Crítica

O poder das concertinas, nas Danças de hoje e de sempre

Com o toque de Jaques Morelebaum, os Danças Ocultas mostraram ao vivo os sons do seu novo disco, mas sem renunciar à força e ao poder mágico das concertinas em festa.

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Danças Ocultas e Jaques Morelenbaum RUI FIGUEIREDO
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Danças Ocultas com Jaques Morelenbaum (violoncelo), Marco Figueiredo (piano) e Quiné Teles (bateria e percussões) RUI FIGUEIREDO
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Com Dora Morelenbaum RUI FIGUEIREDO
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Os agradecimentos, no final RUI FIGUEIREDO

Quem ouviu o mais recente álbum dos Danças Ocultas e nele descobriu uma sonoridade diferente, pôde agora confirmá-lo em palco. A apresentação em Lisboa de Dentro Desse Mar, no Tivoli BBVA, no âmbito da nona edição do Misty Fest, permitiu perceber o passo dado com os arranjos de Jaques Morelenbaum, que trouxeram um som mais aveludado ao grupo sem descaracterizar o essencial da sua sonoridade fundadora. Mas permitiu também, e essa é uma das vantagens das apresentações ao vivo, comparar a sonoridade de Dentro Desse Mar com a linguagem mais densa e ousada das concertinas, quando ficaram (e isso sucedeu em dois momentos fulcrais) os quatro sozinhos em palco.

Na noite de 3 de Novembro, com o quarteto (Artur Fernandes, Filipe Cal, Filipe Ricardo e Francisco Miguel), estiveram Jaques Morelenbaum, no violoncelo; a filha de Jaques, Dora Morelenbaum, a dar voz às duas únicas canções (com letra) ali ouvidas (uma delas repetida no final); Marco Figueiredo, no piano; e Quiné Teles, bateria e percussões. Foi com esta formação que se ouviram, a abrir, três dos temas do novo disco: Azáfama, São João e Dessa ilha, com Dora a interpretar Dessa ilha, a mesma canção a que deu voz no disco, com letra de Arnaldo Antunes. Sendo uma cantora ainda em princípio de carreira, Dora surge algo reservada, certa nos tons e nos tempos mas ainda sem uma centelha que a distinga de tantas boas cantoras que o Brasil vai mostrando. Lá chegará, até porque o “selo” musical da paternidade (Jaques e Paula Morelenbaum) é de inegável garantia.

Sem sair do novo disco, mas agora só com concertinas, os Danças Ocultas mantiveram Oníris no seu tom de valsa leve, juntando-lhe depois três outros temas do seu repertório, com um vigor mais desenvolto. Primeiro Esse olhar (de Pulsar, 2004), depois Moda assim ao lado (do disco de estreia, Danças Ocultas, de 1995) e Bulgar (de Ar, 1998). O regresso de Jaques e Quiné fê-los voltar ao novo disco, com Sorrisos, seguindo-se, com Marco no piano e Dora ao microfone, a segunda canção da noite, As viajantes (que no disco foi entregue à voz quente e grave de Zélia Duncan). Dora não se saiu mal desta prova, embora o insistente olhar para trás, no início, denotasse nervosismo. Por fim, só a concertinas e a violoncelo, ecoou a melancólica e austera beleza de Bailar em silêncio.

Sós em palco, os Danças Ocultas mostraram então a face a que mais nos habituaram nos seus concertos: a do poder mágico das concertinas, quando contracenam e se desafiam. O primeiro voo foi até Queda de água (do disco de 1995), seguindo-se Tristes europeus (de Pulsar) e o poderoso Casa do rio, a que juntaram a doce felicidade de Dança II, no que se afigurou um momento de exaltação ímpar, prova da excelência do som do grupo.

Com todos os músicos de volta ao palco, voltaram também as propostas do novo disco, agora com as deambulações sonoras e insistentes de Soldado. Os muitos aplausos (a sala estava quase cheia) suscitaram duas repetições: Dessa ilha, com Dora mais segura na interpretação, e Azáfama, para terminar como havia começado: com fulgor e ritmo. E com danças nada ocultas, numa sonoridade que se vai apurando a olhar o futuro.