentar a actualidade trágica da Síria (e não só) com humor e sarcasmo.

“Costumávamos acordar cedo a cada sexta-feira para ver o que o brilhantismo de Raed Fares tinha inventado para as últimas faixas de Kafranbel. Esta sexta acordámos com notícias impensáveis. O homem excepcional desapareceu. O meu amigo desapareceu. A nossa dor colectiva é avassaladora”, escreveu no Twitter Lina Sergie, sírio-americana, arquitecta e escritora, uma das fundadoras e a actual presidente da organização não-governamental Karam Foundation, que trabalha com refugiados e deslocados dentro da Síria.

Raed Fares participou pela primeira vez num protesto a 1 de Abril de 2011 – a primeira manifestação acontecera em Deraa, a 18 de Março – em Kafranbel. Acordou cedo e nunca deixou de acreditar na revolução. Fundou a Radio Fresh, onde empregou 600 pessoas e com a qual tentava preservar a sanidade dos sírios, encurralados entre um regime assassino e jihadistas sem escrúpulos. O primeiro centro de media que criou foi bombardeado duas vezes pelos aviões de Bashar al-Assad e atacado outras tantas pelo Daesh.

Raed Fares sobreviveu a um atentado, atingido com três disparos no peito, em 2014. Levou quatro meses a recuperar e muito mais a conseguir respirar normalmente. Em 2016, foi raptado e torturado pela Frente Nusra (antiga Al-Qaeda na Síria). Antes e depois foi convidado a viajar pelo mundo, aceitou algumas vezes, recusou muitas mais, e voltou sempre à Síria. Quando era entrevistado era invariavelmente fotografado a sorrir, sempre que alguém lhe pedia ajuda respondia.

“A pressão da sociedade civil e dos media funcionou e ganhou, derrotou a violência. A Al-Qaeda libertou-me”, disse no ano passado, numa intervenção nas conferências da plataforma Oslo Freedom Forum, em Nova Iorque. “A revolução são ideias e as ideias não podem ser mortas com armas.”

“Deixámos de ser animais”

Raed Fares terá sido morto por combatentes da Aliança Hayat Tahrir al-Sham (coligação que incluiu o que resta da Frente Nusra), que controla grande parte da província de Idlib e tinha tentado calar a Radio Fresh.

“É preciso ser-se um tipo especial de pessoa para gerir uma rádio numa área controlada por militantes islamistas no Norte da Síria. A música está proibida, tal como as mulheres apresentadoras. Mas Raed Fares inventou uma resposta criativa para as exigências dos jihadistas”, noticiava a BBC no ano passado.

Pássaros a cantar, ruído de galinhas, cabras, longas sequências som do relógio Big Bang, de Londres, o assobio dos mísseis a voar antes de caírem, explosões… Estes sons passaram a antecipar os noticiários e continuavam em pano de fundo enquanto se ouviam as notícias. Em vez de canções, a rádio de Raed Fares começou a passar hinos entoados por claques de futebol, só palavras, nenhuma melodia. E as mulheres jornalistas foram substituídas por homens? “Não, tenho outra solução para isso. Passamos as vozes delas por um programa de computador que faz com que soem como homens”.

Percebe-se que Raed Fares fosse uma inspiração para a Síria dos que iniciaram a revolução em 2011 ou dos que, sem terem participado nesses primeiros protestos, acreditaram no sonho de uma Síria livre. Declarado inimigo pelo Estado e por todo o tipo de radicais que combatia com as palavras, estava cada vez mais sozinho. Era um dos últimos líderes activistas de 2011 vivo e na Síria. No Oslo Freedom Forum recordou a primeira manifestação que ajudou a organizar: “Parecia irreal. Estava ultrapassada a barreira do medo. A 1 de Abril deixámos de ser animais”, disse.

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Um dos cartazes de kafranbel Reuters

“Os bons morrem”

“Há uma constante na guerra da Síria: os bons morrem. O activista pró-democracia Raed Fares foi assassinado com o seu colega Hammoud al-Juneid”, escreveu no Twitter Liz Sly, chefe da delegação do jornal The Washington Post que cobre a região. “Heróis absolutamente excepcionais. Perdas maiores do que as palavras permitem expressar”, reagiu Wendy Pearlman, professora de Ciência Política especialista em Médio Oriente que foi várias vezes à Síria nos últimos anos e publicou livros sobre o país.

“A revolução síria perdeu um dos seus mais importantes activistas pela paz”, afirmou outro activista dos direitos humanos e jornalista sírio, Abdalaziz Alhamza. “Estou a ficar sem palavras. Prometemos continuar a luta até alcançarmos a nossa liberdade.”

“Sexta-feira era sempre dia de Raed. Raed é um ícone para muitos sírios, vemos Raed e pensamos nos conhecidos cartazes de Kafranbel, lembramo-nos dos protestos pacíficos contra todas as atrocidades”, escreve a organização The Syria Campaign. “Em 2013, Raed criou uma rádio independente para avisar as pessoas de Idlib sobre ataques iminentes e criticar o extremismo. Por causa do seu trabalho revolucionário foi ameaçado por grupos terroristas e por apoiantes do regime.”

“Mensagens alternativas”

A Radio Fresh era apoiada pela Human Rights Foundation (a mesma que organiza o Oslo Freedom Forum), e chegou receber dinheiro dos Estados Unidos destinado a grupos humanitários. Quando Donald Trump decidiu congelar o orçamento para estas organizações, Raed Fares publicou um texto de opinião no Washington Post: “Sem grupos como a Radio Fresh para oferecer mensagens alternativas, outra geração vai pegar em armas para fundar a segunda e terceira edições do Estado Islâmico”.

Raed Fares tinha 45 anos, era casado e pai de três filhos. A vida em Idlib era insuportável mas o activista não parou de organizar manifestações, mesmo que já não fosse possível realizar protestos a cada sexta-feira.

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Na sua página de Twitter a última publicação é de 5 de Outubro: um vídeo de uma multidão a manifestar-se em Kafranbel, a uma sexta-feira. A anterior é de 21 de Setembro, de novo sexta-feira, e Raed com os filhos Mohamad e Ahmad a caminho de uma manifestação.