Rússia acusada de usar o Reino Unido como "lixeira de veneno"

Governo britânico vai consultar os seus aliados após um novo caso de envenenamento com Novichok na região de Salisbury. Moscovo diz que Londres está a prolongar um "espectáculo".

O casal envenenado no fim-de-semana esteve em Salisbury várias horas
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O casal envenenado no fim-de-semana esteve em Salisbury várias horas LUSA/RICK FINDLER
É o segundo caso de envenenamento em quatro meses
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É o segundo caso de envenenamento em quatro meses LUSA/RICK FINDLER
O Reino Unido acusa a Rússia pelo envenenamento dos Skripal
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O Reino Unido acusa a Rússia pelo envenenamento dos Skripal Reuters/HENRY NICHOLLS (Arquivo)

Quatro meses depois de um ex-espião russo e a sua filha terem sido envenenados na cidade britânica de Salisbury com o agente químico Novichok, desenvolvido na antiga União Soviética, outras duas pessoas foram hospitalizadas na região depois de terem sido expostas à mesma substância. A confirmação de que se trata de Novichok levou o Reino Unido a apontar o dedo à Rússia e a anunciar que vai discutir os próximos passos com os seus aliados, enquanto em Moscovo a notícia foi recebida com sarcasmo e acusações de manipulação.

O caso mais recente de envenenamento com Novichok aconteceu no último fim-de-semana e afectou um casal que vive em Amesbury, uma pequena localidade a cerca de 15 quilómetros de Salisbury, onde o antigo espião russo Sergei Skripal e a sua filha, Iulia, foram envenenados, no dia 4 de Março.

O governo britânico acusou a Rússia de ter orquestrado o envenenamento dos Skripal – num caso que originou a maior onda de expulsões de diplomatas desde a Guerra Fria – e agora volta a apontar o dedo a Moscovo.

Segundo o secretário de Estado britânico da Segurança, Ben Wallace, as vítimas mais recentes podem não ter sido atacadas directamente pela Rússia, mas é provável que tenham sofrido "as consequências do anterior ataque". Ou seja, o casal pode ter sido exposto a restos do Novichok usado no ataque contra os Skripal e que ficaram para trás em luvas e outro equipamento usado pelos atacantes.

"É completamente inaceitável que o nosso povo seja um alvo deliberado ou acidental, e que as nossas ruas, parques e cidades sejam uma lixeira de veneno", disse o secretário de Estado britânico.

Vítimas estiveram em Salisbury

Quando Dawn Surgess, de 44 anos, e Charlie Rowley, de 45, foram hospitalizados, no sábado, a polícia pensou que se tratava de um problema relacionado com consumo de heroína ou crack, mas os resultados das análises, anunciados na noite de quarta-feira, desfizeram as dúvidas.

"Podemos confirmar que o homem e a mulher foram expostos ao gás de nervos Novichok, que foi identificado como sendo o mesmo gás de nervos que contaminou Iulia e Sergei Skripal", disse o comissário Neil Basu, responsável pela unidade de combate ao terrorismo da polícia britânica, numa conferência de imprensa realizada na noite de quarta-feira.

Segundo os amigos do casal de Amesbury, a polícia acredita que o envenenamento aconteceu na tarde ou na noite de sexta-feira em Salisbury, perto do local onde Iulia e Sergei Skripal foram encontrados em estado crítico.

Na altura, o governo britânico ordenou uma operação de limpeza que custou vários milhões de euros, mas essa operação foi centrada nos locais por onde os Skripal passaram. Se a convicção da polícia britânica se vier a confirmar, Dawn Surgess e Charlie Rowley terão sido expostos ao Novichok no local que os autores do ataque contra os Skripal escolheram para se verem livres de roupa ou equipamento contaminados.

Esta quinta-feira, o ministro da Administração Interna, Sajid Javid, foi ao Parlamento britânico dar explicações sobre este segundo caso de envenenamento com Novichok na região de Salisbury. Javid reafirmou que se trata do gás de nervos Novichok, mas salientou que ainda não foi possível determinar se a substância que afectou o casal de Amesbury veio do mesmo lote usado contra os Skripal – algo que pode ser impossível de determinar.

Na sua passagem pelo Parlamento, o responsável pela Administração Interna pressionou a Rússia a "explicar o que aconteceu" e pediu a Moscovo que entre em contacto com Londres para ajudar as autoridades a perceberem como foi descartado o material usado pelas pessoas que atacaram os Skripal. Um pedido que tem apenas como objectivo reforçar a ideia da culpa da Rússia, já que o governo russo tem afirmado desde o primeiro momento que não está envolvido no envenenamento dos Skripal.

Tendo em conta os milhares de adeptos britânicos que estão na Rússia a acompanhar a selecção inglesa no Mundial de futebol – e o facto de que as equipas dos dois países poderem vir a enfrentar-se numa das meias-finais, na próxima quarta-feira –, Sajid Javid salientou que o Reino Unido "não tem qualquer problema com o povo russo, mas sim com o governo russo".

Rússia lembra oferta

A notícia deste segundo caso de envenenamento com Novichok na região britânica de Salisbury foi recebida na Rússia com comentários de repúdio contra sugestões de que Moscovo ordenou um ataque no passado fim-de-semana – ainda que o Reino Unido não tenha acusado a Rússia de ter lançado um segundo ataque, mas sim de ter deixado para trás vestígios do Novichok usado no ataque contra os Skripal.

Um desses comentários foi feito pela embaixada russa na Holanda, através do Twitter: "Quão burra pensam eles que é a Rússia para usar 'outra vez' o proclamado 'Novichok' a meio do Mundial de futebol da FIFA e depois de uma sessão especial da Conferência de Estados (convocada pelo Reino Unido) que deu à Organização para a Proibição das Armas Químicas poderes de responsabilização? O espectáculo continua?", questionou a embaixada, numa referência à decisão de Junho que deu à organização internacional o poder para identificar os responsáveis por ataques químicos.

O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, respondeu à proposta de colaboração da Rússia, feita pelo secretário de Estado da Segurança britânico, Ben Wallace, de forma seca: "Para minha vergonha, não sei quem é Ben Wallace. Mas o secretário sabe muito bem que a Rússia propôs uma investigação conjunta há muito tempo, e que infelizmente o lado britânico não tem mostrado nenhum interesse nessa proposta."

A proposta para uma investigação conjunta do Reino Unido e da Rússia, feita por Moscovo após o envenenamento dos Skripal, foi rejeitada em Abril pelos países-membros da Organização para a Proibição das Armas Químicas com 15 votos contra, seis a favor e 17 abstenções. Na altura, o Reino Unido disse que a proposta da Rússia é "perversa" e que tem como único objectivo "minar o trabalho independente e imparcial do regulador internacional sobre o uso de armas químicas".