Esta rádio quer que os seus ouvintes adormeçam

Lançada por um neozelandês inspirado pelas suas próprias insónias, a Sleep Radio é feita para pôr a dormir quem a ouve.

Sofá, sentado
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Martin Henrik

Para um sono descansado, os truques mais partilhados incluem chás calmantes, um ambiente escuro, meditação, afastar a luz do telemóvel e até um banho morno. Se mesmo assim tudo isso não resultar, talvez queira sintonizar na Sleep Radio, uma rádio cujo propósito é colocar a dormir quem sofre de insónias.

A ideia é de John Watson, de 62 anos, residente na comunidade de Te Aroha, na Nova Zelândia, depois de durante um período em que ele próprio sofreu de insónias, causadas por um ataque cardíaco que lhe trouxe um período de depressão.

“Nunca tinha tido problemas em adormecer e acabei por dar por mim deitado, acordado, a ver o sol a nascer e a sentir-me um zombie”, conta ao Guardian. Quando tentava ouvir rádio, "mesmo que estivesse a ouvir música relaxante e a tentar adormecer, de repente surgia um anúncio aos berros, a gritar para comprarmos alguma coisa", recorda John Watson. E isso inspirou-o a criar uma alternativa, sem cortes nem anúncios. 

PÚBLICO -
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O projecto foi lançado há quatro anos e está disponível online e numa aplicação para o telemóvel. Até agora, para além dos ouvintes neozelandeses, a ideia já conquistou ouvintes do Afeganistão, de Israel, da Rússia, da Hungria, de Taiwan e de Porto Rico. De acordo com o radialista, a estação é particularmente popular entre grávidas, centros de dia e spas.

A um jornal local, John Watson conta que recebe cerca de três álbuns por dia, mas acaba por seleccionar apenas 5% das faixas sugeridas para a Sleep Radio. Explica que nem todas as pessoas reagem bem à música ambiental e que a sua mulher é exemplo disso. "Acha a música demasiado aborrecida", conta.

Sem voz — sem piano, solos de harpas ou guitarras — e fortemente instrumentais, as melodias são pautadas por ritmos lentos e propõem-se mesmo a despertar o sono em quem as ouve. E por isso, ao contrário das outras rádios, a estação de John Watson procura o oposto à fidelização. O seu sucesso não depende do número de ouvintes que continua a ouvir a rádio, mas sim dos que a deixam de ouvir (assumindo que terá sido por conseguirem pôr fim à insónia).

De acordo com um estudo publicado no último ano pela revista Nature Genetics, são as mulheres quem mais sofre com insónias. Entre a amostra observada, 33% das mulheres sofriam de insónia, ao passo que a mesma condição foi reportada por 24% dos homens.

Numa entrevista ao PÚBLICO em 2017, Teresa Paiva, neurologista e especialista portuguesa em sono, lembrava dos perigos de uma noite mal dormida e das consequências a longo prazo da falta de descanso. De Alzheimer, cancro, diabetes, insónia, depressão, riscos cardiovasculares, enfartes, AVC, as consequências passam por acidentes de todo o tipo e resultam da diminuição dada à importância do sono.