Aga Khan considera Portugal "um país de oportunidade"

Líder ismaelita já discursou na Assembleia da República.

Discurso perante os deputados
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Discurso perante os deputados LUSA/TIAGO PETINGA
Aga Khan no hemiciclo
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Aga Khan no hemiciclo LUSA/TIAGO PETINGA
Ferro Rodrigues e Aga Khan
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Ferro Rodrigues e Aga Khan LUSA/TIAGO PETINGA

O líder ismaelita, Aga Khan, considerou esta terça-feira Portugal "um país de oportunidade", cuja visão pluralista se revelou ao longo da História e mais recentemente nos "fortes papéis" desempenhados na ONU, na UNESCO, na Comissão Europeia e na Organização Internacional para as Migrações.

"Esta visão pluralista tem vindo a ser reflectida em muitos momentos, ao longo da História portuguesa, e tem sido expressada de uma forma poderosa, na recente emergência deste país no plano global, como influenciador", disse o líder dos ismaelitas ao discursar o parlamento português.

Aga Khan citou, "apenas para mencionar alguns exemplos", o que classificou como "fortes papéis desempenhados pela liderança portuguesa" nas Nações Unidas e na UNESCO, na Comissão Europeia e - desde a semana passada - na Organização Internacional para as Migrações (OIM).

Aga Khan disse que os cerca de 40.000 fiéis que se juntam a estas celebrações em Portugal terão também "a oportunidade para descobrir Portugal", juntando-se a "uma grande vaga de estrangeiros" que têm tornado o país num dos destinos de viagem com maior crescimento no mundo.

Evocando a "grande Era dos Descobrimentos" e o "papel preponderante de Portugal", disse que o país que escolheu para instalar a sua Fundação tem mantido sempre uma cultura de descoberta, de "estender a mão, de conectar e empreender".

Shah Karim al Hussaini, Aga Khan, 49.º imã hereditário dos muçulmanos ismaelitas, recordou a convivência de diferentes culturas na Península Ibérica, nomeadamente quando "as administrações muçulmanas trabalharam de forma construtiva com os povos de fé cristã e judaica, percepcionando a diversidade de talentos e energia como fonte de força - em vez de uma causa para a divisão".

Portugal tornou-se "um país de oportunidade", o que, frisou, não é uma tarefa fácil: "É algo que tem de ser trabalhado pelas pessoas e os governos de uma nação, de forma criativa, com paciência e muita persistência".

Um país de oportunidade, acrescentou, é aquele que "encoraja a cooperação entre interesses diversos, que fomenta parcerias entre o governo e o sector privado, enquanto também encoraja as organizações privadas estabelecidas para servir os objectivos públicos".

Aga Khan destacou também que Portugal está posicionado entre os primeiros cinco lugares no Índice Global da Paz 2018, num relatório elaborado pelo Instituto para a Economia e a Paz, em que entram vários indicadores de 162 países.

"Foi com estes valores em mente que em 2015 assinámos um acordo histórico em Lisboa - para estabelecer aqui a nova sede do Imamat Ismail", justificou, referindo-se à capital portuguesa como "uma cidade de referência de cruzamentos internacionais".

O líder desta comunidade recordou ainda como momento marcante da história entre os dois povos "a generosa abertura que Portugal ofereceu, há quase meio século, a muitos ismaelitas que fugiam da guerra civil moçambicana".

"Construtor de pontes"

Na mesma cerimónia, o presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, afirmou que a instalação da sede mundial dos ismaelitas em Lisboa é a "melhor ilustração" de como Portugal quer ser projectado no mundo, como "país construtor de pontes plural e dialogante".

"A sua vinda para Lisboa é a melhor ilustração de como nos queremos projectar na comunidade internacional, como país construtor de pontes plural e dialogante", disse Ferro Rodrigues, apresentando votos de que a presença reforçada desta comunidade religiosa muçulmana em Portugal "seja um catalisador de energias e de trabalho conjunto para a construção de sociedades mais justas, mais abertas e mais plurais".

Afirmando: "Os ismaelitas destacam-se por traços com que muito nos identificamos - abertura e respeito pelo próximo, capacidade de integração e o amor às nossas raízes profundas." Quanto à inauguração da sede mundial dos ismaelitas em Lisboa, "facto inédito da sua história milenar, [é uma] decisão que nos enche de alegria e orgulho, mas também de responsabilidade", referiu o presidente do parlamento.  "A preocupação com os valores mais profundos da dignidade humana é por nós plenamente partilhado", afirmou.

Ferro Rodrigues listou um conjunto de desafios que as sociedades actuais enfrentam salientando: "Não é retraindo-nos que lhes poderemos fazer face". Falou da escassez de recursos naturais, das migrações, das mudanças aceleradas na sociedade do conhecimento e do imediatismo da comunicação que exigem capacidade de adaptação, mas sem perder princípios.

Enalteceu ainda a "notável acção" realizada por Aga Khan na educação, principalmente a infantil, no combate à pobreza e na prestação de serviços de saúde, no desenvolvimento rural e na atenção à cultura. O presidente da Assembleia da República felicitou também a criação de um novo prémio global para a música, com a primeira cerimónia de entrega marcada para Março de 2019, em Lisboa.

"Diálogo intercultural"

Por sua vez, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Fernando Medina, defendeu, na sua intervenção, que a comunidade ismaelita encontrou em Portugal um território para desenvolver a actividade religiosa devido ao diálogo intercultural e tolerância religiosa que marca a sociedade portuguesa.

“Uma democracia europeia, solidária e aberta ao mundo. Foi por isso com naturalidade que a comunidade ismaeli encontrou aqui um território para desenvolver a sua actividade religiosa. Foi também certamente por isso que vossa alteza escolheu o nosso país e a nossa cidade para sede da Fundação e da sua residência oficial”, disse, sublinhando que “o diálogo intercultural e a tolerância religiosa é uma marca distintiva da democracia portuguesa”, destacando que Portugal é “um Estado que protege e promove a liberdade religiosa”.

Medina recordou o antigo Presidente da República Mário Soares, que foi “um líder político laico”, e o papel dos antigos ministros da Justiça Salgado Zenha, Menéres Pimentel ou Vera Jardim, na “consolidação dessa democracia pluralista onde a liberdade religiosa é protegida”. E sustentou: “Foi por isso com naturalidade e com unanimidade que em 2015 a Assembleia da República ratificou o acordo entre a República Portuguesa e o Imamat Ismaili para o estabelecimento da Sede do Imamat Ismaili em Portugal.”

Destacando os 15 milhões de fiéis espalhados pelo mundo, o autarca referiu que a acção através da rede Aga Khan abrange áreas críticas para o desenvolvimento humano, como a saúde, educação, cultura, desenvolvimento rural e promoção do empreendedorismo. “Uma acção que mudou vidas humanas e que muda o mundo para melhor. Que o diga Moçambique, terra de onde vieram tantos membros da comunidade ismaelita portuguesa”, afirmou, realçando que Lisboa conhece “bem essa história de solidariedade e cooperação que é marca da Rede Aga Khan”.

O autarca falou do programa de desenvolvimento e educação na infância, que já chegou a quase 100 mil crianças em Lisboa, e o programa de apoio às comunidades urbanas que está em execução, “um programa de inclusão social e laboral dirigido aos mais desfavorecidos que já apoiou 150 mil pessoas em risco, 30% das quais imigrantes”. O presidente da Câmara da capital portuguesa mencionou ainda o programa de apoio aos idosos, numa parceria entre a Fundação Aga Khan e o Patriarcado de Lisboa.

Em Portugal desde sexta-feira, país onde de resto vai ter residência oficial, o príncipe iniciou a sua visita oficial na segunda-feira, tendo sido recebido com honras de chefe de Estado pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, a que se seguiu um encontro com o primeiro-ministro, António Costa, participando à noite num jantar em sua honra, oferecido pelo chefe de Estado, no Palácio de Queluz.

Hoje, na Assembleia da República também inaugura uma exposição. Aga Khan visita depois o local do futuro “Ismaili Imamat” (imamato ismaelita), a sede mundial dos ismaelitas, que esta semana estão em força em Portugal, uma presença estimada em 45 mil visitantes.

A chamada comunidade muçulmana “Shia Imami Ismaili”, um ramo dos muçulmanos xiitas, vive espalhada por cerca de 30 países, com as maiores comunidades na Europa a residirem na Grã-Bretanha, França e Portugal, onde vivem cerca de 7.000 membros. Aga Khan fundou uma das maiores redes privadas para o desenvolvimento do mundo, empregando 80.000 pessoas.

A AKDN, Aga Khan Development Network, é hoje um grupo de agências privadas internacionais que procuram melhorar as condições de pessoas em várias regiões do mundo, com um orçamento anual, para actividades sem fins lucrativos, que ronda os 600 milhões de euros. Números oficiais da AKDN indicam que a organização trabalha em 30 países, incluindo Portugal.

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