Em Porto Formoso, há pescaria às cinco da madrugada

O projecto HáMar leva turistas a pescar num barco tradicional, acompanhando o trabalho de um pescador açoriano e podendo, no final, levar um peixe para casa.

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José Ventura
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Rob e a filha têm os cabelos molhados mas isso parece não os incomodar. Olham, encantados, para a forma como Paulo arranja, em cima de uma pedra do cais, o peixe-porco que acabaram de pescar. O pescador maneja a faca com destreza, fazendo-a deslizar para separar a pele grossa do animal da carne. Depois, com a rapidez de quem está mais do que habituado, separa a espinha, retira os filetes e entrega-os ao holandês.

Os cabelos estão molhados porque cai uma chuva miudinha no cais de Porto Formoso, uma pequena localidade na ilha de São Miguel. Ainda há pouco fazia sol, mas, já se sabe, o tempo nos Açores pode mudar num minuto, e agora o céu encheu-se de nuvens escuras. Rob não quer saber das mudanças atmosféricas, está feliz com a aventura que acabou de viver e orgulhoso por a filha, que terá uns 11 ou 12 anos, ter conseguido apanhar um peixe nesta que foi a sua primeira ida à pesca.

Saíram no barco, com Paulo, o pescador, e Bruno, o guia da Há Mar, eram umas 5h30 da manhã, fazia ainda escuro, céu e mar eram da mesma cor e não se via o caminho. Para Paulo isso não é um problema, conhece bem esta costa norte da ilha, há muitos anos que aqui pesca. O que é novidade, desde 2016, mas agora com cada vez maior frequência, é levar com ele turistas.

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O projecto começou impulsionado pelo actual Director Regional das Pescas, Luís Rodrigues, que, inspirado por algo semelhante que viu em Itália, achou que era boa ideia diversificar as fontes de rendimento dos pescadores açorianos, juntando-lhes a possibilidade de fazerem uma actividade turística a par da pesca. Criou, assim, licenças especiais de pesca-turismo e tentou convencer os pescadores a aderir — mas até agora foram poucos os que se lançaram nessa aventura. “Há um alerta brutal em relação à abundância dos recursos”, afirma Luís Rodrigues, “e os Açores têm pouco peixe.” Essa é uma das razões que o levam a defender que os pescadores devem diminuir a sua dependência de uma única actividade.

A embarcação de Paulo, que é filho e neto de pescadores, continua a ser de pesca e não pode fazer apenas passeios — o objectivo aqui é precisamente que os visitantes, estrangeiros ou portugueses, vivam a experiência de uma pescaria. Daí que seja preciso sair às 5h30 da manhã, à hora a que vai ser possível apanhar peixe. Hoje regressaram pelas 11h30 e trouxeram bastante peixe — Rob e a filha vão levar dois, já arranjados, para cozinhar em casa (há também um acordo com dois restaurantes locais que confeccionam o resultado da pescaria se o turista não tiver um local para o fazer).

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Inicialmente, Paulo teve algumas dúvidas sobre se seria uma boa ideia, mas, com o peixe a diminuir, resolveu arriscar. Como não fala inglês, juntou-se a Bruno, que aqui assegura a conversa com os turistas estrangeiros e dá todo o apoio necessário para que o pescador possa estar concentrado no seu trabalho. Criaram a Há Mar e hoje sentem que é uma aposta ganha. Paulo diz que gosta, sobretudo, dos grupos que incluem crianças e de ver o entusiasmo destas quando apanham um peixe. Nós chegámos a Porto Formoso a tempo de o ver preparar o peixe para o cliente holandês, mas a uma hora que já não permitia sair para nova pescaria. Por isso, só para termos uma ideia do que é a experiência, Paulo e Bruno levam-nos numa breve volta de barco pela costa e esses minutos já deixam uma impressão inesquecível: penhascos erguem-se, dramáticos, à nossa frente, enquanto tentamos equilibrar-nos para os fotografar contra o céu escuro, Paulo manobra o barco, aproximando-nos de pequenas reentrâncias, uma delas é quase uma gruta com uma abertura em cima e o céu a reaparecer entre os picos rochosos.

Damos meia volta e regressamos ao cais, onde encontramos o mestre Eugénio, no barco que usa para apanhar lagostas, a sua especialidade. Convida-nos para almoçar na pequena casa que tem, ao lado de uma horta rodeada de hortênsias, na encosta do cais de Porto Formoso. É quase hora do almoço, mas, em menos de nada, Eugénio e a mulher, Maria, põem em cima da mesa pão, queijo, amendoins (de cultivo próprio) e vinho, enquanto preparam várias postas de atum, batatas cozidas, uma deliciosa salada de tomate da horta, e, claro, uma caldeirada.

A grande caldeirada de Porto Formoso, uma iniciativa lançada pelo mestre Eugénio, aconteceu há poucas semanas, vieram mais de 500 pessoas e comeram-se mais de 400 quilos de peixes variados, conta o pescador, orgulhoso. Nós perdemos a festa, mas chegámos a tempo para um almoço improvisado que, com toda a certeza, não lhe ficou atrás.