Ligação entre Manuel Vicente e firma que pagou a arguido foi feita por pesquisa no Google

Inspector da Polícia Judiciária está a ser ouvido no julgamento da Operação Fizz

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Orlando Figueira Rui Gaudencio

A ligação feita pelos investigadores da Polícia Judiciária entre o ex-vice-presidente de Angola Manuel Vicente e a firma angolana que pagou ao procurador Orlando Figueira foi feita através de uma pesquisa no motor de busca Google, admitiu nesta segunda-feira em tribunal um inspector durante o julgamento da Operação Fizz, em Lisboa.

O processo teve origem numa denúncia anónima, segundo a qual o procurador Orlando Figueira, do Departamento Central de Investigação e Acção Penal, estava a receber luvas para arquivar processos em que eram visadas altas figuras daquele país.

Quando deu início à investigação, a Judiciária começou por vasculhar as contas bancárias de Orlando Figueira. Primeiro sem sucesso, explicou o inspector Bruno Gomes. Mas depois identificaram uma conta em que, de facto, tinham sido depositadas verbas incompatíveis com o vencimento do magistrado.

Verbas que Orlando Figueira haveria de explicar mais tarde, quando se tornou arguido neste caso, e que estavam relacionadas com uma promessa de emprego que lhe tinha sido feita para ir trabalhar para Angola. E também com um empréstimo bancário que lhe tinha sido concedido porque se estava a divorciar e precisava do dinheiro para pagar partilhas à ex-mulher.

O procurador sempre negou que a Primagest, que lhe prometeu emprego em Luanda e lhe pagou salários antecipados, tivesse alguma ligação ao vice-presidente angolano Manuel Vicente. E ainda hoje isso não está provado. Porém, é nesse pressuposto que se baseia a acusação deduzida pelo Ministério Público, que imputa a Orlando Figueira crimes de corrupção, branqueamento de capitais e falsificação de documento.

“A informação de que a Primagest estava ligada à petrolífera Sonangol [liderada por Manuel Vicente] rodava por tudo o que era internet”, descreveu Bruno Gomes. “Ligámos as duas empresas através de fontes abertas, pesquisando no Google”.

Para o inspector, o facto de a Primagest ter, alegadamente, funcionado como uma empresa- veículo, ou seja, ter sido alegadamente instrumentalizada para o pagamento de luvas, faz com que a composição dos seus órgãos sociais não se revele crucial. “Mas a relação entre Manuel Vicente e a Primagest é o nó górdio de todo este processo”, protestou o advogado do ex-vice-presidente angolano, Rui Patrício. Ao que o inspector da Judiciária retorquiu que é comum em casos deste género não haver relação formal entre as empresas instrumentalizadas e quem as instrumentaliza.

O arguido Orlando Figueira havia de mostrar a sua indignação mais tarde, já à porta do tribunal do Campus da Justiça, por ter estado privado de liberdade durante tanto tempo, primeiro na cadeia de Évora e depois em casa : “É grave que se prenda alguém durante dois anos com base numa investigação feita em fontes abertas.”