Editorial

O Orçamento de 2019 já passou

Para já não há crise. Mas percebe-se bem como a "geringonça" anda com o carro na reserva e está à beira de ficar sem gasolina depois das legislativas de 2019.

O debate sobre o Estado da Nação a que ontem assistimos foi verdadeiramente um debate sobre o estado da "geringonça". E o que nos disse? Primeiro, que o Orçamento do Estado para 2019, na prática, já passou. Depois de uma espécie de ultimatos e contra-ultimatos na praça pública, BE e PCP conseguiram fazer mais de quatro horas de debate sem encostar o Governo à parede nas matérias que lhes eram tão caras apenas há uns dias: as alterações às leis laborais e a contagem integral do tempo de serviço dos professores. Ninguém teve interesse em fazer do hemiciclo um campo de batalha. Sinal de que as negociações de bastidores estarão a correr bem e que as divergências poderão ser dirimidas em conjunto com o Orçamento? Foi, aliás, comovente como os partidos da chamada "geringonça" voltaram a aparecer tão bem alinhados num rewind do discurso anti-Governo de Passos de 2015.

Em segundo lugar, percebeu-se bem como a "geringonça" anda com o carro na reserva e está à beira de ficar sem gasolina depois das legislativas de 2019. Esta é a conclusão a tirar depois de ouvir o secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, a pedir ao PS para não "recuar" ou fazer "marcha atrás" na reposição de direitos e investimentos públicos e o primeiro-ministro a responder-lhe que, segundo o Código da Estrada, "mesmo numa auto-estrada, a velocidade máxima deve ser ajustada às condições da via". PCP e BE não perdoam ao Governo ter ido além das metas orçamentais impostas por Bruxelas e os bloquistas chegaram mesmo a acusar ontem Costa de fazer letra morta do relatório sobre a sustentabilidade da dívida pública. Esta será a inevitável discussão entre os partidos de esquerda no pós-legislativas e, tal como Augusto Santos Silva vincou na entrevista ao PÚBLICO e à Renascença esta semana, o Governo tem que "agradecer" aos parceiros de esquerda por lhe terem permitido cumprir com todas as metas do Tratado Orçamental. Ora, dificilmente BE e PCP quererão ser colocados outra vez na posição de agradar a Angela Merkel, Valdis Dombrovskis e, já agora, Mário Centeno. Talvez tanto quanto o PS ambiciona uma maioria absoluta.

Por último, uma nota para a forma como António Costa se dirige a Catarina Martins e a Jerónimo de Sousa. Ontem, o primeiro-ministro disse, alto e bom som, que a "geringonça" foi feita primeiro entre o PS e o PCP, a que se "juntou" o BE. Não era um recado inocente, pois não?