Casado, a direita descomplexada que venceu a liderança do PP

O novo líder era o número dois do gabinete de comunicação do partido. “Se alguma vez alguém tiver de me renovar, que me renove Casado, que é óptimo”, disse José Maria Aznar em 2015.

Pablo Casado, Madrid
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O PP rendeu-se ao entusiasmo de Casado JAVIER BARBANCHO/Reuters

O jovem novo líder do Partido Popular (PP) espanhol, Pablo Casado, é a encarnação da estrela ascendente de modo fulgurante: passa de vice-director de comunicações do PP para seu líder. Defensor de uma “direita descomplexada”, o advogado de 37 anos não se coibiu de, durante a campanha para, repetir palavras-chave clássicas do campo conservador: “Deus, pátria, família. Espanha, segurança, vida”, nota o jornal El País.

O diário digital El Independiente diz que, ao ser o primeiro a avançar a sua candidatura, Casado enviou “uma mensagem de força em dois sentidos”: que “não se importava de assumir a liderança de um partido que, segundo as sondagens, está à deriva, e que não se importava de o fazer apesar de estar numa situação pessoal delicada”.

Esta situação pessoal não tem nada de privado: trata-se de suspeitas sobre o seu currículo. Casado está a ser investigado judicialmente no âmbito de um caso envolvendo Cristina Cifuentes, antiga presidente da Comunidade de Madrid, por causa de um mestrado fraudulento na Universidade Rei Juan Carlos (o diploma de Cifuentes tinha assinaturas falsificadas; o de Casado não, terá feito a maioria das cadeiras por equivalência, mas o caso não está ainda fechado).

Por arrasto, os media esmiuçaram o currículo de Casado, e descobriram que menções de cursos ou posições em prestigiadas universidades americanas estavam claramente empoladas (programas de duas semanas apresentados como “pós-graduações”; um dos programas fora feito em Espanha e não nos EUA; apresentar-se como “visiting professor” quando tinha sido conferencista num programa de dez semanas para jovens da América Latina, por exemplo).

Mas os membros do partido ignoraram esta fragilidade e renderam-se ao entusiasmo que Casado provocou face a uma adversária vista como maquinal e burocrática, Soraya Saénz de Santamaría, antiga porta-voz e ex-“número dois” de Mariano Rajoy no Governo.

Casado, que está no PP há 15 anos, é apresentado como o herdeiro do Aznarismo, e foi de facto José Maria Aznar quem lhe abriu mundo ao escolhê-lo para chefiar o seu gabinete de ex-primeiro-ministro entre 2009 e 2011, o que lhe permitiu viajar pelo mundo e conhecer o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair e o ex-presidente norte-americano George W. Bush. “José Maria Aznar descobriu-o, apadrinhou-o e apoiou-o”, diz o diário El País. O próprio antigo primeiro-ministro disse, em 2015: “Se alguma vez alguém tiver de me renovar, que me renove Casado, que é óptimo.”

Mas Casado refere sempre, nas suas referências políticas, a sua primeira mentora, Esperanza Aguirre, a figura do PP de Madrid que acabou por ser obrigada a sair com o seu círculo próximo a tombar por escândalos de corrupção.

Na organização juvenil do Partido Popular de Madrid, Casado, que é natural de Palência, é conhecido pela capacidade oratória e tiradas inflamadas chamando, por exemplo, assassino a Che Guevara, declarando-se contra classificar uniões que não entre um homem e uma mulher como casamento, e por questionar a memória histórica e o olhar para o passado.

O currículo de Casado inclui ainda a passagem pela assembleia de Madrid como deputado, depois pela assembleia nacional, e apenas há três anos foi levado, por Mariano Rajoy, para o cargo que deixa agora, o de vice-director de comunicações do Partido.