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Reportagem

Dormiram na rua porque não têm quartos: “Estudantes deslocados = Estudantes na rua”

Várias dezenas de estudantes pernoitaram na Praça Gomes Teixeira, no Porto, para denunciar a situação precária em que muitos vivem. "Governo, escuta, os estudantes em luta", gritaram em plena baixa da cidade, entre tendas e faixas com palavras de ordem.

Eduardo Silva considera-se um privilegiado por ter encontrado um quarto a menos de 300 euros no Porto. Aos 20 anos, frequenta o terceiro ano de Engenharia Civil na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP). É de Mondim de Basto, em Vila Real, e sempre quis vir estudar para o Porto. "É onde estão as melhores faculdades", justifica. Eduardo paga 200 euros mensalmente, sem despesas, por um quarto partilhado com outro estudante. “Foi um achado!” — e isto apesar de o inquilino exigir a ausência de qualquer tipo de contrato. “A maioria de nós não tem contrato, é uma forma do proprietário não prestar contas”, diz o jovem, que tem um irmão a ingressar agora no ensino superior e a noção de que vai ser “complicado” para os pais sustentarem os dois filhos. “Não está fácil para ninguém, somos vítimas da especulação imobiliária”, atira.

O transmontano é um dos jovens acomodados em frente à reitoria da Universidade do Porto, na noite e madrugada desta segunda-feira, 24 de Setembro. A concentração de universitários estava marcada para as 20h e poucos minutos depois já se contavam dez tendas na Praça de Gomes Teixeira, ponto de encontro simbólico para quem estuda no Porto. Os estudantes vão chegando em grupo, devidamente equipados — tendas, sacos-cama, cobertores, fogões portáteis e mantimentos — para passarem a noite em protesto. Vão pernoitar na rua, contra a falta de alojamento para estudantes e os elevados preços dos arrendamentos. A iniciativa é da Federação Académica do Porto (FAP), que pretende chamar a atenção para o flagelo em que vivem muitos estudantes. “Não é uma manifestação, é um protesto simbólico para chamar a atenção do Ministério do Ensino Superior, da Câmara Municipal do Porto, das instituições de ensino e da própria sociedade civil”, começa por enumerar João Pedro Videira, o presidente da FAP, que lamenta a falta de eficácia das políticas governativas face às questões do alojamento para o ensino superior.

Num dos grupos está João Pilão, 21 anos, de Mirandela. Estuda Direito na UP e em quatro anos como estudante deslocado nunca viu um cenário tão negro. “Entre anos lectivos, a minha renda aumentou 100 euros”, revela. O aviso chegou com um mês de antecedência e com a justificação de que era necessário actualizar o preço do arrendamento. “[O senhorio] disse-me que, perante o panorama geral, não poderia manter a renda como estava.” Tem conhecimento, ainda, de estudantes que viram a renda aumentar em mais de 200 euros, a viver à custa da generosidade de amigos. “Nós dizemos basta! Exigimos medidas concretas que resolvam o problema de uma vez por todas.”

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Actualmente, o preço médio de um quarto no Porto ascende aos 300 euros e as rendas dos apartamentos vão até aos 1300 mensais. Existem 1300 camas nas residências universitárias na cidade para responder a 23 mil estudantes deslocados. “As residências estão sobrelotadas e têm condições tão impróprias que algumas já foram fechadas”, denuncia o presidente da FAP: existem “menos 100 quartos, que foram declarados como inoperacionais”. Por isso condena o complemento ao alojamento atribuído a estudantes bolseiros carenciados (que ronda os 128 euros) e a lei do alojamento local para o ensino superior, que limita a construção de residências universitárias a locais onde não exista nenhuma.

Estudantes deslocados = Estudantes na rua

Na praça central do Porto — mais conhecida por Praça dos Leões — vêem-se dezenas de turistas, que observam intrigados. Uns perguntam às pessoas em redor o que se passa, outros tentam, através do telemóvel, traduzir as palavras de ordem exibidas na faixa negra colocada em frente às tendas: “Estudantes deslocados = Estudantes na rua.”

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É ao lado destas palavras de ordem que se sentam vários grupos de estudantes. Num deles está Lúcia Figueiredo, 21 anos, natural de Viseu e a estudar Ciências da Nutrição na UP. Por viver longe da faculdade — na residência dos Serviços Sociais da Guarda Nacional Republicana —, todos os dias faz um longo caminho. “Os meus pais não conseguiram comportar o preço de uma renda e esta era a única oportunidade de alojamento que tinha”, explica a estudante, também com uma irmã na universidade. “Estamos ambas sem bolsa e para a nossa realidade os preços estão simplesmente ridículos.” O conforto de um estudante, acredita, está relacionado com o rendimento académico, sobretudo no caso de deslocados. “O alojamento é o principal entrave ao nosso percurso universitário e, neste momento, não existem condições mínimas”, considera, lamentando que a cidade esteja a privilegiar os turistas em detrimento dos estudantes.

Há quem aproveite o tempo para cozinhar ou para cantar, ao som de uma viola, a noite que promete ser longa. O dono da viola é Pedro Pinheiro, 22 anos, estudante no 5.º ano de Medicina no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar. Natural de Chaves, foi obrigado a mudar de casa porque a senhoria vendeu o edifício. Procurar uma alternativa foi uma “experiência muito difícil”. Viu casas com mais de sete quartos, pelas quais pediam 700 euros — por quarto. Acabou por ter sorte, considera. “Estou a pagar mais e com menos condições, mas tenho de me conformar porque podia ser pior.”

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Na óptica da FAP, existe um responsável principal pela situação: o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor. “Estamos perante uma peça de teatro absolutamente negra, cujo principal actor é o ministro Manuel Heitor”, acusa João Pedro Videira, que aproveita para denunciar. “Já há estudantes a dormir nos próprios carros.”

Motivados pela presença dos canais de televisão e pela chegada de um grupo de 11 jovens universitários com cartazes e megafones, os estudantes, até então desemparelhados, concentram-se para entoar gritos de protesto. “Governo, escuta, os estudantes estão em luta!” e “Educação é um direito, sem ela nada feito" foram as frases gritadas a plenos pulmões pelos cerca de 100 manifestantes.

“Espero ser contactado amanhã por quem de direito”, afirma João Pedro Videira. “Vamos até onde for preciso, os estudantes são a prova de que não há limites.”