Entrevista

João Moreira Rato: “Portugal ainda está em risco caso a economia mundial sofra um abrandamento substancial”

O economista João Moreira Rato não acredita numa nova crise financeira internacional, mas diz que já está em curso uma correcção nos mercados da dívida.

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A política fiscal expansionista da Administração Trump está a fazer aumentar as necessidades de financiamento nos EUA e a penalizar os países emergentes Reuters/Joshua Roberts

Dossier sobre os dez anos da queda do Lehman Brothers:

PÚBLICO -
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Em resposta por escrito a questões colocadas pelo PÚBLICO, o economista salienta que é “preciso reduzir o endividamento” em Portugal “o mais rapidamente possível e rezar que a economia Europeia aguente mais uns tempos até vir a próxima recessão”.

Há cada vez mais economistas a dizer que o mundo se aproxima cada vez mais de uma nova crise financeira internacional. Concorda com esta ideia? Porquê?
Penso que no curto prazo, o risco maior está na dívida de mercados emergentes e talvez na dívida corporativa Americana. Neste momento, não penso que exista muito risco no sector financeiro. Tem havido uma marcada desalavancagem do sector financeiro nos últimos dez anos. Nos Estados Unidos, o sector financeiro parece-me de boa saúde. Por isso, penso que a correcção nos mercados de dívida que se aproxima, desta vez não terá grande impacto nos bancos. Desta vez, boa parte do risco está em fundos de investimento. 

Claro que existem excepções como no caso da Itália em que o sector financeiro está a aumentar a sua exposição ao soberano. E na China onde os bancos parecem ter aumentado muito a exposição à dívida privada e das autoridades locais.

Que factores estão na base deste aparente perigo de nova crise?
A próxima correcção nos mercados de dívida já está a começar e a ter muito impacto em países emergentes. A Turquia e a Argentina já estão a passar por uma situação delicada. Os fundos que detêm dívidas destes países tentam desfazer-se destas posições, mas não encontram comprador. Os preços vão caindo sem encontrar sustentação porque nenhum investidor está interessado em, como diz a expressão inglesa, “catch a falling knife”.

O factor que está por traz destes movimentos é o aumento das taxas de juro de curto prazo nos Estados Unidos, devido ao movimento de subida de taxas pela Reserva Federal Americana e o aumento das necessidades de financiamento do Estado Americano devido à política fiscal expansionista da Administração Trump. (a contraciclo tipo Portugal em 2009). Se um investidor pode investir a 2.6% a dois anos em obrigações do Tesouro Americano, para tomar risco Emergente ou de empresas High Yield o investidor tem de ser mais compensado do que há um ano atrás. Por outro lado, também aumenta a pressão de apreciação do Dólar e os privados dos países emergentes maiores endividaram-se em dólares neste último ciclo.

Está o mundo em geral melhor preparado para lidar com uma eventual crise financeira do que estava em 2008?
Penso que os bancos estão muito menos alavancados e mais seguros. As famílias também têm reduzido o endividamento. São os soberanos que estão mais alavancados, além das empresas nos mercados emergentes, China e Estados Unidos. Mas este risco (com a excepção da China) está desta vez muito mais colocado em fundos de investimento: Os fundos de investimento podem acelerar estes movimentos mas a certa altura se não conseguirem vender os títulos adiam os reembolsos.

No cenário de uma nova crise, Portugal está melhor preparado para liderar com essa crise do que estava com a crise iniciada em 2008?
Portugal ainda está em risco caso a economia mundial sofra um abrandamento substancial. O grau de endividamento, público e privado, da economia Portuguesa é muito elevado. Penso que, por enquanto, a Europa está mais protegida dos efeitos da subida de taxas nos Estados Unidos, pela política ainda acomodatícia do BCE. Por isso, o efeito sobre a Europa pode demorar a sentir-se. Mas se a Europa abrandar, Portugal está numa situação muito precária. É uma corrida contra o tempo. É preciso reduzir o endividamento o mais rapidamente possível e rezar que a economia Europeia aguente mais uns tempos até vir a próxima recessão.