Nelson Garrido
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Nelson Garrido

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Estudantes desalojados e um Governo despreocupado

Não é aceitável que em 2018 uma das principais barreiras na progressão do ensino secundário para o ensino superior seja o alojamento

Quase no fim de todas as fases do concurso nacional de acesso, cerca de 45 mil estudantes ingressam no ensino superior. A ânsia e o nervosismo de outrora, fruto do início de uma nova fase das suas vidas — principalmente para aqueles que se viam a viver sem os seus pais pela primeira vez e com uma casa “nova” —, têm hoje outra causa: não conseguirem encontrar um quarto na cidade onde estudam. Por esse motivo, têm de fazer viagens infindáveis para voltar às suas casas e assim continuam a viver com os seus pais.

No Porto, temos 23 mil estudantes deslocados para 1300 camas disponíveis nas residências dos serviços de Acção Social. Em 2014, um estudante arrendava um quarto por cerca de 150 euros, muitas das vezes com despesas (água, luz e gás) incluídas. Volvidos quatro anos, os anúncios têm um preço médio de 400 euros, sem despesas e muitas das vezes sem recibo e contrato de arrendamento, o que faz com que o estudante não possa auferir do mísero complemento de alojamento (caso seja estudante bolseiro) ou então deduzir essa despesa nas várias sedes elegíveis.

Não é aceitável que em 2018 uma das principais barreiras na progressão do ensino secundário para o ensino superior seja o alojamento. Fica ainda mais grave quando o problema está sinalizado há bastante tempo. Todos os agentes responsáveis, começando numa primeira instância pelo Ministro da Ciência Tecnologia e Ensino Superior – recorde-se que faz jus ao lema do Governo “palavra dada, não é palavra honrada” — terminando nas autarquias locais, teimam em não dar respostas imediatas e não podem negligenciar o seu papel nesta fase de urgência. Paralelamente a este vazio de acções na vida real, a situação torna-se cada vez mais insustentável, havendo mesmo estudantes a dormirem no carro para não perderem aulas.

Na falta de soluções, as famílias portuguesas, com salários médios no fundo das tabelas europeias, não se podem dar ao luxo de pagar preços por metro quadrado das capitais europeias mais trendy. Portugal está na moda, mas não podem ser os portugueses a pagar essa factura.

Há estudantes que não equacionam sequer ingressar no ensino superior, ainda que seja um desejo seu e das suas famílias — quando a decisão recai entre ter um filho no ensino superior ou pagar as contas da casa, a realidade dita o destino. Mas também encontramos estudantes a viver em condições indignas ou mesmo alguns que não abrem mão da sua educação a troco de terem de pernoitar nos seus carros ou em estações de comboio. Com esta dura realidade, as nossas soluções — entre elas o aumento do complemento de alojamento para beneficiários da bolsa de acção social; o benefício fiscal para arrendatários a estudantes; a abertura às IES para construção em parceria com entidades privadas de alojamento estudantil — caem em saco roto.

Como forma de protesto e solidariedade com os seus pares, houve estudantes que dormiram em tendas em frente à reitoria da Universidade do Porto, no final do mês de Setembro. Infelizmente, temo que seja mesmo esta a opção para o alojamento estudantil.