Começou a "longa despedida de Merkel"

Chanceler anuncia que não se recandidata a liderança do partido. Mas mantém que quer terminar o seu quarto mandato.

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Merkel foi elogiada pelo seu discurso sereno, humilde e digno OMER MESSINGER/EPA

É altura para “um novo capítulo”, disse a chanceler alemã, Angela Merkel, apanhando todos de surpresa ao anunciar, esta segunda-feira, o princípio do fim da sua carreira; a sua “longa despedida da política”, como dizia o diário Süddeutsche Zeitung.

Merkel disse que não irá concorrer à liderança do seu partido, a União Democrata-Cristã (CDU), no congresso do início de Dezembro, ao contrário do que era esperado. Acrescentou que o actual mandato (o quarto) como chanceler será o seu último, mas prometeu continuá-lo até ao fim. Acrescentou que nas próximas eleições não se candidatará como deputada e não procurará outros cargos políticos.

Merkel sempre defendeu que a liderança do partido e a chancelaria deviam estar nas mãos da mesma pessoa, e esta é também a tradição do seu partido, onde a esmagadora maioria do tempo foi assim. Ao decidir desistir de uma e assim partir esta unidade, Merkel põe-se numa situação em que será difícil que cumpra o seu mandato até ao final e se mantenha na chefia do Governo até 2021.

Para já, o que o anúncio de Merkel fez foi levar a um coro de elogios entre comentadores, colegas de partido na CDU e dos outros partidos, com a excepção da Alternativa para a Alemanha (AfD) e do Die Linke (A Esquerda).   

"Como chanceler, tenho toda a responsabilidade pelo que aconteceu desde as eleições do ano passado, do que correu bem e do que correu mal", disse Merkel. No entanto, teve palavras duras para a performance do seu Executivo. “A imagem do Governo é inaceitável”, declarou, especificando que os problemas vão para além da comunicação, e "tocam na própria cultura de trabalho da coligação".

A saída da liderança da CDU vai-lhe permitir focar-se nos desafios do Governo, disse, para explicar porque tomou uma decisão contrária ao que sempre acreditou. Fazê-lo é um risco, admitiu, mas um risco calculado.

"Não nasci chanceler"

Lembrou ainda que é líder da CDU há 18 anos e está há quase 13 anos na chefia do Governo, afirmando estar “muito grata” pela oportunidade de servir o país. “Não nasci chanceler”, disse. “E nunca me esqueci disso.”

Merkel acrescentou que não vai interferir na escolha de quem se seguirá no partido: "Historicamente isso correu sempre mal e não vou tentar influenciar as discussões sobre o meu sucessor".

Merkel sucedeu ela própria a Helmut Kohl, que dissera querer que Wolfgang Schäuble fosse o seu “herdeiro”; Schäuble acabou por ser líder da CDU pouco mais de um ano. Atingido por um escândalo financeiro, que tocou também Kohl, foi afastado, deixando o lugar livre para Angela Merkel.

Mas se Merkel garantiu agora esta posição neutra, os candidatos que parecem estar a postos estão já divididos em campos “lealistas” e “críticos” em relação à chanceler. No campo dos lealistas, está Annegret Kramp-Karrenbauer, que foi proposta por Merkel para secretária-geral do partido, e assume agora uma candidatura à liderança. Fala-se ainda de Armin Laschet, um dos vices da CDU e governador da Renânia do Norte Vestefália, que seria do mesmo campo.

No lado oposto está Friedrich Merz, que foi líder do grupo parlamentar do partido e é um antigo crítico de Merkel, e o delfim da ala conservadora da CDU, Jens Spahn, actual ministro da Saúde; ambos também gostariam de se candidatar. Mas, nota o jornal Die Zeit, todos pertencem ao mesmo estado federado que é governado por Laschet. "Esta não é uma questão de quem grita primeiro 'estou aqui!', ironizou Laschet, deixando aberta a possibilidade de entrar na corrida mais tarde.

O tempo que se segue, de incerteza sobre quem se segue no partido, é visto por Merkel como “uma oportunidade”.

Centristas versus conservadores

Dependendo de que campo vença, haverá reflexo para Merkel: quanto mais próxima estiver a linha da liderança do partido, mais fácil será a situação rara de separação dos dois cargos; pelo contrário, uma liderança da CDU crítica poderá acelerar um afastamento da chanceler.

O analista Christian Odendahl, do Center for European Reform, faz no Twitter uma análise que, avisa, é “altamente especulativa”. Diz que o actual líder do Parlamento, Wolfgang Schäuble, poderá ter um papel decisivo ao decidir apoiar a ala centrista ou a ala mais à direita. Se vencer a centrista, Merkel continuaria quase até ao fim da legislatura. Mas “se Merz vencer, com a ajuda de Schäuble, a CDU vira à direita, tanto socialmente como economicamente – e Schäuble seria chanceler interino até 2021”.

Nesse cenário, continua, o SPD terá de decidir se se mantém ou não na coligação, e qualquer decisão pode ser penalizadora eleitoralmente. Já os Verdes “rejubilam, e continuam a subir”.

A tendência ascendente dos Verdes nas sondagens a nível nacional poderia dar uma vantagem a um campo mais centrista dentro da CDU. No entanto, para muitos que vêem a permissão de entrada de refugiados em 2015 como a política que custou a Merkel a sua popularidade e ditou o início da sua queda, escolher um crítico vocal desta política  poderia ser uma vantagem.  

Mas também importante será a posição do SPD.

Especulava-se que o futuro do Governo de coligação alemão pudesse depender dos resultados das eleições no estado federado do Hesse de domingo passado, pela fraca prestação dos dois principais partidos da “grande coligação”, CDU e SPD, mas sobretudo pela fraqueza dos social-democratas.

Esta eleição foi vista como um referendo à “grande coligação” entre democratas-cristãos e social-democratas no poder a nível nacional, e o descontentamento ficou evidente.

Agora, a decisão de Merkel pode deixar a líder do SPD, Andrea Nahles, sob pressão para também deixar o cargo. Merkel e Nahles vão encontrar-se durante o fim-de-semana para discutir o resultado das eleições.

O líder da juventude social-democrata, Kevin Kühnert, já veio pedir que o partido antecipe a avaliação do Governo inscrita no acordo de coligação com a CDU/CSU, que seria feita a meio do mandato.