Entrevista

“O sono pode ficar definitivamente escangalhado”

A ideia do sono bom mitificou-se ao ponto de se tornar uma fantasia para boa parte da população. Teresa Paiva, neurologista, defende uma revolução social que devolva ao sono a importância que ele tem. Para que a moda de falar do sono não seja apenas isso e leve a uma alteração de comportamentos.

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“Agora estamos com hábitos do tempo da agricultura: sempre disponíveis para trabalhar” Miguel Manso

Teresa Paiva, a mais conceituada especialista portuguesa em sono, alimenta as tartarugas que andam pelo jardim da sua casa-clínica, no bairro de Campolide, em Lisboa. Nada parece alterar o semblante calmo desta mulher, que conheceu o stress pós-traumático quando, em 2008, foi feita refém durante o assalto a um banco. Foi um dos acontecimentos da sua vida que lhe tiraram o sono, confessa a neurologista de 71 anos que continua a ver 15 doentes por dia, uma capacidade que, garante, lhe vem do facto de dormir bem e de fazer umas power naps sempre que se sente mais cansada. O seu objectivo actual é promover soluções públicas para os problemas privados de sono.

Nunca se falou tanto de sono como agora...
É verdade.

E fala-se da maneira correcta?
Às vezes sim; outras, não.

Porquê toda esta atenção, agora, sobre este tema?
Porque as pessoas de repente perceberam que o sono é importante para a sua sobrevivência, qualidade de vida e saúde. Depois, também se começou a perceber que o sono é importante do ponto de vista económico. Uma vez perguntaram ao maestro António Victorino d’Almeida como é que ele conseguia fazer tanta coisa, e ele respondeu que era porque dormia muito. Sabe-se que a falta de sono tem imensos custos económicos, pelos lapsos directos, de diminuição do desempenho, de maior tempo na execução de tarefas, decisões erradas. Tem também custos económicos pelas consequências na saúde. As pessoas têm maior propensão para estar de baixa. E podem estar ou não. Há o absentismo — quando estão de baixa — e o presentismo — quando a pessoa está presente, mas não está activa; está zombie. O presentismo é um problema que está a assumir uma dimensão importante. Outra coisa importante é que as doenças associadas à falta de dormir — Alzheimer, cancro, diabetes, insónia, depressão, riscos cardiovasculares, enfartes, AVC, acidentes de todo o tipo — provocam o aumento da mortalidade em pessoas em idade activa. Ou seja, começa-se a perceber que dormir pouco tem custos para a sociedade e, mais particularmente, para as empresas. Não é por acaso que as melhores empresas têm ambientes amigáveis para os seus funcionários. 

Além de médica, gere uma empresa, a sua clínica...
Sim. Esta é uma microempresa, mas não quero nenhuma das minhas funcionárias a responder torto aos doentes porque dormiu mal, ou a enganar-se nas marcações por estar a dormir mal, a trabalhar muito, ou porque dormiu pouco ou tem muito stress

Trabalhar oito horas, dormir oito horas, deixar oito horas para o lazer. Como é que se chegou a este ciclo? Continua a fazer sentido?
O sistema do três vezes oito foi criado pelos metalúrgicos americanos, que disseram que precisavam de oito horas para dormir. Na Idade Média trabalhava-se de sol a sol, e quando vem a Revolução Industrial deixa-se de trabalhar de sol a sol, mas continua-se a trabalhar muito. Por isso vem a história das oito horas: oito horas para dormir, oito horas para trabalhar e oito horas para fazer o que se quer. Agora estamos com hábitos do tempo da agricultura: sempre disponíveis para trabalhar, só que em constante stress, um agricultor não estava em constante stress. Criou-se a ideia de que uma pessoa tem de estar sempre disponível, sempre on, sempre online, sempre activa, e, se não está, sente culpa. Além disso, fazem-se grandes exigências aos pais. Os pais têm de ser óptimos para os filhos, o que dá mais uma vez imensa culpa. E depois com essa culpabilidade cometem imensos erros, porque toda a pessoa culpabilizada faz mais erros... O que é que isto tem que ver com o sono? Tudo. Complicamos muito a nossa vida.

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“A falta de sono tem imensos custos económicos” Miguel Manso

Saem cada vez mais estudos acerca do sono, publicam-se livros, escrevem-se artigos nos jornais...
Porque o sono é sexy...

É?
Sim. A vários níveis. Durante o sono são produzidas as hormonas sexuais e as hormonas anabolizantes, tanto no homem como na mulher. Muitas das actividades sexuais estão relacionadas com o sono. Não é independente. O sono é sexy, porque as pessoas perderam o prazer do sono.

Sonham com o sono?
Não sei se sonham. Muitas pessoas com insónia deixam de sonhar. Actualmente, o sono é como os anúncios de televisão e a postura que temos para com o sexo. Nos anúncios quase tudo é erotizado, e a vida das pessoas e muito pouco erotizada... porque não têm tempo, estão cansadas, é o que se ouve todos os dias. O erotismo é mais uma coisa imaginária. E o bom sono tornou-se também um desejo imaginário. Em vez de o praticarem quotidianamente e usufruírem de uma enorme riqueza a que têm acesso, as pessoas não o fazem; imaginam que devem dormir de determinada maneira e fazem umas concepções muito erradas em relação ao seu próprio sono e esforçam-se para dormir.

Mas há um ideal de sono. Mitificou-se o acto de dormir?
Sim, há a miragem do bom sono. E associada a muitas convicções erradas.

Por exemplo?
Achar que têm de dormir oito horas. Não é verdade. Há pessoas que precisam de dormir mais e outras menos. É uma média. E não precisamos de dormir todos os dias oito horas, outra convicção erradíssima. Ouvimos muitas vezes: “Se não durmo oito horas, não fico bem.” Quer dizer... somos seres feitos para viver e sobreviver na natureza e, se acontecer qualquer coisa — a natureza é improvável —, temos de estar acordados. O nosso corpo está feito para isso, é adaptável. Temos uma enorme adaptabilidade, que é evidente. Há pessoas que vivem a não sei quantos mil metros de altitude, outras ao nível do mar, umas no Pólo Norte e outras no Equador. Isto torna evidente a adaptabilidade da espécie humana.
Portanto, cada um dorme aquilo de que precisa, e a maior parte das pessoas precisa de sete ou oito horas, outras de nove e outras de um bocadinho menos. E o sono varia de noite para noite. Não temos todas as noites um sono igual, nem os nossos dias são todos iguais. Outra crença errada é a de que temos de dormir tudo seguido. O homem paleolítico tinha de estar sempre alerta, vivia nas cavernas e tinha de dormir como os gatos ou os cães, acordava várias vezes, porque, se não acordasse, era morto ou comido. Um bebé recém-nascido ainda tem o chamado "sono polifásico". Só passámos a ter um sono bifásico quando nos tornámos agricultores. Com a agricultura era possível ter um sono que existia à noite e no período da sesta. Com a dita Revolução Industrial e com a iluminação das ruas, passámos a ter um sono monofásico. Isto é muito recente, século XVIII, XIX.
Outra coisa: antigamente havia o que se chamava "primeiro sono" e "segundo sono". Há citações disso em muitas obras literárias: “Vou dormir o primeiro sono.” As pessoas tinham um intervalo que era variável entre o primeiro e o segundo sono, e, no total, ocupavam mais tempo com o sono. Mas não é preciso dormir seguido. É outro mito. E outro mito ainda é o de que não podemos acordar durante o sono. Ora, se não acordássemos, já tínhamos sido comidos por um leão, um tigre, um bicho qualquer há muitos, muitos anos. Agora, mesmo sem leões, continuamos a ter hábitos que garantem a nossa sobrevivência. Se houver um fogo, uma inundação, uma catástrofe, é evidente que acordamos. O corpo está feito para isso, para acordar e ficar activo. Depois, muita gente convence-se que só dorme com remédios. Estas são talvez as crenças mais erradas. Há outra: as pessoas que fazem tudo para dormir bem e quanto mais fazem menos dormem.

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“O sono é sexy porque as pessoas perderam o prazer do sono” Miguel Manso

E o que é fazer tudo para dormir bem?
Seguem as regras todas recomendadas por todos os estudos. E depois vivem a um ritmo sem fazer crítica sobre isso. Põem-se na cama a tentar dormir, fazem imensas tentativas para dormir. Há duas razões para que isso não corra bem. Uma é que o sono está tão bem organizado que não precisa que a gente o chateie para nada. Basta deixá-lo ir. Em princípio, não é preciso coisa nenhuma, porque o sono vem.

Não há técnicas?
Há técnicas e têm de as aplicar aos doentes com insónia. Mas, por exemplo, o mais natural é que uma criança durma bem. Mas agora, quando se vê um bebé a dormir bem, acha-se que está doente. É espantoso. Se ele passar a vida a dormir, deixem-no dormir. O sono está bem organizado. Somos feitos para dormir e para acordar e a máquina funciona muito bem, desde que a gente não a chateie. As pessoas perfeccionistas têm tendência para querer controlar imensas coisas nas suas vidas e querem controlar o sono, ter o botão que liga e desliga como se fosse um candeeiro. O sono é tido como um objecto que se controla e não como parte integrante do nosso corpo. 

Falta respeito pela máquina?
Falta e fazemos-lhe violências grandes. Temos de ouvir o corpo. Há sempre a convicção de que é preciso dormir pouco. As coisas que ouvimos sobre crianças são de pôr os cabelos em pé. Ultrapassam as coordenadas do que se chama "o bom senso". E os riscos são enormes, para o resto da vida. O sono é uma função que pode ficar definitivamente escangalhada. Na maior parte dos casos tem arranjo, mas pode ficar para sempre a funcionar pior. Depois de amanhã, vou fazer uma conferência sobre o sono das figuras públicas e a grande mensagem é que os grandes génios dos últimos séculos dormiam muito. Em todas as áreas de trabalho. As pessoas não têm essa noção. O Ronaldo dorme dez horas. Não são pessoas com baixo sucesso nas suas carreiras.

E o Presidente da República actual dorme quatro, facto que se mitificou...
Não falo sobre o sono do Presidente da República. Há sempre pessoas que são diferentes. No sono também há a curva de Gauss [a da distribuição normal]. [Temos] a maioria que dorme sete, oito horas, uns poucos que dormem mais e uns poucos ainda que dormem menos. Um exemplo dessas excepções com consequências negativas: Trump. Tornou-se o Presidente dos Estados Unidos, a chacota do mundo. Diz que dorme quatro horas. Veja os erros nas funções executivas, as frases que lhe saem da boca para fora sem pensar, os imensos conflitos que arranja, as coisas estranhas que desencadeia. E todos os problemas verdadeiramente sérios que queria resolver... nenhum é resolvido. Era o muro, o Obamacare e a Coreia do Norte. Ele não resolve nem atenua. Acho que ele é o protótipo de uma pessoa com privação de sono que toma decisões erradas, e que mente e não tem umas boas funções executivas. É o exemplo de uma pessoa que está privada de sono e não funciona bem. Não podemos pôr a excepção como norma e querer imitar a excepção. Isso estraga-nos a vida. Há pessoas, excepções, que dormem pouco. Jesus Cristo era uma pessoa excepcional.

Terá dormido bem?
Esse parece que dormia bem. Já procurei e não há referências a insónias ou mau sono. Havia aqueles dias de meditação, mas foram coisas esporádicas. Maomé dormia bem.

Como começou a interessar-se pelo sono?
Eu trabalhava acerca de dores de cabeça e criei uma consulta de cefaleias no Hospital de Santa Maria. Numa altura quis fazer uma monitorização de comas. Havia um carrinho mais ou menos do tamanho desta mesa com toda a parafernália que era preciso levar cada vez que era preciso monitorizar comas. Na altura não havia microchips. Cada vez que carregava aquilo, tinha crises de ciática. Percebi que tinha de mudar. E o sistema de monitorização dos comas em termos neurofisiológicos era exactamente igual para o sono, e passei a fazer tudo sobre o sono. Foi uma paixão.

Dorme bem?
Eu durmo muito bem. Nunca tomei um remédio para dormir e já tive muitas insónias devido a doenças graves e tive várias alterações na vida que alteram o sono, tive três filhas. 

A insónia faz parte da vida?
Em determinadas alturas, faz. Há pessoas que nunca tiveram. O António Barreto diz que nunca teve uma insónia, o que é excelente.

Qual é a sua higiene do sono?
Tenho horas mais ou menos certas para dormir e para acordar. Sou um bocadinho noctívaga e tenho de ter muito cuidado para não me deitar tarde. Tenho um cuidado objectivo. Actualmente, a coisa corre bem. Deito-me entre a meia-noite, meia-noite e meia. Às vezes, à uma. Quando estou muito cansada a trabalhar aqui, durmo uma sesta de 20 minutos e fico porreira. São as power naps. Durmo sete, oito horas, o que com a minha idade significa dormir muito bem. E ao fim-de-semana, eventualmente, se estou cansada, durmo mais. 

Ao longo destes anos em que foi estudando o sono, as queixas dos doentes foram-se alterando?
Sim, a princípio eram sobretudo apneias. Depois, começaram a aparecer as insónias. O que vejo mais em todas as idades são insónias. Em crianças, adolescentes, adultos, idosos. Há ainda muitas queixas de pernas inquietas, as coisas bizarras que acontecem durante a noite e os atrasos de fase do sono, ou seja, aquelas pessoas que se deitam às quatro, cinco, seis da manhã. Vejo praticamente tudo, e pessoas do país todo. 

Mas não havia queixas por elas não existirem, ou existiam e simplesmente não eram consideradas?
Existiam, mas as pessoas não iam tanto ao médico. Com as insónias iam aos psiquiatras. As pernas inquietas, por exemplo, ainda agora muitas vezes não são referidas. Somos nós que temos de as retirar da história. Acham que são assim uns frenesins que têm nas pernas, não se tratam. E as parassónias do sono foram durante muito tempo tomadas comicamente. Mas não são para brincar. Também há muito mais conhecimentos. Antes, os doentes com apneia chegavam em estados muito graves. As pessoas vão agora muito mais cedo ao médico. Sou neurologista e levei algum tempo a aprender a tratar as insónias. Acho que agora já sei. A insónia é uma doença muito complicada e muitas vezes tratada de maneira errada, mal diagnosticada, mal apreciada. E é uma doença orgânica, uma doença do corpo.

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“[Trump] é o exemplo de uma pessoa que está privada de sono e não funciona bem” Miguel Manso

Como se distingue alguém que dorme mal de quem tem insónia?
A insónia considera-se crónica quando ocorre mais de três vezes por semana e dura mais de três meses. E tem várias formas: sono não reparador, dificuldade em adormecer, os tais acordar a meio da noite ou acordar cedo de mais. E pode estar ligada a muitas coisas. Há muitos subtipos de insónias. Alguém disse que não há duas insónias iguais. É verdade, o tratamento tem de ser personalizado. Chega muita gente que diz: “Ah, eu durmo mal, o que acha que tome?” É muito mais complicado do que o comprimido. Tem de se ver a história pessoal, familiar, profissional. Como foi o passado, como é o presente, quais os hábitos e a história do sono. Actualmente, só faço as perguntas do sono no fim da entrevista. E há um erro clássico: se for a um médico dizer que dorme mal, a probabilidade de ele lhe dar uma coisa para dormir é grande. Tratar problemas de sono é relativamente fácil; tratar uma insónia é muito complicado. 

Voltamos sempre à informação sobre o sono. Recentemente, Arianna Huffington, ex-
-directora do Huffington Post
, defendeu uma revolução no sono, num livro onde explica como foi forçada a alterar a sua rotina. Leu o livro?
Sim, o livro é muito interessante e ela tem a capacidade de fazer um marketing enorme. O livro é altamente meritório e pode ser que cause efeito.

A ideia de revolução que ela defende faz sentido para si?
Sim, porque até aqui fez-se a involução do sono. Meteram o sono no caixote do lixo. Agora, em Portugal, já há a especialidade da Medicina do Sono, há títulos formais de especialidade, de competência. Nada disto havia há 30 anos. A partir de agora é importante envolver a sociedade civil nos problemas do sono. Este é o meu objectivo actual.

Como é que isso se faz?
Espero que os jornalistas ajudem. Mas vou-lhe dar um exemplo simples: as crianças deviam ir para a escola mais tarde e deviam sair mais cedo.

Isso implica uma revolução no trabalho...
Exactamente. Os pais não podem entrar à hora que entram nem sair à hora que saem. Tem de haver mudanças sociais, que não podem recair sobre a mulher. Desculpe lá, mas tudo recai sempre sobre a mulher. Não pode. Agora há o aleitamento até aos não sei quantos meses e ninguém pode questionar. Eu questiono. É uma violência contra a mãe, porque se lhe põe culpa de não amamentar a criança. E mais: não há nenhuma mulher profissional que consiga estar a pensar na mama e no trabalho. É como dizer-me a mim, que trabalho aqui o dia inteiro a ver não sei quantos doentes, que quando chegar a casa vou limpar o pó. Deus me livre! Não aguento. Não é que não tenha limpado o pó e sido doméstica durante muitos anos, muitas vezes, sendo também médica, mas agora não aguento. Há limites. Se a mulher não entra no mercado de trabalho a par dos homens, fica sempre numa posição minoritária. Defendo as mulheres. Elas são agredidas que chegue, não venham com a culpa sobre a mãe. 

As mulheres têm mais insónias do que os homens?
Têm. A prevalência na mulher é três ou quatro vezes maior. É na mulher e nos idosos. É uma mistura complexa entre questões biológicas e sociais. Há diferenças marcadíssimas conforme a evolução social dos países, quando as diferenças entre sexos desaparecem. Há as mulheres que têm insónias na menstruação, na gravidez, e as insónias relacionadas com assuntos hormonais. Recai ainda sobre as mulheres uma enorme carga.

Quais foram os problemas mais estranhos relacionados com o sono que já lhe apareceram?
Uma doente acordava a gritar e metia-se na primeira cama que encontrasse. Enquanto era a cama dos pais, tudo bem, quando passou para a universidade e foi estudar fora, passou a ser um bocado chato ir para a cama da primeira pessoa que estivesse por perto. Consultou muita gente, foi à bruxa e tinha uma epilepsia. Foi tratada e ficou boa. Eram crises epilépticas. Há coisas muito bizarras. Outra pessoa foi meu doente durante muito tempo. Vi-o no hospital. Ele entrou, sentou-se à minha frente e diz-me: “Só para lhe dizer que detesto médicos, só me trataram mal.” A história dele era horrível. Ele tinha crostas entre as mãos e nos cotovelos [por causa] de coisas que lhe aconteciam durante o sono. Já tinha ido a muitos médicos, estava sem diagnóstico. Fez o exame de monitorização de sono. Tinha de facto crises epilépticas nocturnas e só teve mais uma crise a partir de então. Ele batia na parede com tal violência... E de manhã via aquilo assim. Há histórias muito bizarras, mas que não posso contar. 

A saúde do sono também é um negócio?
É. As pessoas procuram a saúde eterna, a felicidade, e há receitas à medida de toda a gente. E eu pergunto: então se faz isso tão bem feito, porque é que não dorme? É preciso mudar hábitos de vida social. Os portugueses fazem coisas muito diferentes dos outros. Não temos essa noção. Levantamo-nos muito cedo e deitamo-nos muito tarde, temos muitas horas de dia, de Inverno e de Verão. Saem de casa às escuras e entram em casa às escuras, trabalham em ambientes artificiais, não apanham luz do sol.

O sol faz bem ao sono?
O sol de manhã faz muito bem ao sono.

Como?
Somos animais altamente adaptados ao planeta Terra e temos nos nossos olhos umas células particularmente sensíveis ao espectro azul da luz. E o espectro do azul da luz é o azul do amanhecer. A luz do princípio da manhã é carregada do espectro do azul, e a do fim do dia, do espectro do vermelho. Estamos feitos para apanhar a luz azul de manhã, isso estimula-nos e põe-nos acordados. A luz do entardecer dá-nos calma e tranquilidade para dormir. É o acordar e estimular a vigília e a tranquilidade para ir dormir. O que acontece agora é que com os LED [díodos emissores de luz] e os computadores estamos a apanhar luz azul à hora do nascer do sol e, depois disso, à noite. Não dormimos.

Nada como ler em papel?
Sim, no sentido da luz.

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“Tratar problemas de sono é fácil; tratar uma insónia é muito complicado” Miguel Manso