“Fascistas não passarão. Racistas não passarão”, gritou-se em Lisboa

Nenhum dirigente partidário com assento parlamentar esteve no protesto marcado por grupos anti-racistas. Cerca de dez elementos do PNR queriam boicotar manifestação mas ficaram sem plateia.

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Tentaram mobilizar militantes e simpatizantes, mas apenas uma dezena respondeu. E quando chegaram ao Largo de São Domingos, em Lisboa, com as bandeiras do partido de extrema-direita PNR e uma faixa a dizer “reconquistar o que é nosso”, as dezenas de manifestantes que já lá estavam viraram-se e, em grito uníssono, com os punhos erguidos, gritaram: “Fascistas não passarão, racistas não passarão." No megafone, os do PNR tentavam provocar, mas foram abafados.

“Somos todos iguais, somos todos iguais”, gritava indignada uma mulher com um bebé ao colo, que ia por acaso a passar mas decidiu aliar-se ao protesto anti-racista convocado por várias associações. A separar os dois grupos estava um cordão policial, com agentes do corpo de intervenção rápida. Mas nem dez minutos durou o confronto verbal. 

Os organizadores chamaram os manifestantes anti-racistas para junto deles: “Chega de impunidade. É preciso ser anti-racista. E isso significa virar as costas a estes indivíduos. Não lhes dêem tempo de antena”, apelou a historiadora Joacine Katar Moreira. 

Os representantes do PNR ficaram sem plateia, à excepção de um ou outro transeunte que se indignava com as palavras de ódio. O partido nacionalista tinha convocado um boicote ao protesto organizado por vários grupos anti-racistas para esta sexta-feira e a PSP estava atenta para evitar confrontos, mobilizando agentes fardados (eram pelo menos 20) e à paisana. Pelo histórico, o PNR é um partido seguido pela PSP quando sai à rua, referiu o porta-voz da Direcção Nacional da PSP, Hugo Palma.

Grupos como Consciência Negra, SOS Racismo, Djass — Associação de Afrodescendentes, Radio Afrolis e Plataforma Gueto organizaram uma manifestação contra o racismo na sequência das agressões à jovem colombiana Nicol Quinayas, na noite de São João, por um segurança da empresa 2045, que fiscaliza os autocarros dos STCP — Sociedade de Transportes Colectivos do Porto.

Este caso, segundo os organizadores, pôs a nu "manifestações de racismo que quotidianamente afectam os negros, negras e imigrantes residentes em Portugal". No largo, de microfone em punho, activistas como José Pereira, da Consciência Negra, referiram a importância de apelar à punição de crimes racistas e de chamar a atenção para o racismo que, quotidianamente, atinge as pessoas negras. 

Entre os protestos, Beatriz Dias, da Djass, explicava que tinha aderido porque em Portugal “o discurso que nega o racismo permite que situações como a que aconteceu no Porto sejam naturalizadas”. “Não podemos permitir que isso aconteça”. Mamadou Ba, do SOS Racismo, acrescentou que quis “marcar a posição de repúdio ao aumento do racismo no espaço público” e chamar a atenção para a necessidade “de se alterar a lei de modo a que as empresas de segurança sejam punidas de forma eficaz”. Entre os manifestantes lia-se num cartaz: “Portugal é de todas as cores."

Também de passagem no local, o músico guineense Bubacar Djamanca comentava que “há uma grande desigualdade”: “A maioria dos imigrantes são marginalizados”, dizia, depois do discurso anti-imigração do PNR.  

Nenhum dirigente partidário com assento parlamentar marcou presença oficial. A deputada do PCP Rita Rato, porém, esteve lá. Há duas semanas, todos os partidos condenaram o sucedido com Nicol Quinayas e pediram explicações ao Governo sobre o papel da PSP no episódio. 

Este não é o primeiro protesto em solidariedade com Nicol Quinayas: na semana passada, um grupo de 50 pessoas reuniu-se em frente à STCP, no Porto, pedindo justiça. Quase três semanas depois da agressão de que foi alvo na madrugada da noite de São João, no Porto, a jovem colombiana de 21 anos Nicol Quinayas ainda não foi contactada pela PSP ou por qualquer entidade ligada ao caso. 

Num vídeo que circulou nas redes sociais vê-se Nicol a ser agredida por um segurança da empresa 2045 na zona do Bolhão, no Porto. A jovem acusou-o de insultos racistas, e criticou a PSP, que se dirigiu ao local, por não ter recolhido o seu testemunho mas apenas o do segurança. De facto, a PSP confirmou ao PÚBLICO que o auto relativo aos factos só foi elaborado a 27 de Junho, três dias depois do sucedido e já quando a jovem tinha formalizado queixa numa esquadra (um “hiato” que não é comum). 

A Inspecção-Geral da Administração Interna (IGAI) abriu um processo administrativo — que não é uma investigação no sentido formal mas apenas um procedimento para averiguar se há matéria para investigar — e a PSP está a fazer uma averiguação interna para perceber se houve falhas na actuação dos agentes que se deslocaram ao local e qual a razão de o auto ser elaborado tanto tempo depois. O Ministério Público está a investigar. Contactado, o Ministério da Administração Interna afirma que “aguarda os resultados dos inquéritos em curso”. 

Correcção da palavra inimigos, substituída por indivíduos, na citação da historiadora Joacine Katar Moreira