Entrevista

Ricardo Cabral: “Não julgo que nova crise financeira internacional esteja ao virar da esquina”

Para o economista Ricardo Cabral, uma crise financeira não está no horizonte. Ainda assim, o professor universitário alerta para os desequilíbrios que existem na economia mundial.

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A evolução dos índices das bolsas dos países desenvolvidos, em particular dos EUA, pode levar os analistas a considerar que existe o risco de um colapso financeiro, adverte Ricardo Cabral. Reuters/BRENDAN MCDERMID

Dossier sobre os dez anos da queda do Lehman Brothers:

PÚBLICO -
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Em resposta por escrito a perguntas colocadas pelo PÚBLICO, o economista Ricardo Cabral diz que num cenário de crise internacional, Portugal pode entrar em incumprimento.

Há cada vez mais economistas a dizer que o mundo se aproxima cada vez mais de uma nova crise financeira internacional. Concorda com esta ideia? Porquê?
A evolução dos índices das bolsas dos países desenvolvidos, em particular dos EUA, pode levar os analistas a considerar que existe o risco de um colapso financeiro. De facto, a bolsa dos EUA tem registado uma subida quase sem oscilações (“correcções”) desde 2009. Segundo o Bank of America Merrill Lynch é o período de crescimento regular (bull market) mais longo da história.

Outros indicadores, como as taxas de juro de dívida de “má qualidade” (non-investment grade ou junk) e os preços de algumas acções, também sugerem euforia.

Por outro lado, desequilíbrios macroeconómicos, como o rácio de dívida agregada, privada e pública, em relação ao PIB, os défices de balança corrente de alguns países também são factores de risco.

A instabilidade geopolítica com guerras comerciais, sanções económicas e ameaças de conflito potencia esses riscos.

Por último, os principais bancos centrais dos países desenvolvidos já começaram, ou iniciarão em breve, o processo de retirada de liquidez injectada no sistema financeiro na sequência da crise financeira internacional de 2007-2009 e da crise do euro de 2010-2012. E, como se sabe, a política monetária tem um grande impacto nos mercados financeiros.

Contudo, não estou certo nem julgo que nova crise financeira internacional esteja ao virar da esquina porque os “mercados” estão cada vez mais controlados e dominados por muito poucos decisores privados e públicos. Por isso, parece-me que, apesar de considerar que os factores de instabilidade são vários e graves, os poderes dominantes têm capacidade para adiar o deflagrar da eventual crise financeira por vários anos.

Que factores estão na base deste aparente perigo de nova crise?
Fundamentalmente, alavancagem financeira excessiva, isto é demasiada dívida em relação aos capitais próprios, e elevados preços de activos financeiros e reais. Como acima referido, os elevados níveis de vários índices das bolsas dos países desenvolvidos, em particular dos EUA, os baixos níveis de taxas de juro de dívida de “má qualidade” (non-investment grade ou “junk”), os preços elevados de algumas acções como a Apple ou a Amazon e ainda desequilíbrios macroeconómicos em muitos países são factores de risco.

Está o mundo em geral melhor preparado para lidar com uma eventual crise financeira do que estava em 2008?
A regulação e a supervisão bancária tornaram-se muito mais intrusivas e exigentes. Os rácios de capital subiram. Por conseguinte, parece-me que parte do risco passou para o sistema financeiro sombra (“shadow banking”).

Afigura-se-me que as principais fontes de risco resultam de novos “actores” e produtos nos mercados financeiros, nomeadamente algoritmos electrónicos, alguns dos quais algoritmos inteligentes. Esses algoritmos electrónicos hoje dominam as transacções em todos os principais mercados financeiros do mundo.

Outra fonte potencial de risco são os chamados fundos passivos, que investem de acordo com um índice bolsista independentemente do preço dos activos que integram. Estes fundos, utilizados por muitas famílias para investir na bolsa, são considerados por estes investidores quase como uma forma sem risco de aplicar as suas poupanças.

No entanto, como a riqueza está concentrada de forma crescente e existem fundos públicos (fundos de riqueza soberana) e bancos centrais a investir nos mercados de acções, o impacto de um eventual crash bolsista seria algo minimizado porque o efeito de perdas para este tipo de investidores é menor do que para a generalidade da população.

No cenário de uma nova crise, Portugal está melhor preparado para lidar com essa crise do que estava com a crise iniciada em 2008?
O país apresenta a balança corrente e de capital equilibrada bem como elevados saldos orçamentais primários.

Contudo continua muito vulnerável a choques porque os níveis de dívida externa bruta e líquida e de dívida pública continuam próximos dos máximos históricos em percentagem do PIB e em máximos históricos, em níveis absolutos.

Por conseguinte, qualquer abalo mais forte nos mercados financeiros pode resultar na entrada do país em incumprimento.