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Vidas suspensas, talento desperdiçado e um país no divã

Mariana, Carolina e Beatriz são actrizes. Mas não conseguem ser apenas actrizes. Os percursos, sonhos e desilusões de três actrizes a dar corpo a Antes de Borla Que Mal Pago, uma peça-manifesto da Palmilha Dentada.

Responderam ao convite da Palmilha Dentada pelo sonho do palco. No final, a bilheteira será distribuída entre todos e certamente não será valor de encher carteiras. Mas desta vez não importa. Porque em Antes de Borla Que Mal Pago tudo é diferente. Mais do que uma peça de teatro, Ricardo Alves encenou um manifesto. Uma reflexão sobre o actual momento das artes performativas em Portugal, e no Porto em particular. Uma mostra do imenso talento que se perde. Só no Porto, revela o encenador, meia centena de pessoas saem para o mercado todos os anos. E o espaço para elas, com o fecho de muitas companhias e ausência de políticas, é cada vez menor. 

Mariana L. Ferreira, Carolina Coutada e Beatriz Wellenkamp Carretas, três dos 16 artistas que integram a peça da Palmilha, contam o que é ser actriz em Portugal hoje. Os percursos, os medos, as desilusões e algumas soluções de quem não desiste da arte. Mas esmorece.

Mariana L. Ferreira, a acrobata internacional em busca de rede lusa

Está inscrita no centro de emprego em busca de biscates para compor um orçamento oscilante. Já se mostrou disponível para distribuir cartas, fazer formações de vários tipos. Desde que voltou a Portugal, sonha “ser lixeira ou jardineira” e não perde uma oportunidade de meter conversa com os trabalhadores que vê na rua quando vai passear os cães. Até hoje, ninguém a convocou. Terá “habilitações a mais”, suspeita.

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Mariana L. Ferreira tem 36 anos Paulo Pimenta

Mariana L. Ferreira era miúda virada para as artes visuais até ser “pescada” nas ruas do Porto para modelo fotográfico. Ao perceber-lhe o talento, uma professora de expressão corporal aconselhou-a um dia a fazer uma audição e Mariana embarcou numa “viagem de curiosidade”. Percebeu cedo a “seriedade” do ofício com a pedagogia de João Paulo Seara Cardoso, no Balleteatro. E depois de iniciar a carreira como performer, em 1999, nunca mais parou. Sobretudo além fronteiras.

Actua, dança, canta, faz acrobacias num trapézio. Tem formação no Dell’Arte International School of Physical Theater California, no Circomedia Bristol UK, um bacharelato de teatro na Noruega, um mestrado na Suécia. Um sem número de workshops com artistas internacionais.

Antes de embarcar na aventura sueca, Mariana já se questionava sobre uma estratégia que lhe desse mais oportunidades no seu país, onde a máxima “longe da vista, longe do coração” lhe tem cortado as asas. Depois de muitos anos fora, queria voltar a fazer do Porto a sua base. Mas tem esbarrado em obstáculos que não encontra fora. Na Suécia, era estudante, artista, professora de circo. Pagava contas, descontava para a reforma e tinha uma vida para lá da pura sobrevivência. Em Portugal, no Porto, isso ainda se revela missão impossível. E não é por se fechar na redoma da arte. “Tenho muita energia, mas ter muita energia para ser explorada é uma coisa na qual tenho de fazer finca-pé.”

Mariana Ferreira, 36 anos, tem um plano de acumulação do “máximo de biscates possível” para perseguir o sonho de trabalhar na sua cidade. Depois de sábado, quando a peça da Palmilha Dentada sair de cena, vai apostar no trabalho num restaurante, tentar fazer mais sessões como modelo nu e “ganhar coragem para atacar a rua” com as suas performances. Por uns meses, vai substituir uma actriz numa tour em Inglaterra.

Para o país, propõe um “plano de sustentabilidade” a “dez ou 20 anos", traçado pelo Estado mas também pelas estruturas. Uma responsabilização de ambos. Só assim o sonho das artes pode um dia ser real. “Apenas penso ser jardineira porque vejo que é muito difícil superar o nível da sobrevivência”, admite como se voltasse ao início da conversa: “Prefiro fazer a sobrevivência com outro tipo de trabalho e ter tempo e disponibilidade para a arte depois.”

Os altos voos de Carolina Coutada não aterram nos palcos

No último ano em que trabalhou como professora, Carolina Coutada ficou colocada em Viana do Castelo, a quase uma hora de viagem do Porto. Entrava todos os dias às 8h15, saía às 18h30, tinha 15 turmas. Carolina resistiu, insistiu. Mas, a dada altura, o que ganhava não chegava para se manter: “Podemos manter-nos assim uns anos mas não dá para sempre”, conta, rendida às dificuldades da área docente combinada com a artística.

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Carolina Coutada poderá ter de voltar ao trabalho de hospedeira de bordo em breve Paulo Pimenta

Carolina é actriz e professora de teatro. Tem um curso profissional e uma licenciatura. Mas entretanto já fez de tudo: trabalhou em bares, como assistente de sala e bilheteira, foi assistente pessoal de um agente FIFA de Buenos Aires, hospedeira de bordo em jactos privados.

Quando desistiu do ensino e dos palcos, o Porto vivia tempos de “bunker”, recorda: “Os teatros fecharam, só havia produções no São João, o Rivoli estava com o La Feria, a programação de dança desapareceu, imensas companhias fecharam.” Trabalhar era apenas um meio de “pagar a existência cá” — e a actriz não via muito sentido nisso. “É precisa uma revolução social”, diz, “e não é só ao nível das artes”.

É por esse cenário desmoralizador que Carolina Coutada, 35 anos, revela alguma dificuldade em encontrar soluções: “Tem a ver com a nossa forma de vida e prioridades” e isso “durará centenas de anos a mudar”, afirma num encolher de ombros.

Quando há uns meses, numa pausa no seu trabalho como hospedeira, se cruzou com um casting da Palmilha Dentada, não pensou duas vezes: “Pensei ‘vou ser feliz’.” 

Se os “vedetismos” forem deixados à porta, o teatro pode ser “uma forma de estar”. Mas neste ofício que equipara a um “trabalho de atleta de alta competição” não parece haver lugar para tantos. Depois de sábado, ainda sonhará com a ideia de ser tornar produtora, mas já se imagina obrigada a aterrar na realidade e retomar os voos como hospedeira.

Beatriz Wellenkamp Carretas vive “um mês de cada vez” na enorme “sala de espera” da cultura

Entrou em palco pela primeira vez aos sete anos, frequentava audições com uma das irmãs, testemunhava ciclicamente as angústias do pai (o encenador e dramaturgo José Carretas) e da mãe (a figurinista e produtora Margarida Wellenkamp). E a magia do teatro só aumentava. Beatriz Wellenkamp Carretas tinha decidido: queria ser actriz. Mas ninguém a levava muito a sério.

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Beatriz vem de uma família ligada às artes e subiu ao palco pela primeira vez aos sete anos Paulo Pimenta

Quando, ao chegar ao 9.º ano, repetiu a mesma ideia, os pais sentaram-se a uma mesa com ela. Terapia de choque. “Explicaram-me o que é que ser actriz significava na realidade. Falaram-me de recibos verdes, subsídios, de tudo o que as companhias faziam para ter dinheiro”, recorda. E eu disse: ‘quero na mesma’”, conta. “Que estupidez”, comenta ironicamente.

Fez o curso na Academia Contemporânea do Espectáculo e, por imposição familiar, seguiu depois para um curso superior de teatro e cinema em Lisboa. “Não havia dúvidas de que era aquele o meu caminho.” Na capital, encontrou uma casa por 500 euros e foi construindo uma rede. Ao terminar a licenciatura, começou a agarrar todos os trabalhos que surgiam: em Lisboa, no Porto, em Coimbra. “Até que a senhoria dobrou a renda” e Beatriz teve de voltar a casa dos pais. “O mais difícil é viver nesta incerteza do que vem, se é que vem alguma coisa. Parece que estamos a construir algo e depois tudo desaba.”

Aos 25 anos, Beatriz ainda não está ainda na “fase super derrotista” de “fechar a caixa”. Nunca se arrependeu da escolha feita ainda na adolescência. Mas já afinou estratégias: “Percebi que posso ser actriz, mas não posso ser só actriz”. A fintar a vida precária das artes, já fez um pouco de tudo: trabalhou em bares, restaurantes, lojas. Fundou a companhia Caducados (e fechou-a em poucos meses).

A cultura, lamenta, parece nunca ser “levada a sério” em Portugal, nunca atingir o mesmo patamar de outras áreas. E as políticas limitam-se a “atirar dinheiro para tapar os olhos” às companhias. “Parece uma grande sala de espera”, diz, “constantemente a aguardar um ticket para ir ao médico, a esperar que ele nos diga que está tudo bem”.

Depois do sonho da Palmilha Dentada terminar, Beatriz Carretas vai continuar a trabalhar num restaurante na baixa do Porto. Em Janeiro, vai integrar um espectáculo para crianças. Tem algumas criações próprias na gaveta. Não angustiar em demasia é um aprendizagem que foi fazendo ao longo dos anos. “Vivo um mês de cada vez.” 

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