Os construtores de Stonehenge podem ter vindo do País de Gales

As investigações científicas têm-se concentrado na origem das pedras daquele monumento. Mas uma técnica inovadora permitiu agora descobrir a origem geográfica das pessoas que o poderão ter construído através dos seus restos mortais.

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Stonehenge, em Inglaterra, é um dos monumentos pré-históricos mais conhecidos do mundo KIERAN DOHERTY/Reuters

Um dos monumentos pré-históricos mais conhecidos do mundo, Stonehenge (na região de Wiltshire, Inglaterra), continua a guardar vários segredos, entre os quais quem seriam as pessoas que o construíram e que tiveram de transportar pedras que pesavam dezenas de toneladas, numa altura em que a roda ainda não tinha sido inventada, há cerca de cinco mil anos.

Um estudo arqueológico recente, publicado na última edição da revista científica Scientific  Reports, vem revelar que alguns dos restos mortais encontrados em Stonehenge poderiam pertencer a residentes do País de Gales que terão percorrido centenas de quilómetros para transportar as pedras que formam o monumento. Algumas das misteriosas pedras foram extraídas das montanhas Preseli, no País de Gales, pelo que o transporte poderá ter sido feito através de rotas marítimas ou terrestres.

Existem várias teorias sobre a utilidade daquele monumento, constituído por um conjunto de menires reunidos em círculos, que vão desde um observatório astronómico até a um templo religioso. Os investigadores acreditam que terá funcionado como um local de enterro de dezenas de pessoas entre os séculos 33 e 28 a.C. As primeiras escavações no local, na década de 1920, nos chamados Buracos de Aubrey (em homenagem ao naturalista do século XVII John Aubrey que os localizou pela primeira vez) revelaram os restos mortais de 58 indivíduos, homens e mulheres, cujos cadáveres foram queimados antes de serem enterrados. Porém, em 1920 os investigadores enterraram-nos novamente naquele local e só em 2008 voltaram a ser encontrados os restos mortais de 25 desses indivíduos.

O facto de terem sido cremados seria, aparentemente, um impedimento à descoberta de novos detalhes. “As altas temperaturas durante a cremação, que podem atingir os mil graus Celsius, destroem toda a matéria orgânica [incluindo o ADN], mas a matéria inorgânica sobrevive”, explicou ao diário britânico Guardian Christophe Snoeck da Universidade Livre de Bruxelas, principal autor do estudo.

Uma técnica inovadora, descoberta por Christophe Snoeck e seus colegas, tornou possível analisar quimicamente os restos mortais através do estrôncio – um metal alcalino-terroso sete vezes mais pesado do que o carbono, que as plantas absorveram do solo. Quando os humanos ingeriram essas plantas, o estrôncio armazenou-se nos ossos, o que permitiu agora recolher informações sobre os últimos dez anos de vida daquelas pessoas. Isto porque as altas temperaturas, afinal, levam à cristalização da estrutura óssea que permite a recolha de dados através de isótopos. Chegaram então à conclusão de que dez dos 25 indivíduos cujos restos mortais foram encontrados (40%) não residiam nas proximidades de Stonehenge e que alguns teriam vindo precisamente da zona Oeste do País de Gales, perto das montanhas Preseli de onde as pedras foram extraídas.

A investigação, realizada em colaboração com a Universidade de Oxford e o Museu de História Natural de Paris, lança uma luz sobre as possíveis origens geográficas da população do Neolítico que ajudou a construir o monumento. Embora não se possa afirmar com certeza absoluta que foram aquelas pessoas a construir Stonehenge, as datas coincidem e alguns arqueólogos sugerem ainda que as pedras poderiam fazer parte originalmente de um outro monumento no País de Gales, que foi transportado e reerguido em Wiltshire. Outra hipótese é que os restos mortais tenham sido transportados, já depois de cremados, para aquele local para serem enterrados como uma forma de ritual.

“Os nossos resultados ressalvam a importância das ligações entre diferentes regiões – que implicavam tanto o movimento de materiais como de pessoas – na construção e no uso de Stonehenge”, garante Christophe Snoeck citado pelo diário El País. A nova descoberta é, portanto, “um exemplo único de que os contactos e intercâmbios no Neolítico, há cinco mil anos, se faziam em grande escala”, acrescenta o investigador. Vem desvendar alguns dos segredos da pré-história britânica e abrir caminho ao estudo das migrações humanas.

Texto editado por Teresa Firmino