Editorial

O passo em frente de Rui Rio

Rui Rio começou a fazer propostas e trouxe algumas contas feitas. A partir daqui terá de definir prioridades. Tem um custo. Terá a coragem?

Rui Rio surpreendeu-nos: sem pré-anúncio, apresentou-nos 100 páginas com um diagnóstico sobre a baixa natalidade, juntando-lhe meia dúzia de propostas para incentivar os portugueses a ter mais filhos.

O documento merece atenção: porque este é um problema muitas vezes identificado; porque só agora, ultrapassado o pior momento da crise, começamos a ter condições de discutir o nosso futuro e as políticas para sair dela.

O documento merece atenção, também, porque nele encontramos ideias para discutir: se devemos garantir creche gratuita aos nossos filhos a partir dos seis meses de idade, se devemos lançar um “cheque-bebé” (em várias tranches, até aos 18 anos), uma ideia que Fernando Medina teve, mas que a crise derrubou. Como numa matrioska, das dúvidas nascem outras perguntas: esse novo apoio deve substituir o abono de família? Deve ser igual para todos, ricos ou pobres? A esta medida deve ser aplicada a condição de recursos?

O mais interessante é que o documento abre uma nova fase deste “novo” PSD. Desde que foi eleito, Rui Rio conseguiu uma vitória: fechou dois acordos com António Costa, o suficiente para agitar a maioria de esquerda e reposicionar o partido no centro da vida política. A estratégia teve um proveito, mas tinha um problema: é que se esgotava em si mesma.

Precisamente para dar um passo em frente, o líder tinha de colocar o seu PSD como um partido construtivo, com ideias “novas” para o país debater. Chegou tarde, mas foi isso que Rui Rio quis mostrar esta semana.

Se este foi um primeiro passo, agora é preciso fazer um caminho — porque Rui Rio começou a fazer propostas e trouxe algumas contas feitas. A partir daqui terá de apresentar outras, com a dificuldade acrescida de definir as suas prioridades — porque o argumento de que o país terá 500 milhões por ano para gastar não pode ser usado muitas vezes. 

Para o líder do PSD, o desafio é difícil: como o Governo vai sentindo na pele, não faltam problemas para o país resolver, para cada problema é preciso uns milhões e não é possível resolvê-los todos ao mesmo tempo. O mais difícil é escolher isso: o que deixar para mais tarde.

Mas, se Rui Rio quer apresentar-se como alternativa, esse é o caminho a fazer até à campanha. O país ganharia, porque aí teria um termo de comparação. É que o PS promete repetir o que fez nas legislativas de 2015, mostrando o seu quadro macroeconómico e o impacto de cada medida. Se o PSD fizer o mesmo, poderemos comparar melhor o programa comum e as diferentes opções. Esta estratégia tem um custo. Terá o líder a coragem?