Retrato de um escritor quando mesmo muito jovem

Aos 24 anos, Afonso Reis Cabral é o mais novo vencedor do Prémio Leya. Cem mil euros com um romance duro sobre um tema que tinha tudo para dar errado. O que é que deu certo? O autor fala pela primeira vez de O Meu Irmão e de uma herança de que não se sente herdeiro: “Espero que não me comparem a Eça.”

“Isto é tudo tão novo…” Afonso Reis Cabral está numa paisagem familiar. Rodeado de livros e de muitas vozes que lhe chegam com palavras soltas, fora de contexto. É livre para lhes dar o sentido que quiser e gosta disso. Muitas vezes se sentou ali, na Livraria Ler Devagar, na Lx Factory, em Lisboa, enquanto escrevia o livro que o tornou no autor mais jovem de sempre a vencer o Prémio Leya e então essas palavras ou frases faziam-no reagir, alterando o corpo do texto de forma orgânica, como a vida faz com as pessoas. Ia para ali por esse contágio, a proximidade com os outros como auxiliar para a apreensão da diferença. “Somos sempre nós e os outros, não é?”

Mãos pousadas na mesa, um café que vai fazendo durar, Afonso Reis Cabral parece ainda mais novo do que os 24 anos que tem. “Mas a essência é a mesma, o mal ou o bem são iguais em todo o lado. Somos nós e as circunstâncias." E a circunstância do irmão mais novo de Afonso foi a de ter nascido com síndroma de Down como Miguel, uma das personagens de O Meu Irmão, o livro que lhe deu o prémio e que escreveu sobre essa condição, mas alterando papéis. 

No romance, o irmão de Miguel não é flor que se cheire, é uma personagem por oposição, e tem com Miguel uma relação diferente da de Afonso com o seu irmão. “Quis que fosse tudo diferente”, continua, como quem procura uma existência alternativa, o outro lado, ver como é ser Caim sendo-se Abel, ou vice-versa. E a Bíblia vem para aqui porque interessa a Afonso, “está lá tudo” e porque, face a quem tem uma doença como a de Down, quem não a tem será sempre Caim, o irmão em luta interna, às voltas com as suas ambições e frustrações porque o outro nasce “com a vida feita”, como escreveu. E como volta agora a repetir numa conversa em sábado de chuva, a poucos dias de ter nas mãos o livro e de o “ver ir à sua vida”, com mais ou menos leitores, mas alvo de uma curiosidade que fez com que pela primeira vez os responsáveis pelo Prémio Leya alterassem a data de publicação do romance vencedor, ainda para o mesmo ano do anúncio e não meses depois, como tem acontecido desde 2008, quando foi criado.

“Raça de Abel, dorme, come e bebe/ Deus sorri completamente…” escreveu Baudelaire no poema As Negações de S. Pedro, do livro As Flores do Mal. Os dois versos são a epígrafe deste romance em que a diferença e a doença e o que nos mantém iguais são tratados de forma dura, sem complacências, porque a voz que narra é a do irmão misantropo, angustiado, solitário, que se diz incapaz de amar, em contraste com o modo absoluto de amor que Miguel, o outro irmão, só sabe ter. Não é o primeiro romance de Afonso Reis Cabral, mas é o primeiro que terminou com a consciência de que tinha “espessura e fôlego”. Olha pela janela. Os prédios, alguns ainda ao abandono, o tabuleiro da Ponte 25 de Abril por cima, o céu cinzento, o som de uma cítara ajudam a que se fale de ficção. Um irreal intemporal a contrastar com o espaço e o tempo precisos do livro: uma aldeia do interior chamada Tojal, em Novembro de 2014. O livro de Afonso está a passar-se justamente agora, mas longe dali, na ficção. “Era muito importante para mim, ao contrário do que aconteceu noutras experiências que fiz em romance, ter um local imaginado mas concreto, em que pudesse pôr as minhas personagens, quase uma âncora para a imaginação”, vai dizendo. Nunca esteve no Tojal, a aldeia em que tudo se passa, no concelho de Arouca, com a Serra da Freita, o Rio Paiva… “Mas conheço-a muito bem na minha cabeça”, ri. “Isto vai passar-se no Tojal. Ora o Tojal é perto de Arouca e longe de tudo o resto.” São as primeiras frases do livro onde está sublinhado o isolamento, o lugar onde duas pessoas se podem encontrar. Se não for ali, onde? É a pergunta que atravessa o romance.<_o3a_p> 

“Isto é tudo muito novo”, continua Afonso Reis Cabral sem encontrar um sentimento capaz de definir o que lhe tem acontecido desde o dia 17 de Outubro, qaundo lhe ligaram a dizer que era o vencedor do Prémio Leya a que tinha concorrido em Maio passado. E logo o rótulo, o mais novo escritor, um escritor tão novo para escrever de forma tão negra, ou, nas palavras do júri, surpreendente pela forma “objectiva” com que trata um tema que poderia cair no excesso de sentimento, a “violência” que estas situações humanas podem desenvolver” num “retrato social que evita tomadas de decisão fáceis, obrigando a um investimento numa leitura que nos confronta com a dificuldade de um mundo impiedoso”. Afonso diz apenas que não se sente assim tão jovem e que não é um jovem escritor. “Escrevo muito e há muitos anos”, afirma. Desde os nove e em reacção ao fado de Amália. “É verdade. Foi quando ela morreu que comecei, ao ouvir o que cantava. Eu tinha nove anos e ela de repente estava a cantar em todo o lado, a voz sobrevivia-lhe e era uma voz de tal maneira extraordinária… Foi através da voz que cheguei à poesia porque ela cantava poetas e isso dava ao fado uma profundidade ainda maior. Comecei a escrever poemas e foi um bocado o instinto. Tive a felicidade de nascer numa família com tradição literária e havia muitos livros em casa. Os meus pais são leitores ávidos e estava muito familiarizado com a leitura.” Incentivaram-no. “Quando eu tinha 12 anos o meu pai comprou-me um CD do João Villaret a dizer poesia de Fernando pessoa e eu ouvia aquilo a andar de bicicleta.” São imagens que surgem ligadas a esses primeiros momentos em que escrita e leitura não pareciam separáveis. “Tenho uma irmã 12 anos mais velha. Um dia, eu tinha uns três ou quatro anos, entrei na cozinha e ela estava a olhar para um livro, imersa num mundo que eu não entendia, e achei aquilo mágico. Que mundo era aquele tão atraente que lhe prendia a atenção? Eu queria muito saber o que era. Essa imagem nunca mais me largou. Mais tarde percebi que ela estava a ler o Tio Patinhas, mas isso que me fez rir não bastou para matar o fascínio que aquela cena me deu.”<_o3a_p>

Os poemas continuaram. Em 2005 publicou-os num volume a que deu o título Condensação. Tinha 15 anos e foi uma espécie de ponto final. “Já não sou poeta”, afirma com um sorriso e um ligeiro sotaque, cada sílaba dita com todas as letras, vogais abertas a reflectir a viagem entre Lisboa e Porto que tem sido a sua vida. Nasceu em Lisboa e cresceu no Porto, onde estudou no Colégio dos Cedros, na Escola Secundária Rodrigues de Freitas, e outra vez para Lisboa, para a Faculdade de Ciências Socais e Humanas da Universidade Nova, onde se licenciou em Estudos Portugueses. “Do passado nunca é errado dizer que foi há muito tempo”, diz o narrador. Afonso parece concordar quando se olha no processo de escrita. Porque no meio de tudo isso continuou a escrever, contos e romances. “Nada que valesse a pena.” Por isso este começou muito devagar, de forma “penosa”, em 2011. Tinha a má lembrança das experiências anteriores, em que nunca houve uma história que conseguisse agarrar. Onde se perdia? “Na parte do fôlego, na parte do trabalho Tinha uma inspiração inicial, uma ideia que achava que conseguia pegar, mas depois era pouco, não havia substância”, conta.

A outra verdade


Fez então o que mandam muitas regras de escrita de ficção, sem ter grande consciência disso. Escrever sobre o que se conhece. Não fala disso, embora sublinhe que o ponto de partida foi uma história que conhecia bem. “Tenho um irmão com síndroma de Down e somos muito próximos na idade. Sou um ano mais velho." Muitas coisas em comum com o narrador do livro, a única personagem sem nome, como ele do Porto, como ele numa família de seis irmãos e agarrado à literatura, leitor de Proust, que foi estudar para Lisboa para seguir a sua vocação de leitor profissional. É aqui que começam as diferenças: o irmão de Miguel seria sempre um “escritor não praticante”.

“A figura do narrador surgiu por oposição a mim. Tentei construí-lo de forma a que se fosse afastando de mim mais e mais, e acho impossível descobrir o autor através do narrador. Foi uma batalha minha. Tem traços meus, claro, porque toda a obra tem, mas é uma personagem como outra qualquer e foi a que me deu mais trabalho.” Mais do que Miguel, o rapaz que envelhecia sem que isso lhe alterasse os modos, rugas vincadas num corpo grande e imenso que nunca soube domar. Miguel é a personagem com um retrato físico mais detalhado. Pelo grotesco. Lê-se na página 20: “Senta-se no sofá levantando o pó. A barriga enrola-se em dois altos encostados um ao outro. Os dedos simulam um estalido quase imperceptível; repletos de calos, têm o mesmo comprimento. As orelhas diminutas sobressaem no cabelo curto. A camisola justa ao pescoço e as mangas reviradas. Os olhos denunciam o aspecto estrangeiro. Não se consegue controlar, mexe-se com ansiedade.” E no parágrafo a seguir, o complemento: “Apesar de parecer uma criança envergonhada de dez anos a mexer os dedos e a fazer salamaleques, é bem o meu irmão, na casa dos quarenta, um pouco para o gordo e, claro, mongolóide.”

Recorrendo a um narrador impiedoso, cínico, Afonso tenta fintar a lamechice a que o tema podia dar azo. Não cai nela, foge dela por vezes de forma arriscada, desafiando o leitor, fazendo-o irritar-se e a desprezar o irmão que narra e sabe tudo de todas as personagens… “ou pensa que sabe”, como salvaguarda Afonso. Encenou um mundo alternativo, não é nesses que sempre parecemos ver a perfeição, como sugere no romance? Foi ver como era não conseguir comunicar com alguém igual ou parecido com o irmão, mas a quem o unia um sentimento comum: o da protecção. Foi explorar outro tema delicado, o amor entre deficientes, mas fê-lo mais uma vez através dos olhos do narrador cínico, e isso liberta-o. "Não faço a mínima ideia de como seja esse amor, mas tentei talvez com um pouco de obsessão, porque aquele amor é exclusivo não deixa espaço a mais nada. É um dos pontos que me perturba mais na obra. O narrador acha-se incapaz de amar e acha que o amor é posse e tem ciúme do amor do irmão, que por sua vez tem uma capacidade de amar tão excessiva e tão total. Mais do que um ser humano é um anjo. O narrador sente esse contraste.”  

A diferença entre autor, narrador e Miguel, o irmão capaz desse incondicional, vai-se acentuando à medida que a personagem envelhece. O irmão de Miguel adensa-se com os seus defeitos e torna-se um narrador a duas vozes, marcadas de forma distinta no texto, dois níveis de pensamento com grafia distinta. “É como se houvesse um pensamento mais interior. Um amigo meu deu o nome de inciso àquele segundo nível de discurso. Inicialmente surgiu por uma coisa um bocado prosaica. Eu estava a começar a escrever e quis fazer uma nota sobre o que estava a escrever, que pus em corpo menor. Depois percebi que talvez resultasse colocar esta autocrítica, ir mais fundo na narrativa e comecei a pôr incisos, como se o narrador não assumisse alguns pensamentos em corpo maior; ele tem medo que aquilo se oiça, mas não se restringe de o fazer. Tudo o que é ofensa está em corpo menor.” E é uma personagem com 40 e tal anos. Como é ter 20 e saber o que se pensa aos 40, sem muitas ilusões sobre a vida? “Não sei, mas acho que não é difícil. Uso o que li, o que vou sabendo, a imaginação…” Aprofunda a tal ideia inicial. "Há um irmão que é ‘perfeito’, bem-sucedido dentro da sua área, em teoria realizado, e outro irmão que é deficiente e que por isso mesmo nasceu com a vida feita. Uma espécie de anjo. Esta é a base do livro. E o Miguel, tendo nascido com a vida feita, conquistou a vida.”  

 

Caim e Abel

 


Caim e Abel. A Bíblia, o tal guia, se há um. “Há a vida”, outra vez. Repete-se sempre, uma circularidade que também está no livro. Repetir baralhando. Como se faz? “Escrevendo. Não se aprende nem se ensina, faz-se." Conversa e outra vez o livro, uma frase: “Só em literatura dizer é fazer.” Encontrar as palavras sem que se note o árduo que é essa busca. Referências? “Tantas. Não sinto que haja uma mais marcante.” Mas arrisca, fala de John Steinbeck, A Leste do Paraíso, o livro e o filme que dele saiu na adaptação de Elia Kazan, com o irmão Cal, o filho rebelde do agricultor duro invejado pelo irmão Aron. “A dicotomia entre dois irmãos deixa sempre um espaço aberto para se trabalhar”, nota. E Ratos e Homens, ainda Steinbeck, agora com Lennie e George, dois companheiros, o desastrado e ingénuo e o franzino e matreiro. "Tentar explorar uma relação que é sempre de grande amor e conflito e pôr isso num grau acima do que é normal através da deficiência”, continua.

Isolou-os para melhor transmitir as impossibilidades de comunicação, os encontros, o conflito. Escolheu a tal aldeia isolada num interior que não conhece, mas que retrata sem ponta de bucolismo. “Queria o Tojal pela paisagem humana, um sítio cáustico, agreste, abandonado e que obrigasse o narrador e o irmão, mas principalmente o narrador, a pensar no que se passava. Isso também se estende às outras personagens que passam por lá”, justifica. E nisso é feio e austero e porco, a beleza está na paisagem, não nas pessoas que surgem num desconcerto sem remédio. Miguel e o irmão encontram-se com a única família daquela aldeia abandonada. Olinda, Aníbal e Quim, o único de quatro filhos que ficou, também quarentão, também dependente como Miguel, mas com outro tipo de precisão. Quim era capaz de ambições e daí a amargura de nunca as ter concretizado. Mas existe uma razão mais prática para que esta família existisse: “Tenho duas personagens numa aldeia abandonada, o que é que faço com elas? O que é que vão dizer uma à outra? Ainda por cima a comunicação é complicada. Vão de uma sala para a outra, dão um passeio pelo campo? Isto é suficiente para três ou quatro capítulos. Eles não são o centro do mundo, e aquelas personagens que habitam a aldeia servem para dar o traço do abandon. O abandono é concreto quando ainda há uma memória e eles são um bocado a memória do que aquela aldeia foi." 

Além do indivíduo fechado em si, há o retrato do colectivo. A aldeia, o interior e o país. “É assim o interior de Portugal: uma imensa mulher feia e viúva fechada à janela do primeiro andar de uma casa velha, esperando sair à rua numa ocasião importante como o enterro do doente que nunca conheceu mas em relação ao qual sente alguma afinidade porque vivia na terra ao lado.” Vem no livro e é a imagem do narrador. Não difere muito da de Afonso, embora ele aponte a caricatura, uma ironia branda que na personagem é ácida. “Vejo sempre viúvas à janela quando ando pelo interior e pareceu-me uma boa metáfora”, ri. Faz uma pausa. “Sou sempre um bocado excessivo do início” Como assim? “Por exemplo, numa primeira versão não havia uma viúva à janela, havia três. Começo sempre por ser um bocado desajustado a escrever e depois tento partir a narrativa e podá-la com muito mais trabalho do que só a mera inspiração e a metáfora inicial. Tento pôr o mínimo que consigo a partir de um excesso inicial.” Quanto ao país, há uma crise. O narrador vai falando dela sem se demorar, em considerações breves, reagindo ao ruído que lhe chega sobre o tema. “Foi propositado. O narrador é tão misantropo, tão egoísta... está lá mas é como quem não se importa. Sendo como é ele só podia ouvir a crise, os problemas financeiros, a troika sem se comprometer, não consegue conviver com o colectivo." 

E agora?


Conviveu durante três anos com esta que considera no que é essencial uma personagem oposta a si mesmo e diz que tem saudades dela, que pensa muitas vezes nela, mais do que em Miguel. O mal é mais sedutor. Separou-se do narrador em Maio quando entregou o original para o prémio. “Era para ter sido no ano passado, mas não fui a tempo, por isso fui mudando as datas no texto." No dia em que entregou ainda reescreveu os dois últimos parágrafos e sujeitou-se à prova cega, como lhe chama Manuel Alegre, o presidente do júri desde que o prémio existe. “Todos nós individualmente fazemos apostas sobre quem poderá estar por detrás de um texto quando ele tem determinadas marcas, mas nunca acertámos. Já falámos disto várias vezes uns com os outros.” Com Afonso Reis Cabral não foi diferente. O escritor Nuno Júdice, outro elemento de um júri composto ainda pelo angolano Pepetela e pelo brasileiro José Castello, pelo ensaísta José Carlos Seabra Pereira, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, por Lourenço do Rosário, Reitor do Instituto Superior Politécnico e Universitário de Maputo, e por Rita Chaves, da Universidade de São Paulo, achou que seria uma mulher quando começou a ler. “Pela temática”, diz ao Ípsilon, depois, “pela dureza”, achou que não. E o voto pela vitória de O Meu Irmão foi consensual, o que nem sempre acontece: o vencedor entre um total de 361 candidatos de 14 países, “muito desiguais entre si", diz por sua vez Maria do Rosário Pedreira, a editora, e desiguais pela qualidade. Todos partilharam o espanto quando se soube que o vencedor era um rapaz de 24 anos.

Afonso revive esse momento e agora já consegue ter um discurso acerca do que lhe está a acontecer. “Eu sou bastante inseguro e na escrita acho sempre que podia ter feito uma ou outra alteração. Não é nada concreto. É uma sensação genérica e agora um bocado desajustada porque o livro já foi avaliado, vai ser publicado. É irracional. Não há volta a dar. Tenho saber viver com isso, mas saber que já não posso mexer no livro perturba-me um bocado. Por outro lado alegra-me, já acabou. Era esse o objectivo.”<_o3a_p>

É o sexto vencedor em sete edições do prémio (não se realizou em 2010 por o júri achar que não havia qualidade nas obras a concurso) e o quarto português. “Tem havido mais gente a concorrer e o nível melhorou”, assume Manuel Alegre ao Ípsilon. Desde quando? “É uma tendência que se nota desde 2011, o ano em que ganhou o livro de João Ricardo Pedro. Acho que o facto de não ter havido prémio no ano anterior, aliado a aumento da atenção para o prémio nesse ano e o contexto em que ele se deu, com um desempregado, engenheiro, a ser capaz de escrever um livro de qualidade, um primeiro romance, despertou muita gente.” Nuno Júdice acha mesmo que esse é o melhor livro entre os que venceram o prémio. Sobre o actual, volta a salientar a idade do autor e a maturidade do que escreveu e aplaude o facto de estar a ser publicado mais perto do anúncio do prémio. “Havia um desfasamento de tempo muito grande que dispersava a atenção”, concorda Manuel Alegre. Na editora, a decisão foi determinada pela curiosidade demonstrada pelos leitores. Outra vez a idade do vencedor e um aspecto que atrai a atenção: o facto de Afonso Reis Cabral ser trineto de Eça de Queiroz pelo lado paterno.

Da parte de Afonso Reis Cabral, há um sorriso meio forçado quando se fala do assunto e a expressão: preferia que não se falasse muito disso. Mas sabe que não pode fugir. “É uma coisa com a qual cresci e acho tão legítimo comparar a minha escrita com a de Eça como com a de outro escritor qualquer. Percebo que se fale nisso e que se tente fazer uma ponte, mas não há uma carga genética que eu tenha herdado. Espero que não me comparem.”

Outro ponto a favor da popularidade do prémio. Manuel Alegre reconhece isso, embora salvaguarde que nada tem a ver com a qualidade literária. Só indirectamente. Quanto mais se falar de literatura e de livros mais se escreve, e é um círculo. Mas num ano de muitas obras a concurso, ao júri chegaram “quatro ou cinco”, como refere. “Foi o ano em que tivemos de ler menos. Não sei se pela qualidade da triagem ou pela falta de qualidade das outras… Tudo isto é muito relativo, sabe…” Reis Cabral venceu por unanimidade e pela diferença de qualidade, mas é falso o argumento de que falta qualidade aos concorrentes. “Não é verdade. Não me diga que encontrar dois ou três bons escritores em quatro ou cinco anos de prémio é mau. Quem nos dera.” E outra salvaguarda. “Este é um prémio a que podem concorrer todos os escritores, percebo que os mais famosos não enviem obras a concurso porque isto vive de anonimato e podem achar-se reconhecíveis, mas não era mau que acontecesse.”

“O problema do prestígio ou da falta dele coloca-se em relação a muitos prémios literários em Portugal”, afirma Nuno Júdice, acrescentado que se instalou um clima de suspeição face a muitos júris. “Andamos sempre a procurar consensos, basta ver a quantidade de vezes em que se atribuem prémios ex-aequo. O júri tem de assumir uma escolha, custe o que custar. Tem de haver uma obra vencedora, nós fazemos várias reuniões para chegar a um vencedor. Este ano foi mais fácil por ser clara a diferença de qualidade." Também por isso, defende que o prémio deve ser entregue todos os anos e quanto a chamarem-lhe popular ou privilegiando obras mais fáceis, basta ver as vendas. “Não temos best-sellers a não ser e o exemplo do livro que venceu este ano. É um livro pouco complacente.”

E agora, Afonso Reis Cabral? Há um deixar vir a emoção. “Agora quero pegar no livro, no objecto, e não estou preparado para isso. Ele esteve três anos comigo, entre o teclado e o ecrã do computador, parece que não me pertence mais e essa separação é para sempre." Virá outro, não sabe quando nem como, não quer falar disso. Tem uma certeza. “Sou escritor. É a minha vocação. Nunca quis ser outra coisa, mas não sei mais nada.” Vai continuar a trabalhar. Agora como assistente editorial na Alêtheia, o emprego que arranjou a seguir a escrever o livro, depois de já ter trabalhado num alfarrabista e de ter feito revisões de texto. “Tenho de viver. Não me vou fechar a escrever, como já me sugeriram. Agora posso ter esse tempo. Eu gosto de trabalhar, de chegar ao fim do dia exausto e com a sensação de que fiz coisas. E entre tudo isso escrever." 

Artigo corrigido às 13h - o escritor Pepetela é angolano e não moçambicano


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