Entrevista

A rede Aga Khan não é filantropia, "é responsabilidade"

Portugal é um país “onde o ADN dos ismaelitas se encaixa melhor”, diz um dos principais responsáveis da rede Aga Khan. “Os valores do mundo muçulmano não são inconsistentes com ninguém”

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Academia em Portugal será parte da rede global de escolas Aga Khan, sem pressas, segundo Mahmoud Eboo Nuno Ferreira Santos
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Aula de medicina no hospital de Carachi, a instituição que deu valor ao trabalho das enferemeiras e poder às mulheres, conta Mahmoud Eboo Fundação Aga Khan
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Universidade da Ásia Central no Quirguistão: o campus de Naryn abriu em 2016 e o seu programa, tal como os do Tajiquistão e Cazaquistão, foca-se nas necessidades das populações de montanha Fundação Aga Khan
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Para Mahmoud Eboo, "o risco para os ismaelitas e para a maioria do mundo islâmico, sunitas ou xiitas, são os que estão em posições extremas" Nuno Ferreira Santos
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Academia Aga Khan em Hiderabad, Índia Fundação Aga Khan

Mahmoud Eboo, o presidente de todos os presidentes das comunidades nacionais dos 15 milhões de ismaelitas no mundo, compara o princípe Aga Khan a Gates, Rockefeller e Ford para definir o que ele não é. “Sua Alteza não é um filantropo.” Aquilo que faz é “parte da sua responsabilidade enquanto imã dos ismaelitas”. Nesta quinta-feira Aga Khan IV termina a sua visita a Portugal.

 
Que importância tem o encontro desta semana para os ismaelitas?
Este ano, de 11 de Julho de 2017 até 11 de Julho de 2018, comemora-se o Jubileu de Diamante de Sua Alteza Aga Khan. São 60 anos seus como imã dos ismaelitas. Visitou 11 países, nos últimos 11 meses, culminando o Jubileu em Portugal. A razão de ser em Portugal é a nossa longa relação com o país e o facto de o Governo português ter convidado Sua Alteza como convidado de Estado a Lisboa. Pensámos que seria uma grande oportunidade para mostrarmos coisas diferentes à comunidade a nível mundial. Convidámos a comunidade e temos 45 mil ismaelitas que vieram de todo mundo para Portugal, desde a Ásia Central e do Sul, Médio Oriente...

Mas também queríamos aproveitar como oportunidade ter um festival de artes que olhasse para a diversidade da comunidade, que vive em muitos países, é uma comunidade plural, diversa, com diferentes línguas, etnias, histórias e culturas. Uma das formas de expor estas diferentes culturas é através do festival que estamos a fazer aqui, com música, arte, voz, concertos, durante uma semana, na FIL.

Para muitas pessoas da comunidade, é a primeira vez que estão em Portugal, a primeira vez que saem dos seus países, a primeira vez que vêem outros membros da comunidade, por exemplo, membros da Rússia.

É uma comunidade mundial que tem um único ponto de referência, Sua Alteza, mas somos diversos a viver em diferentes contextos. É por isso que esta celebração em Lisboa, o culminar de um longo programa de um ano, é tão importante para a comunidade.
 
A preparação da visita com o Governo português correu bem?
O Governo português tem sido excepcional. Estamos muito gratos não apenas no reconhecimento a Sua Alteza, mas na facilitação de trazer uma comunidade global a Portugal. O Ministério dos Negócios Estrangeiros, o Presidente da República, o primeiro-ministro têm sido excepcionais na sua cortesia e hospitalidade. Mas também os portugueses. Têm sido verdadeiramente hospitaleiros. Ficam curiosos e depois abrem os braços e acolhem-nos.


Esta comunidade mundial vive também em sítios de extremismo e violência. Que problemas enfrenta?
A comunidade ismaelita vive em muitos países, muitos dos quais estão em situação de conflito. A comunidade da Síria vive uma situação complexa. Hoje são um quarto de milhão de pessoas, há oito séculos que vive lá uma comunidade ismaelita. A sua casa ancestral é a Síria. Algumas comunidades foram da Índia para África e de África para o Canadá ou EUA. Ou seja, África era ponto de transição. Estavam lá 30, 40, talvez 50 anos, e depois mudavam-se. A comunidade síria é historicamente síria e continua na Síria. Mesmo chegado este ponto de conflito, a maioria manteve-se.

Temos a nossa comunidade no Afeganistão, um país com muitas fragilidades ainda, mas estamos comprometidos com este país. Temos ismaelitas a viver há mil anos na Ásia central, a área que cobre a China ocidental, Tadjiquistão, Quirguistão, Afeganistão e norte do Paquistão. As fronteiras de hoje são novas, têm 152 anos, mas a sua presença naquela parte do mundo vem de há muito. É essa a razão por que Portugal é importante para nós. Permite à comunidade olhar para cima e em frente com esperança.

Se me perguntar qual a aspiração de Sua Alteza é assegurar a esperança para a comunidade. Há uma oportunidade de pensar que há uma vida melhor, mesmo que vivam em zonas de conflito. Enquanto comunidade fazemos tudo o que pudermos para apoiar essa melhoria de vida, seja em segurança, estabilidade, qualquer que seja o apoio requerido.

São comunidades ameaçadas?
Estão vulneráveis. Seria incorrecto dizer que estão imunes ao conflito. Têm tentado gerir isso. Aqui em Lisboa temos alguns sírios que foram autorizados a vir para o festival de música, e tem sido uma grande experiência para eles. Nos seus 1400 anos de história, a comunidade teve sempre tempos em que esteve exposta ao risco, ao conflito, ao perigo. Não é novidade para nenhuma comunidade. É por isso que temos um imã, que é uma pessoa capaz de navegar e orientar a comunidade a lidar com estes problemas de uma forma que possa assegurar um resultado estável no futuro. É isso que ele quer.

Os sítios de conflito entre sunitas e xiitas são os mais perigosos?
Há no islão, tanto no mundo sunita como o mundo xiita, múltiplas interpretações. Temos relações com muitos sunitas que não são ideologicamente extremos, temos relações boas com outros no mundo islâmico, com sunitas ou outras interpretações da fé e que nos respeitam como interpretação dentro do mundo islâmico. O risco para nós, até para a maioria do mundo islâmico, tanto sunitas como xiitas, são os que estão em posição extremas, é um risco para toda a gente, não apenas para os ismaelitas.

Não posso dizer que temos um conflito com todo mundo sunita. Não é o caso, de todo. Temos na realidade muitas coisas que fazemos em colaboração com múltiplas denominações e interpretações no mundo islâmico.

Quando há um ataque terrorista islâmico no Ocidente, perguntamo-nos pelas faces tolerantes do islão. Os ismaelitas são uma face tolerante?
A nossa interpretação do islão valoriza o intelecto, o conhecimento, a noção de pluralismo e estes são princípios em que Sua Alteza tem sido forte. Estabeleceu no Canadá o Centro Global para o Pluralismo, em parceria com o governo do Canadá, e em todos os discursos que ouvir, Sua Alteza fala sempre do facto de vivermos num mundo multidimensional e de termos de sobreviver comprometidos com o pluralismo. Mesmo que o outro seja diferente, isso não significa que se entre em conflito.

Quanto à ideia de um islão tolerante, às vezes os media ocidentais apenas comunicam o que pensam sobre o islão. Há muitos séculos, tanto na ciência, medicina como na arte, cultura, o islão tem sido um dos blocos constitutivos da civilização moderna de hoje. As pessoas vêem-no apenas uma parte muito pequena, dos últimos 60/80 anos talvez, e esquecem-se do que o islão fez nos últimos mil anos. O que queremos fazer como comunidade é trazer e educar as pessoas em relação a estas outras dimensões. Por exemplo, foi um matemático muçulmano que desenvolveu a noção de álgebra e óptica... Queremos trazer estas dimensões do mundo islâmico. Isto não é teologal, é cultural, humanístico. Tenho esperança que através destas abordagens as pessoas saiam com uma perspectiva diferente do mundo muçulmano. Os valores do mundo muçulmano não são inconsistentes com ninguém.
 
É por isso que a comunidade ismaelita tem cada vez mais educação superior?
A noção de educação não é nova para a interpretação ismaelita do islão. Sua Alteza é o 49.º imã. A primeira universidade alguma vez construída, al-Azhar, foi fundada e construída pelo 15.º imã, portanto seu antepassado. Há mil anos, em 971, estabeleceu a primeira universidade no mundo, antes de Cambridge, de Oxford. A noção de conhecimento, para a melhoria da qualidade de vida, não é um conceito novo para nós. Hoje vivemos num mundo meritocrático.

Conhecimento e educação são primordiais no mundo moderno. Sua Alteza passa essa mensagem desde 1957, o seu avô fê-lo desde 1885 para a comunidade ismaelita no mundo: educar, educar, educar, com o inglês como língua central, mantendo a língua materna seja qual for, urdu, farsi, português ou francês. O inglês é a língua universal hoje, é a língua da ciência, a língua em que comunicamos internacionalmente, por isso temos de ser pelo menos bilingues, se não mesmo tri ou quadrilingues. Esta mensagem tem sido parte do que a comunidade ismaelita internalizou há muitos anos, de como progredimos nos últimos 60/100 anos: é impulsionar a educação e o valor dela.

Sua Alteza construiu duas universidades nos últimos anos: a Universidade Aga Khan (tem programas no Paquistão, Quénia, Tanzânia, Uganda, Afeganistão e Reino Unido) e a Universidade da Ásia Central (Quirguistão, Tajiquistão e Cazaquistão). Os seus antepassados construíram a primeira em 971. Azhar continua a existir no Cairo mas já não está sob o controlo dos ismaelitas. São dois grandes projectos para estimular a capacidade de conhecimento. Temos parcerias com todas as eminentes instituições de ensino superior mundiais, com Harvard, Yale, Oxford, Cambridge, universidade de Toronto, Sorbonne.

Operam sobretudo nos países em desenvolvimento, mas também em três países ocidentais, Canadá, Portugal e Reino Unido. São excepções?

Não lhe chamaria excepções, são um começo. Canadá é um país onde estamos há 50/60 anos, que tem um conjunto de valores que abraçam o pluralismo, o multiculturalismo, a diversidade, que tem sido muito aberto a receber pessoas que chegam ao país. São valores com que a comunidade ismaelita se pode relacionar. Um país como o Canadá é um chão fértil para estarmos e crescermos em comunidade como canadianos. As instituições canadianas também estão entre as melhores do mundo. No Canadá construímos um museu com a missão de mostrar a história, cultura e tradições islâmicas. É o único na América do norte exclusivamente dedicado à herança islâmica.

No Reino Unido, estamos historicamente há séculos. É ainda o centro financeiro, cultural. Para nós, estas são áreas importantes de educação do mundo. Pensemos no número de pessoas que lá vai por ano, é o sítio onde querem ver um islão diferente.

Com Portugal temos uma relação histórica começando com Moçambique e Angola e a mudança da comunidade para Portugal. É um país que abraça a diversidade religiosa. Para nós, a liberdade religiosa e o que ela permite são valores importantes para nós. É também um país onde o nosso ADN se encaixa melhor. Culturalmente tem uma história da presença muçulmana na Península Ibérica, esteve exposto ao islão, é um país que na sua história permitiu que o islão, o cristianismo e o judaísmo tivessem interligações. Esses exemplos na história podem construir o presente num país como Portugal.
 
Em 2013, a revista Vanity Fair descreveu a rede de apoio ao desenvolvimento como uma organização “incrivelmente grande e eficaz” semelhante a uma “ONU própria” incluindo “uma enorme carteira de negócios que visam o lucro”. Concorda?
Não. Sua Alteza não é um filantropo e não faz isto como o senhor Gates, o senhor Rockefeller ou senhor Ford poderão fazer, como filantropos. Tem uma razão diferente para fazer o que faz. Vê-o como parte da sua responsabilidade enquanto imã dos ismaelitas. Do ponto de vista religioso, podemos dizer que temos de erradicar a pobreza, sim, mas como fazemos isso? A rede foi construída como base de resposta às questões da qualidade de vida. É como se faz e as prioridades do que se deve fazer para assegurar que milhões de pessoas melhorem a sua qualidade de vida.

Não nos vemos como umas nações unidas, não somos soberanos, estamos em vários países onde trabalhamos e somos únicos em diversos aspectos. Somos invulgares no espectro de actividades, mas não creio que Sua Alteza se sinta confortável com essa descrição ou mesmo a própria comunidade. Podemos ficar gratos por as pessoas poderem pensar que a nossa acção tem esse alcance e impacto, mas não é a nossa intenção.