Jornalistas e analistas dos media divididos com opinião anónima no NYT

Decisão do jornal norte-americano de acolher anonimato do autor do texto gera debate ético aceso, dentro e fora dos EUA. Relevância da informação e forma como foi revelada suscitam diferentes interpretações.

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Sede do New York Times, em Nova Iorque (EUA) EPA/JUSTIN LANE

O New York Times assume-o sem rodeios. A decisão de publicar nas páginas do jornal um artigo de opinião redigido por um alto responsável da Administração Trump que denuncia um movimento de resistência ao Presidente dos Estados Unidos dentro da Casa Branca foi “excepcional”, “incomum” e “rara”, tendo em conta o historial do jornal. Mas foi legítima e justificada. “Acreditamos que a publicação deste texto anónimo é a única forma de darmos esta perspectiva importante aos nossos leitores”, lê-se no preâmbulo do texto publicado na quarta-feira à noite.

O caso provocou um terramoto nos EUA, não só pelo conteúdo do texto, mas também pelos dilemas éticos e deontológicos que levantou entre jornalistas, analistas políticos e meios de comunicação, do país e fora dele. No centro do debate está a relevância da informação, a forma como foi dada a conhecer ao público e o grau de responsabilidade (e risco) assumidos pelo jornal.

Erike Wemple, do Washington Post, defende que a informação trazida pelo NYT “não tem grande valor noticioso”, comparando-a com as “10 mil citações” já referidas por diversos media sobre as incapacidades de Donald Trump para o cargo. E dá o exemplo do mais recente livro do Bob Woodward – jornalista do Post – sobre a Casa Branca, para justificar a crítica. David Frum, da revista Atlantic, pega mesmo no livro de Woodward para criticar a decisão do New York Times, argumentando que o jornalista abriu um “mau precedente” que foi agora aprofundado pelo jornal. Já Laura Ingraham, da Fox News, diz que este caso confirma a transformação do NYT num “jornal de rumores”.

Na BBC, porém, aplaude-se o NYT. O editor Amol Rajan lembra que o papel de um jornal é o de “encontrar histórias” que “informem a cidadania” e olha para a decisão com pragmatismo, face à cobertura dada pelo NYT à Casa Branca: “As questões para o NYT são: este caso fez avançar a história, ajudou-nos a perceber melhor a administração Trump e deu aos leitores informação correcta? Sim, sim e sim”.

Entre os jornalistas e académicos portugueses ouvidos pelo PÚBLICO, é a forma como a informação foi revelada que gera mais pontos de interrogação. O director do PÚBLICO, Manuel Carvalho, não tem dúvidas que o tema do texto é “muitíssimo importante” que os leitores “mereciam conhecê-lo” e que o risco assumido pelo NYT é “justificável”.

Mas defende que a informação deveria ter sido apresentada ao público “sob a forma de um artigo, escrito pela redacção”. Até porque, argumenta, uma opinião apresentada sob anonimato é “um contra-senso com a noção de sociedade aberta” que o jornalismo de qualidade procura promover.

O jornalista e investigador Adelino Gomes aceita, ainda que com reticências, a explicação do NYT, quando este refere que foi a única forma de dar a conhecer a história aos leitores. Mas confessa ter ficado “surpreendido e preocupado”, principalmente na pele de “leitor assíduo do jornal”.

“Do ponto de vista editorial a utilização do anonimato só deve ser admitida em último recurso e eu preferia que essa fronteira não tivesse sido cruzada”, lamentou. “Foi uma fraqueza do NYT, um jornal tão forte e tão exigente. Foi uma cedência a um momento inédito da vida política norte-americana”, acrescentou, rejeitando no entanto a hipótese de o jornal ter sido atraído pelo imediatismo noticioso dos novos tempos.

Paulo Frias também recusa ver na acção do NYT uma consequência do cenário de “banalização da transmissão da informação” e da “crescente tendência da utilização do anonimato de forma leviana” por muitos media. O professor e especialista em novos media e redes sociais da Universidade do Porto lembra que o NYT tem bastante cuidado “com a manutenção da credibilidade da marca”, pelo que acredita que a publicação do texto foi “assumida e consciente dos riscos envolvidos”.

O caso tem mais um ingrediente complexo, uma vez que, segundo o New York Times, a decisão de publicar o texto foi tomada pela secção de Opinião do jornal, que funciona de forma independente da restante redacção. Adelino Gomes diz que lhe “parece claro que o texto não é um editorial do jornal” e que a “chave desta decisão” encontra-se no poder que aquele departamento tem dentro do grupo de comunicação.

James Dao, editor da secção de Opinião do NYT, alude a essa independência para justificar a publicação: “A nossa missão é diferente [da missão da redacção]. É a de encontrar pessoas que escrevem o mais honestamente possível sobre o que estão a experienciar. Não lhes chamamos fontes, chamamos-lhes colunistas”.