Reportagem

Marionetas anti-solidão e uma história de amor nascida em palco

Nos 30 anos do Teatro de Marionetas do Porto, a comunidade sobe ao palco para mostrar que um outro teatro é possível. Um auto-retrato, o belo das histórias anónimas e as marionetas como sinónimo de inclusão.

A Saul Salgado não é difícil explicar o amor. Mesmo que venha depois dos 70. Estava viúvo há um ano quando aconteceu. Conceição Pereira também. No mesmo centro de dia, em Campanhã, somavam anos e subtraíam companhia. Perderam os companheiros de uma vida, viram partir amigos e vizinhos. Os filhos cresceram, a vida aconteceu. E ao fim do dia, quando a chave rodava na porta de casa, apenas o vazio. “A solidão é terrível, a solidão mata.” E nessa cratera havia espaço para o amor. Saul e Conceição já se conheciam, mas tornarem-se um casal era tão improvável como fazerem-se actores. Ele aos 76 anos, ela aos 72. Aconteceram as duas coisas, a primeira por causa da segunda. Como nos filmes — ou numa peça de teatro.

“Apaixonámo-nos um pelo outro e quebrámos com a solidão que é terrível. Não desejo a ninguém.” Saul e Conceição estão no palco do Teatro do Campo Alegre, no Porto. É o penúltimo ensaio antes do grande dia. Esta sexta-feira, 19 de Outubro, naquele mesmo espaço, dá-se a estreia absoluta de Quem Sou Eu? (21h). Há uns seis meses que o casal fez do teatro abrigo de solidões, motor de uma vida nova. São dois dos 12 actores recrutados por Isabel Barros em centros de dia da freguesia oriental do Porto, onde o Teatro de Marionetas inaugurou um polo há dois anos. Para celebrar as três décadas da instituição criada por João Paulo Seara Cardoso (1956-2010), programou-se a reposição de uma peça por mês, desde o início do ano. Em Outubro, para a única criação de raiz, com o apoio da Câmara Municipal do Porto e integrado no Festival Internacional de Marionetas, Isabel Barros queria algo “diferente”, onde se trabalhasse a “proximidade à comunidade” de Campanhã.

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Saul Salgado e Conceição Peixoto apaixonaram-se durante os ensaios Nelson Garrido

Aos seniores pedia-se um olhar pelo espelho retrovisor e uma análise do reflexo de hoje, agora que todos somam mais de 65 anos. Um “auto-retrato” que pretendia ser “uma viagem às memórias, à procura do belo que há em cada um”. Porque cada um tem uma história que merece ser contada: “Se calhar nunca tinham pensado nisso, mas quando falei do assunto essa consciência foi activada. Foi quase como se sentissem que as suas vidas dariam um livro.” Na memória da encenadora guardam-se momentos de rara cumplicidade e aprendizagem. Como no dia em que pediu aos actores que, com uma marioneta na mão, a olhassem e improvisassem algo. “Automaticamente começaram a falar para alguém que perderam. Foi supertocante. De repente começámos a chorar”, recorda. “Foi um momento de rara beleza.”

Em Quem Sou Eu?, acredita Isabel Barros, cabe um parte da “compreensão do que pode ser o teatro contemporâneo”. E pelas marionetas postas em palco, fabricadas como duplas dos próprios actores, desenhou-se um renovado sentido de comunidade e de inclusão. Uma arma de combate à solidão. Às vezes, Isabel ia dar com os actores abraçados às marionetas como se abraçassem um bebé ou alguém querido. Como se cuidassem deles mesmos. Alguns dos novos artistas já vieram avisar a directora do museu com sede no número 57 da Rua de Belomonte, centro histórico do Porto, que não vão parar de criar depois do dia 19. Nos seus centros de dia, com as marionetas criadas para a peça e oferecidas pela companhia a cada um dos actores, pretendem ser uma espécie de animadores culturais.

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Manuel Silva foi para o Centro Social Paroquial da Senhora do Calvário para “folgar um bocadinho de casa”. Há seis anos, a tragédia irremediável do Alzheimer apanhou a mulher e fez dele ferido crónico. Mora perto, no bairro de São Roque, e não dispensa aquelas horas de oxigénio. Quando o tempo se põe quente, procura “a sombrinha das árvores” e lê: a vida de Aristides de Sousa Mendes há pouco tempo, a de D. Maria II agora. Desde Abril, encontrou nos palcos uma renovada alegria. A Isabel Barros confiou um amontoado de papelada onde escreve o que sente, quase sempre em rimas. Ainda hoje, no seu carro, acumula papéis, anota pensamentos de quando em vez. E nesta viagem de já mais de seis meses falta ainda o apogeu da estreia de Quem Sou Eu?, quando do belo anfiteatro os filhos o virem em palco.

Natural de Amares, distrito de Braga, Manuel Silva tornou-se padeiro aos 13 anos. Três das irmãs eram criadas de servir no Porto e ele tentou a sorte na cidade grande também. Vivia em casa de uma tia, trabalhava à noite. Em 65, a vida mudou. Da guerra da Guiné, onde esteve dois anos, guarda cicatrizes incuráveis: “Agora fala-se em traumas, na altura ninguém falava disso.” Não importa que nome se dá à dor. Manuel Silva, 75 anos, chama-lhe “maldita guerra” na peça, deixa cair lágrimas quando a conversa chega a África. Teve “sorte, muita sorte”, por sobreviver. Mas viu muitos ficar lá. “Devia ter sido tratado, talvez”, diz baixinho, como se pedisse desculpa pela emoção. “Aqui sempre se desabafa, a gente esquece por uns momentos.”

Aurélio Baptista não precisava de pôr em palavras o que está escrito no rosto: “Para mim isto dá-me alegria porque o resto da minha vida é muito triste. Tenho esta idade e estou sozinho”, declara em tom de lamento. “Não tenho ninguém para me arrumar a roupa, a casa, nem fazer limpeza.” São 81 anos, um casamento de 46 anos terminado antes do tempo. E o ânimo de continuar, apesar das esquinas dos dias: “Nasci pobre e pobre sou. Mas lutei sempre para ter alegria, porque tristezas não pagam dívidas.” Por isso, o teatro tornou-se prioridade. Mesmo que lá por casa, bloco 29 do Bairro do Cerco, as tarefas se acumulem. Levanta-se mais cedo ou deita-se mais tarde. Faltar aos ensaios nem pensar.

A poucos metros, Maria Emília lamenta o aproximar do fim do ensaio. Também ela queria tempo para contar a sua história ao P3: “Gostava de falar”, comenta num sorriso de ternura tão maturada como os cabelos, todos eles brancos. Acolhe uma das cinco filhas na sua casa, no bairro Engenheiro Machado Vaz. Mora em Campanhã há 52 anos, é viúva há 12. No centro de dia da Obra Diocesana, procura perpetuar o que de mais belo existe em si: “Sou muito alegre. O que tenho de especial é ser muito sentimentalista. Quando vejo pessoas com problemas gosto de ajudar”, diz. Subir ao palco aos 81 anos foi como a concretização de uma possibilidade estreada noutros tempos numa sala de aula, tendo o quadro de ardósia por testemunha: “Sempre gostei de recitar e era a preferida da professora para ler. Decorava tudo muito bem.”

Há 14 cadeiras alinhadas no palco, vultos das marionetas perceptíveis. Micaela Soares e Vítor Gomes, actores profissionais da companhia que também integram a peça, ajudam os companheiros de palco nas afinações. Repetem-se as cenas uma e outra vez, afina-se o piano no canto do palco, música original de Jorge Queijo. Isabel Barros sorri quando lembra os primeiros ensaios. Os 12 actores amadores a chegar vagarosos e tímidos. A medo. Ombros para dentro. Agora, parecem ter ganho centímetros, destreza física, mobilidade. “Há toda uma descoberta para lá da peça”, comenta. A possibilidade de chegar a novos públicos. A quebra da solidão. Uma “profunda reflexão” para quem está dentro do teatro. A impossibilidade de não perceber um espelho em palco, da velhice como futuro anunciado de todos.

A solidão anunciada como o cimento do grupo não se anula. Mas quebra-se. Há novas amizades, cumplicidades, descobertas. E quando Saul Salgado e Conceição Peixoto rodam a chave na fechadura de casa, já não existe vazio. Alternam residência. “Temos a vida combinada”, conta ele para logo dar como certo o futuro iniciado no teatro: “Namoramos e não estamos arrependidos.”