No distrito de Setúbal o PS em Movimento não se aproxima do bloco central

Na primeira sessão do ciclo de debates com militantes, aos quais o PS quer alargar o debate do Estado da Nação, ouviu-se dizer que o partido não pode ficar refém de ninguém, da "geringonça", mas nenhuma voz defendeu um caminho que não passasse pela esquerda.

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O ministro do Planeamento e Infra-estruturas, Pedro Marques, é também membro do secretariado nacional do PS Daniel Rocha

Para os socialistas do distrito de Setúbal, o futuro da governação do país é apenas uma questão de graduação de esquerda, com as soluções a variarem apenas entre o PS simples ou com mistura. Essa foi a ideia dominante do primeiro dos debates distritais que o PS está a fazer com os militantes, antes do debate parlamentar do Estado da Nação, a 13 de Julho. Anteontem à noite, a primeira sessão da iniciativa PS em Movimento deixou a sala de exposições do Fórum Romeu Correia, em Almada, Setúbal, “a abarrotar”, na expressão de Pedro Marques, o ministro destacado pelo partido para falar aos mais de cem militantes socialistas que marcaram presença no debate do "distrito mais vermelho do país".

Desde militantes de base, a presidentes de concelhias, históricos locais raramente vistos e dirigentes nacionais, como a secretária-geral adjunta Ana Catarina Mendes, foi grande a diversidade de participantes no encontro, mas nem tanto a de opiniões: a inclinação à esquerda ficou bem patente. “Aqui há um sentimento de esquerda mais vincado do que no resto do país”, traduziu um dirigente local ao PÚBLICO. E as intervenções, tanto as dos que estavam na mesa como as da assistência, nunca incluíram o bloco central nas hipóteses de solução governativa para o país.

Pedro Marques, o ministro do Planeamento e das Infra-estruturas que iniciou a carreira politica na região - foi autarca no Montijo -, mostrou-se tão feliz com a mobilização do “seu distrito” como tranquilo quanto à aprovação do Orçamento de Estado (OE) para 2019. O governante diz-se “absolutamente convencido” de que haverá entendimento entre o Governo do PS com BE, PCP e PEV sobre OE: “O país não nos perdoaria se não fosse assim”, justificou.

“O país não nos perdoaria se, num momento em que estamos com mais de 300 mil empregos criados e com a situação social estável, deitássemos tudo a perder ou criássemos um risco grande”, reforçou Pedro Marques, desdramatizando o “nervosismo” que reconhece existir nesta fase “relativamente à coesão” da "geringonça". “Isto é assim todos os anos. A caminho da discussão do Orçamento de Estado, todos sobem a parada um pouco, é normal”, relativiza. Garante que, “pelo lado do PS”, as negociações decorrerão de forma “franca” e acredita que “será assim também pelo lado dos partidos que têm formado a maioria parlamentar” de esquerda. Pedro Marques diz ter sobre esta matéria “absoluta segurança”.

Já quanto à margem das contas públicas para responder às exigências de PCP e BE, o ministro, que também é membro do secretariado nacional do PS, dramatiza um pouco mais e acena com os riscos externos - que “estão muito bons de ver” - que, em seu entender, podem colocar em causa a trajectória de consolidação orçamental.

“A atitude da presidência americana face ao comércio internacional é um risco enorme para a situação económica, que tem estado muito boa nos últimos anos, mas que se pode deteriorar. E o país não pode acrescentar riscos àqueles que já vêm do exterior”, adverte. E reafirma que o PS tem “vontade" de renovar a actual maioria de "bons resultados para os portugueses”.

Já o deputado Porfírio Silva esticou um pouco mais a corda, no capítulo da relação dos socialistas com os parceiros parlamentares, e defendeu que o PS “não pode ficar refém de ninguém”. Também membro do secretariado nacional, o parlamentar sublinhou que “sem PS não há Governo de esquerda em Portugal”, porque o partido é “o cimento, a base e o rumo desta orientação política”. Pelo que “quem atacar o PS está errado”.

“Desta vez fomos para o Governo e não nos esquecemos do partido”, referiu Porfírio Silva, numa expressão que caiu bem à assembleia de militantes que está a ser replicada noutros distritos, no âmbito do PS em Movimento que fará a última na terça-feira, dia 10, em Lisboa, com a presença do secretário-geral e primeiro-ministro António Costa.

Antes das intervenções dos dirigentes nacionais, a presidente da Câmara de Almada, Inês de Medeiros, que conquistou o município ao PCP nas últimas autárquicas, avisou que os socialistas têm de “ser muito hábeis” aqui. Neste concelho, que a autarca diz ser uma “terra socialista”, os parceiros da governação municipal não são os que sustentam o Governo na Assembleia da República. Inês de Medeiros fez um acordo com os dois vereadores do PSD para ter maioria no executivo municipal. Neste último ano da legislatura, Inês de Medeiros “não tem dúvidas” de que a “tensão, que era esperada, se veio agudizar com os resultados das últimas autárquicas e, talvez muito particularmente, com o resultado em Almada, que foi uma derrota simbólica para o PCP”.

Depois de os jornalistas serem convidados a sair, já no debate à porta fechada, o PÚBLICO apurou que militantes e dirigentes locais do PS rejubilaram com a perspectiva de construção do novo aeroporto do Montijo, que consideram o grande projecto dinamizador da península de Setúbal. Pediram mais rapidez na solução dos problemas de saúde no distrito de Setúbal, onde se aguarda a concretização de investimentos nas urgências dos hospitais do Barreiro, Litoral Alentejano e de S. Bernardo, além da construção de vários novos centros de saúde, e lamentaram que o Governo tivesse decretado o fim da austeridade cedo demais, dando margem a revendições a que agora não consegue responder.

Curiosamente, a educação não foi tema deste debate, apesar de ter sido inicialmente abordada por Pedro Marques. Apenas um militante evocou a greve dos professores, mas a assembleia não agarrou o tema. Foi da forma que o secretário de Estado da Educação, que também estava presente, não teve muito trabalho político. João Costa apareceu na sala apoiado numa canadiana e só a esse propósito, numa noite de debate sobre grandes opções governativas, se falou de muletas.