Paulo Pimenta

Uma ficção para compreender a morte de Gisberta

Pão de Açúcar, segundo romance de Afonso Reis Cabral, é ficção que brota da realidade, a morte de Gisberta Salce Júnior. Partindo de um trabalho de pesquisa, inventa a perspectiva de um dos 14 rapazes que em 2006 agrediram a mulher transgénero sem abrigo.

Quando Gisberta Salce Júnior foi morta por um grupo de 14 rapazes num prédio inacabado do Porto, Afonso Reis Cabral contava 16 anos. “Fiquei incrédulo. Pensava na idade deles, pensava na minha, pensava: o que pode levar pessoas da minha idade, da minha cidade, a fazer isto? E a fazer isto a alguém desamparado?”

Não era o único. O país inteiro parecia não compreender o que levara aqueles rapazes – entre os 12 e os 16 anos, muitos dos quais retirados a famílias negligentes ou maltratantes e acolhidos na Oficina de São José – a agredir dias a fio uma mulher transgénero, sem abrigo, toxicodependente, com sida, tuberculose e outras doenças. “Era um enigma, um verdadeiro enigma.”

Reteve aquele caso como outros tão inimagináveis que se tornam parte da memória colectiva. Seguiu com a sua vida de estudante da Escola Secundária Rodrigues de Freitas. Meses antes, tinha publicado o seu primeiro livro, Condensação (Corpos Editora, 2005), que reúne poemas escritos entre os 10 e os 15 anos.

Em 2016, vários órgãos de comunicação social trataram de assinalar o décimo aniversário daquela morte, que abriu caminho à luta pelo direito à identidade de género em Portugal. Ao confrontar-se de novo com aquele crime, Afonso Reis Cabral percebeu que estava ali o seu segundo romance.

“Foi instintivo”, diz. Parecia-lhe que os factos nunca chegariam para perceber o que acontecera em Fevereiro de 2006, naquele prédio da Avenida Fernão de Magalhães, conhecido como Pão de Açúcar. Estava convencido de que só a ficção teria esse condão. Estava a escrever outro livro. Abandonou-o.

No primeiro romance, “O meu irmão”, vencedor do prémio LeYa 2014, tinha a vida facilitada. Tem um irmão com Síndrome de Down, Martim, um ano mais novo. E conta a história de um professor universitário, divorciado, que chama a si a responsabilidade de cuidar do irmão de 40 anos que nasceu com trissomia 21. Costuma dizer que esse era, de certo modo, um livro “inevitável”.

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A Afonso parecia-lhe que os factos nunca chegariam para perceber o que acontecera em Fevereiro de 2006, no prédio da Avenida Fernão de Magalhães. Só a ficção teria esse condão Paulo Pimenta

Neste segundo romance, a vida não lhe servia de inspiração. Nada no seu contexto de licenciado em Estudos Portugueses e Lusófonos, mestre em Estudos Portugueses, pós-graduado em Escrita de Ficção, leitor, escritor, revisor e editor, se assemelha ao daqueles rapazes oriundos de diversas partes do país, tão-pouco ao daquela mulher transgénero originária do Brasil.

Não conhecia os lugares, os ambientes, os modos de estar, nem sequer os tiques de linguagem. E sabe que “para escrever um livro é preciso conhecer a fundo o assunto”. Mais ainda um livro destes, que tem uma base de realidade. Tinha de descobrir as fronteiras da história real para encontrar as possibilidades da ficção. Tinha de ir à procura das “zonas sujas” da cidade.

Leu a decisão do Tribunal de Família e Menores do Porto, que condenou onze rapazes a medidas de internamento em centro educativo e dois a medidas de acompanhamento educativo (o mais velho foi julgado como adulto e condenado a oito meses de prisão efectiva por omissão de auxílio). Leu notícias e reportagens sobre aquele caso, mas também sobre aqueles contextos.

Consultou o Instituto Português do Mar e da Atmosfera para perceber o estado do tempo naqueles dias de Fevereiro de 2006. Percorreu vários caminhos entre a Oficina de São José, a Escola Básica 2, 3 Doutor Augusto César Pires Lima e o prédio onde Gisberta montou uma tenda.

O edifício continuava votado ao abandono. Está ainda mais escurecido pela idade e pelo desleixo, mas exibe agora uma promessa de futuro – um aviso da construtora Lúcios, que ali planeia fazer apartamentos, lojas e escritórios. Olhou para o fosso para o qual três rapazes atiraram Gisberta com pouca vida, julgando que já estava morta. Tentou ouvir o silêncio. Deu pela água a pingar.

Falou com pessoas que a conheceram. Rute Bianca, amiga com quem Gisberta viveu muitas aventuras em Portugal e em França. Roberto Figueirinhas, dono do Invictus Café Bar, que era Kilt nos tempos áureos de Gisberta na noite do Porto. E com António Barros que conheceu num café próxima da última morada oficial de Gisberta, um minúsculo apartamento situado na Travessa do Poço das Patas.

“Eu sabia que a Gisberta tinha vivido nessa rua e um dia pelas sete e tal fui lá sentir o sítio”, recorda Afonso Reis Cabral. “Sabia que frequentava naquela zona uma confeitaria. Encontrei uma na esquina da própria rua e pedi informações. Por coincidência, conheci o António Barros que vive no prédio onde ela viveu e que tinha a chaves da última casa dela. Pedi-lhe: ‘Por favor, leve-me lá.’ ”

O escritor andou mais de um ano, interrupto, nisto. A ficção ia brotando enquanto percorria aqueles lugares e conversava com aquelas pessoas. “Um sítio como o Pão de Açúcar é uma personagem. Por exemplo, a aridez do sítio leva-me a pensar na aridez da vida e no que é preciso para chegar lá.”

Não chegou a falar com os rapazes, apesar de estar decidido a calçar as suas sapatilhas e a usar os seus bonés, isto é, a assumir o seu ponto de vista. Como encontraram a Gisberta? Como é que a viam no princípio? Como é que lidavam com ela? O que os fez mudar de atitude? Como chegaram aquele extremo?

Findo o trabalho de campo, lançou-se no solitário e apurado trabalho de escrita. Para ter mais tempo, despediu-se da Editorial Presença. Manteve-se como consultor editorial da Gradiva e editor freelancer disponível para colaborar com a Imprensa Nacional-Casa da Moeda, fazendo projectos concretos.

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Começou por criar a estrutura narrativa a partir dos factos. Cabia tudo em onze páginas de um documento word. “A partir dali, era quase como se a história fosse toda minha”, declara. “Era tentar visualizar ao máximo a interacção entre personagens, os ambientes. Na escrita em si, deixou de estar definido que personagens eram reais e quais eram imaginadas. Para mim, era tudo ficção.”

Até Gisberta se transforma numa personagem de ficção. “Não quero nem posso tratar a Gisberta nem outros como personagens apenas factuais, não lhes posso atribuir intenções nem sentimentos, mas é evidente que há limites. Não posso dizer que a Gisberta nasceu no Rio de Janeiro. Ela nasceu em São Paulo e isso tem de estar lá. Há factos, mas as relações entre personagens, a profundidade, a intimidade, isso é ficção.”

Ainda experimentou contar a história na terceira pessoa. Não lhe agradava o resultado. Serviu-se de uma estratégia literária para contar a história na primeira pessoa. Há uma personagem-autor que aceita escrever por uma personagem-rapaz, que agora é um homem, mecânico de profissão, cru.

Quem conhece os universos retratados no livro “Pão de Açúcar” (Leya) encontra verosimilhança. Poderá sentir uma leve estranheza num ou noutro detalhe, mas nada que altere essa sensação. Um exemplo? Gisberta vai comprar droga ao Bairro do Aleixo, na zona Ocidental da cidade, quando tinha o Bairro da Sé tão perto. Não é provável que lá fosse por hábito, mas é possível que lá fosse uma ou outra vez. Basta que a polícia aperte o cerco na Sé para a clientela se virar para outro mercado.

Há uma lógica cinematográfica na escrita. Em cada capítulo cabe apenas uma cena. São muitos. Mais de 50. Afonso Reis Cabral começa com vagar, de forma muito ficcionada, com a construção da relação entre Gisberta e os rapazes. Depois, a vertigem, a morte, mais ligada aos factos.

Diz o autor que o que o prendeu a esta história não foi bem o choque. “Há muitas histórias violentas, muitas histórias de crime”, ressalta. O que o prendeu foi o desamparo, a humanidade. “Acho que é isso que espanta. É isso que instiga a escrever. A violência é humana.”

O caso tem inspirado outros artistas. Um ano depois dos acontecimentos, Alberto Pimenta publicou “Indulgência Plenária”, um poema em forma de elegia que evoca a figura de Gisberta. Nesse ano, Pedro Abrunhosa compôs “Balada de Gisberta”, que incluiu no álbum Luz. Mais tarde, Maria Bethânia interpretou essa canção, fechando com ela o primeiro acto de seu espectáculo Amor Festa Devoção (2009).

Thiago Carvalhaes dedicou-lhe uma curta-metragem, “A Gis”, em 2016. “O que me envolveu primeiro foi a música, ‘Balada de Gisberta’, composta pelo Pedro Abrunhosa, na versão cantada por Maria Betânia”, revela. “Queria saber mais. As informações eram poucas, difíceis de encontrar. Algumas estavam erradas”, prossegue. O facto de o Brasil ser um dos países que têm mais casos de violência contra pessoas transgénero só ajuda a aumentar a sua “indignação”.

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A mesma interpretação de Maria Betânia despertou o actor Luis Lobianco (PORTA DOS FUNDOS). A peça “Gisberta”, com texto de Rafael Souza-Ribeiro e encenação de Renato Carrera, estará em cena nos dias 27 e 28 de Novembro no Teatro Sá da Bandeira, no Porto, e nos dias 4,5 e 6 de Dezembro no Teatro Tivoli, em Lisboa.

Numa curta troca de mensagens com o Ípsilon, a directora de produção desse espectáculo, Cláudia Marques, fala em “indignação”, mas também em “esperança de mudança”. “O Brasil vive dias obscuros, em que retrocessos ameaçam conquistas históricas e ameaçam liberdades individuais”, comenta. “Eu acredito no teatro porque é um agente de resistência e transformação. Através da história de Gis, acredito que podemos falar com o público sobre respeito pela diversidade e pela vida.”

Já antes houve um espectáculo teatral em Portugal. Inventando uma mãe, Eduardo Gaspar escreveu primeiro uma versão curta do monólogo “Gisberta” para a actriz Rita Ribeiro, que em 2013 esgotou o Teatro Rápido. Fez depois uma versão mais longa, que estreou no Funchal no ano seguinte.

Todos esses colocam enfoque na figura de Gisberta. Afonso Reis Cabral não o faz. Nem Paulo Patrício, que está a trabalhar numa curta-metragem de animação documental, com produção da Animais AVPL.

O escritor admite que a violência a que aqueles rapazes foram sujeitos nas suas famílias ou na instituição que os acolheu seja uma forma de explicar o que fizeram. Não procura, todavia, desculpar. Estão lá as hesitações, as incoerências, a humilhação, as rivalidades, as invejas, o vazio que a falta de afecto cria. E a certeza de que “morrer às mãos de amigos é muito pior do que morrer às mãos de desconhecidos”.