Opinião

Quando o inverosímil não tem limites

A incredulidade mistura-se, cada vez mais, à habituação com o novo normal deste teatro grotesco de Trump.

A 3 de Junho passado escrevia aqui: "De Trump já nada pode vir que nos surpreenda." Enganei-me. Como vimos nas últimas semanas, Trump parece apostado em ultrapassar todos os limites de um comportamento errático, caótico, irresponsável, irracional, impensavelmente infantil e em choque absoluto com a natureza das funções que exerce – e que, no seu caso, são as de presidente da (ainda) maior potência mundial.

Havia fundadas suspeitas de que estivesse refém de Putin, suspeitas essas que se acentuaram nas vésperas da sua cimeira com o chefe do Kremlin, quando foram acusados 12 espiões russos por pirataria informática durante a campanha eleitoral de 2016. Ora, que fez Trump na conferência de imprensa depois da cimeira com Putin? Pois fez tudo para confirmar essas suspeitas, declarando confiar na palavra do líder russo enquanto invectivava os serviços secretos americanos. Depois, perante o tumulto que provocou nos Estados Unidos – nomeadamente entre as altas esferas do Partido Republicano e media que lhe eram afectos –, suscitando acusações de "traição" e outras amenidades, acabou por dar o dito por não dito com uma das declarações mais patéticas que algum dia se ouviram da boca de um chefe de Estado (americano ou não). Admitiu, assim, que dissera o contrário do que devia ter dito sobre a interferência da Rússia nas eleições presidenciais, responsabilizando Putin por essa eventual interferência. Mas como isto parecia comprometer a sua lua-de-mel com o Presidente russo, logo avançou com o convite para uma nova cimeira entre os dois em Washington, notícia essa que apanhou de surpresa alguns dos círculos mais próximos da Casa Branca e levou o responsável pelas agências dos serviços secretos a soltar uma gargalhada quando interrogado na NBC: "Repita lá isso…" A incredulidade mistura-se, cada vez mais, à habituação com o novo normal deste teatro grotesco.

Se enquadrarmos estes episódios no contexto precedente, do G7 à cimeira da NATO, em que, entre outras coisas, Trump apontou o dedo à União Europeia como "o inimigo" ou a Merkel como refém de Putin (por causa da dependência energética da Alemanha em relação à Rússia, mas antecipando com isso, infantilmente, o disfarce da sua própria dependência perante o líder russo), sem esquecer a nova declaração de guerra comercial com a Europa e a China, temos os ingredientes de uma ficção cinematográfica onde se cruzam o Dr. Strangelove com It’s a Mad, Mad, Mad, Mad World. Mas o que noutros tempos seria mais do que suficiente para desencadear um processo de impeachment (tantos são os sinais de total descontrolo ou demência e suspeitas cada vez mais fundadas de "traição" ou submissão a uma potência estrangeira) parece hoje dissipar-se num ambiente interno e internacional propício a relativizar tudo isto como as "excentricidades" de Trump ou uma "fixação doentia" na sua personagem (é o que faz, por exemplo, Rui Ramos no Observador).

Se a América perdeu a bússola e tarda em encontrá-la, quase o mesmo podemos dizer de uma Europa que demorou tempo demais a unificar-se e autonomizar-se face à América (é isso que Trump capitaliza, acusando os europeus, demagógica mas certeiramente, de viverem à custa da protecção militar americana). O lado perverso da globalização gerou fenómenos convergentes dos dois lados do Atlântico e que sustentam a deriva populista em curso: as crises identitárias e de exclusão social, a crescente fragilização dos valores democráticos entre as classes mais afectadas por essas crises e que se recolhem nas redes sociais onde cada um busca apenas o reflexo das suas próprias fixações. Daí este tempo das "democracias iliberais" ou das nostalgias autoritárias, quando o espírito crítico e o discernimento da razão perdem terreno para a irracionalidade mais grotesca e o inverosímil deixa de ter limites.