Alfa Pendular esteve em risco de descarrilar, CP já está a investigar

Tragédia foi evitada por pouco numa viagem entre Lisboa e Braga, e fez soar campainhas de alarme na CP. Rolamento nos rodados gripou e veio de transmissão partiu-se.

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Enric Vives-Rubio

Um Alfa Pendular que seguia de Lisboa para Braga acabou por não chegar ao destino devido a uma avaria grave num dos rodados que poderia ter provocado um descarrilamento.

O rolamento da caixa de eixos gripou e o veio de transmissão no qual assentam as rodas fundiu e por pouco não se partiu. Se tal tivesse acontecido, o comboio poderia ter descarrilado.

O incidente aconteceu no dia 11 de Setembro com o Alfa Pendular nº133 que saiu de Santa Apolónia às 14h00 para chegar a Braga às 17h30. Mas em Campanhã, alertada a tripulação para o fumo que saía dos rodados, o maquinista, depois de ver que o veio estava incandescente, tomou a decisão que, possivelmente, acabou por salvar vidas – o Alfa não seguiu viagem e recolheu às oficinas de Contumil, tendo os passageiros seguido noutro comboio para Braga.

A CP e o GPIAAF (Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes Aéreos e Ferroviários) já abriram um inquérito àquilo que é considerado como um quase-acidente.

As causas estão, pois, por apurar e tanto podem ter origem numa eventual falha da manutenção como em motivos excepcionais impossíveis de prever. Pedro Conceição, engenheiro especialista em manutenção ferroviária, que já foi quadro da EMEF, disse ao PÚBLICO que "um rolamento gripar é um fenómeno que pode acontecer a qualquer momento, mesmo quando a manutenção é perfeita e até pode acontecer com rolamentos novos... basta que tenham um defeito de fabrico ou sido sujeitos a mau manuseamento". Daí a importância dos sistemas de detecção de caixas quentes que estão colocados ao longo da via férrea e que identificam aumentos de temperatura dos rodados à passagem dos comboios.

Só que, em Portugal, esses equipamentos, da responsabilidade do gestor da infra-estrutura (Infraestruturas de Portugal), estão desactivados.

Pedro Conceição diz que os instrumentos são fundamentais para obviar problemas como o que aconteceu com o Alfa Pendular da semana passada. E conta que já aconteceu no passado aqueles detectores terem identificado problemas nos rodados e os comboios terem recolhido à oficina para inspecção de controle dos rolamentos.

"Ao contrário dos comboios mais recentes, o Alfa Pendular que é uma tecnologia dos anos 90, não tem nenhum sistema de detecção de temperatura anómala que permita dar o alerta para um problema deste tipo", contou este especialista ao PÚBLICO. "Já o material mais recente tem sensores de medição do ABS do comboio que já têm embebidos o sistema de detecção de caixas quentes. Mas os pendulares não".

Fontes da EMEF contactada pelos PÚBLICO, mas que pediram o anonimato, reconhecem que há já vários anos que a logística da empresa não consegue responder às solicitações de peças e que a sua falta é transversal a todas as oficinas da empresa. A EMEF tem 11 oficinas em todo o país, mas a falta de sobressalentes é maior nas oficinas onde se fazem grandes reparações.

Por outro lado, as equipas trabalham sob forte pressão para libertar rapidamente os comboios imobilizados o que pode levar a decisões erradas como, por exemplo, colocar um rolamento que já ultrapassou o limite expectável de vida.

O PÚBLICO dirigiu um conjunto de perguntas à CP sobre este assunto, entre elas sobre que medidas foram tomadas para verificar se havia riscos na restante frota dos pendulares, mas a empresa limitou-se a responder que "o Alfa Pendular é objecto de rigorosa manutenção por parte da EMEF, de acordo com os mais elevados padrões de qualidade, em particular no que diz respeito à segurança da circulação".

Já a Infraestruturas de Portugal (IP) também não respondeu às perguntas do PÚBLICO sobre a desactivação dos sistemas de detecção de caixas quentes instalados na via férrea. A empresa explicou apenas que esses sistemas foram instalados nos anos 2000 e que o processo "teve em consideração o tráfego, à data, de comboios de mercadorias, em conjugação com as características da infra-estrutura que potenciam a maior utilização dos sistemas de frenagem e consequentemente a utilização dos cepos nas rodas".

A IP refere ainda que "o sistema de detecção de caixas quentes é complementar/auxiliar de segurança do sistema ferroviário, estando em curso um processo para instalação de novos equipamentos com tecnologia compatível com a realidade actual e que abranja a totalidade da rede ferroviária nacional".