Prémio Sakharov de Direitos Humanos para cineasta ucraniano preso na Rússia

Oleg Sentsov foi detido na Crimeia e condenado a 20 anos de prisão por “planear actos terroristas”. Em Setembro foi hospitalizado depois de quatro meses de greve de fome.

Oleg Sentsov
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Oleg Sentsov Reuters/SERGEY PIVOVAROV

O Parlamento Europeu atribuiu o Prémio Sakharov dos Direitos Humanos ao cineasta ucraniano Oleg Sentsov, que foi detido pela Rússia na Crimeia e condenado a 20 anos de prisão por “planear actos terroristas”. A União Europeia aproveitou esta distinção para exigir, mais uma vez, a Moscovo a libertação imediata deste e outros presos por fundamentos que Bruxelas considera serem políticos. 

O anúncio foi feito por Antonio Tajani, presidente do Parlamento Europeu, e o prémio será entregue no dia de 12 de Dezembro, ainda que Sentsov esteja na prisão de Labitnangui, uma cidade a mais de 4000 quilómetros de Moscovo.

Os outros candidatos a receber o prémio eram as organizações não governamentais que resgatam imigrantes no mar Mediterrâneo e Nasser Zefzafi, líder dos protestos na região marroquina do Rife e na cidade de Al Hoceima, que foi detido em 2017.

No final de Setembro, o cineasta ucraniano foi hospitalizado depois de quatro meses de greve de fome. Na altura, a União Europeia exigiu que Moscovo lhe desse tratamento médico apropriado e o Presidente francês, Emmanuel Macron, pediu directamente ao chefe de Estado russo, Vladimir Putin, que encontrasse uma “solução humanitária” para o caso. Em Junho os eurodeputados pediram também às autoridades russas que libertassem o realizador ucraniano.

Sentsov, de 42 anos, foi detido em Maio de 2014, na sua residência na Crimeia, depois de um protesto contra a anexação da península por Moscovo. Foram também detidos três suspeitos de cumplicidade, incluindo o activista político ucraniano Alexander Kolchenko.

Sentsov e Kolchenko foram acusados de fazer parte de um “grupo terrorista”, nomeadamente através da “coordenação e organização” de um grupo de activistas, na península da Crimeia, filiados no movimento paramilitar ultranacionalista ucraniano Pravy Sektor (Sector Direito). 

“Não considero sequer que este tribunal seja um tribunal”, disse Oleg Sentsov, numa das audiências do julgamento, que teve início em 2015 e foi considerado uma “farsa” pelo Governo de Kiev.

“Com a sua coragem e determinação, pondo sua vida em perigo, Oleg Sentsov tornou-se um símbolo da luta pela libertação dos prisioneiros políticos mantidos na Rússia e em todo o mundo. Ao atribuir-lhe o Prémio Sakharov, o Parlamento Europeu manifesta a sua solidariedade. Pedimos que seja libertado imediatamente. A sua luta relembra-nos que é nosso dever defender os direitos humanos em todos os lugares do mundo e em todas as circunstâncias”, afirmou Tajani em Estrasburgo. 

O Presidente ucraniano, Petro Poroshenko, reagiu ao anúncio, afirmando, numa publicação no Facebook, que “todo o mundo democrático está a lutar pela liberdade e vida [de Sentsov]”.

Também o primeiro-ministro ucraniano, Volodimir Groisman, utilizou o Twitter para dizer que este prémio é “mais uma chave para desbloquear a prisão de Oleg”

A reacção mais contundente em Bruxelas chegou de Guy Verhofstadt, antigo primeiro-ministro belga e líder dos liberais no Parlamento Europeu: “Oleg Senstov foi levado do seu país, torturado e aprisionado na Rússia sob acusações fabricadas, sem acesso a um julgamento justo. Espero que o Prémio Sakharov o ajude e a todos os ucranianos condenados na Rússia por motivos políticos para que sejam libertados e regressem ao seu país de origem.”

Este prémio é atribuído pelo Parlamento Europeu anualmente desde 1988 e distingue personalidades ou organizações que se destacam na defesa dos direitos humanos e das liberdades fundamentais. 

No ano passado, o prémio foi atribuído à Oposição Democrática na Venezuela. Este ano, dois anteriores vencedores do Prémio Sakharov, Denis Mukwege e Nadia Murad, foram distinguidos com o Prémio Nobel da Paz.