"Ya, um dia fomos bater na Gisberta"

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D. é o único dos 13 menores condenados pela morte da transexual Gisberta que ainda está
a cumprir pena. Este mês recupera
a liberdade.
O P2 falou com ele durante uma visita que fez a casa da mãe. A família quer processar o Estado por
lhe ter retirado
quatro menores, incluindo
este, que veio
a cometer
um crime que chocou Portugal.
Será a primeira
a fazê-lo.
Este texto
foi publicado
a 4 de Setembro de 2008

a A polícia bateu numa porta de um bairro de Almada e arrancou três rapazes (oito, dez e 12 anos) e uma rapariga (de cinco) à mãe. A mãe gritava, os três rapazes e a rapariga gritavam. Não tomaram banho nem pequeno-almoço. Não levaram roupas, livros, brinquedos, documentos.- Era a casa cheia de polícia. Lá fora também estava tudo cheio de polícias - recorda a mãe.
- Não queria ir. Estava a fazer força e eles estavam a empurrar para entrar no carro - narra a miúda.
O Tribunal Judicial de Loures decidira, em Dezembro de 2003, retirar as crianças à família. A mãe requerera. O tribunal mantivera a medida promovida pelo Ministério Público, mas a mãe nunca as entregara. O Tribunal de Família e Menores de Lisboa manteve a decisão e, em Outubro de 2004, emitiu um mandado de condução.
Esperaram "horas na esquadra". Viajaram "numa carrinha da PSP, com uma assistente social". Falaram quase nada. Que haveriam de dizer? Seriam umas 14h00 quando os rapazes chegaram às Oficinas de São José (Porto). A rapariga ficara no Lar Betânia (Vendas Novas).
Naquela noite, choravam, choraram muito. Não conseguiam perceber o que estava a acontecer.
Há um ano, uma assistente social fora ao apartamento de cinco assoalhadas. Antes de entrar já lhe cheirara "muito a lixívia". "O chão da sala e da cozinha estava molhado, tinha sido limpo minutos antes". Na sala, "inúmeras baratas pelas paredes, pelo tecto, pelo chão". Numa casa de banho não se podia entrar por haver "roupa amontoada pelo chão". Não viu o quarto ocupado por quatro rapazes (aqueles três e outro, de 13 anos) "porque não tinha luz".
Pediu os boletins de vacinas. A mãe ter-lhe-á dito que não os tinha. Contactada a escola frequentada pelos quatro rapazes, a técnica verificou que R. estava no 4º ano, D. no 3º. Tinham aulas de manhã e faltavam "regularmente". Era Outubro e D. já tinha sete faltas injustificadas e R. nove. P. e M. frequentavam o 2º, à tarde, não faltavam.
A avaliação pedagógica feita em Julho já diagnosticara fraca "resistência a situações de esforço, persistência" e "cumprimento de regras". O documento focava "elevado absentismo escolar". E "aliciamento de rua", "sentimento de pertença a um grupo com o qual [D. e M.] se identificam e que os aceitam" sem que para isso tivessem "de se submeter a horas e a regras".
A assistente social viu na mãe uma "atitude passiva em relação ao futuro dos filhos". Não encontrou nela vontade de se articular. Achou que se preocupava com a possibilidade de lhe retirarem os filhos sem mostrar "estar disponível para alterar o seu comportamento". Para a técnica, as crianças deviam ser acolhidas numa instituição.
- É tudo mentira! Tudo