Uma parceria científica e tecnológica para África

O verdadeiro desafio a longo prazo, que a todos deve mobilizar, é garantir a efetiva capacitação científica de instituições africanas.

A Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e a Rede Aga Khan para o Desenvolvimento (AKDN) estabeleceram, em 2016, uma parceria científica e tecnológica no âmbito da Iniciativa Conhecimento para o Desenvolvimento, IKfD (“Initiative Knowledge for Development”), do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (MCTES), que está a possibilitar a concretização, desde já, de dezasseis projetos de I&D, com uma duração de três anos, em vários países africanos, com especial incidência nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOPS) mas envolvendo, nalguns casos, outros países africanos. O objectivo é estimular a capacitação científica de instituições africanas juntamente com a formação avançada de investigadores e a realização de actividades conjuntas de I&D com parceiros em Portugal e da AKDN

Estes projetos têm o apoio de várias instituições portuguesas de ensino superior, onde se encontram os investigadores coordenadores de cada projeto, e englobam instituições africanas com as quais já existiam relações de cooperação científica sedimentando assim parcerias que pretendem melhorar as capacidades de resposta dos países africanos aos desafios do desenvolvimento e melhorar a qualidade de vida das populações.

A primeira candidatura foi aberta entre maio e julho de 2017 e concorreram 78 projectos que foram avaliados por um painel internacional composto por peritos externos. Dos 73 projectos considerados elegíveis foram selecionados 16 (22%), aos quais já foi atribuído um financiamento até ao valor máximo de 300.000 euros, por um período de três anos. A FCT e a AKDN investiram neste primeiro concurso um valor total de aproximadamente 4,6 milhões de euros.

As áreas temáticas abrangidas nos projetos são: ciências naturais – desde a biologia à geologia e paleontologia, englobando também a oceanografia, a aquacultura e a ecologia, incluindo a proteção da biodiversidade; física – no domínio da radioastronomia; arquitetura e urbanismo; engenharia do ambiente e relações com a agricultura; arquitetura e urbanismo; ciências sociais e humanas – abordando áreas da história e da ciência política; ciências médicas e da saúde – incidindo na sida, na malária, na tuberculose e nas doenças hereditárias do sangue.

Os países envolvidos em mais do que um projeto são, para além de Portugal, que participa em todos: Moçambique (dez), Angola (seis) e Cabo Verde (dois). Participam apenas num projeto instituições da Guiné-Bissau e de São Tomé e Príncipe. Os outros países africanos envolvidos são: África do Sul, Tanzânia e Nigéria. Em vários projetos existe envolvimento de instituições de vários países.

A natureza singular desta parceria centra-se na utilização de conhecimentos científicos e de recursos tecnológicos, em rede, para o desenvolvimento dos países africanos e, em particular, para a melhoria da qualidade de vida das populações. Para além da qualidade científica dos projetos o sucesso da parceria deverá ser avaliado pelo impacto dos resultados tendo em conta, entre outros elementos, os Objetivos para o Desenvolvimento das Nações Unidas.

Por estas razões entenderam os dois parceiros que o acompanhamento da execução destes projetos deverá ser feito, não só de acordo com as regras da FCT mas também por uma comissão especialmente nomeada para o efeito que irá efetuar uma avaliação anual do já referido impacto, de acordo com o proposto em cada projeto.

Um outro desafio que a comissão de acompanhamento irá enfrentar, esperemos que com sucesso, será a mobilização e o envolvimento dos recursos humanos e tecnológicos da AKDN e mais especificamente da Universidade Aga Khan, quer em África, quer no Paquistão, onde já estão instalados e a realizar um trabalho notável, para facilitar a criação de uma nova rede conjunta para o desenvolvimento que englobe, nas suas iniciativas, Portugal e os PALOP's.

Mas o verdadeiro desafio a longo prazo, que a todos deve mobilizar, é garantir a efetiva capacitação científica de instituições africanas, facilitando o envolvimento de África em redes de conhecimento e de inovação e evitar a fuga de talentos de África. Esta é uma missão que nos deve responsabilizar a todos!

O autor é membro do Board of Trustees da Universidade Aga Khan e Coordenador da Comissão de Acompanhamento da Parceria FCT/AKDN

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico