Entrevista

“Estou disponível, se não tiver de renegar as minhas convicções”

Assis não exclui ficar no Parlamento Europeu, voltar à Assembleia ou integrar um Governo de Costa, mas alerta que se se “projectar esta solução governativa no futuro”, terá de se “afastar de tudo”.

Joseph Abboud, Terno, Tuxedo
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Rui Gaudêncio

Eurodeputado desvaloriza o facto da moção de Costa não falar da Europa e garante: “Ele produziu há dias no Parlamento Europeu, a par de Emmanuel Macron, o discurso mais europeísta que eu ouvi nestes quatro anos.

Estranha que a moção de António Costa não fale de Europa?
Não tenho noção se não diz. Mas mesmo que ele nada dissesse, nenhuma página em branco apaga o que ele tem feito e tem dito sobre a Europa. Ele produziu há dias no Parlamento Europeu (PE), a par de Emmanuel Macron, o discurso mais europeísta que eu ouvi nestes quatro anos no Parlamento Europeu. De tal maneira que ele foi aplaudido com muita convicção por exemplo pelos federalitas europeus, pelos deputados mais pró-europeistas dos liberais e do PPE. Nos dias a seguir vários deputados liberais e do PPE me vinham perguntar: mas então este primeiro-ministro era o tal que nos andavam a meter medo e a dizer que ele dirigia um governo proto-comunista?

Esse protagonismo e essa adesão de António Costa à UE, que peso pode vir a adquirir Portugal nas negociações para a reforma da UE?
Pode ter um peso significativo. Ele é, neste momento, a voz mais relevante da esquerda democrática europeia, distingue-se claramente dos outros pela sua qualidade, densidade e inteligência. É um homem respeitado, com capacidade para falar com os vários sectores políticos, com os liberais e os conservadores que têm a maioria dos governos na Europa.

Tem sido noticiado que quer deixar a vida política e o Parlamento Europeu. É verdade?
Não. Eu fiz uma afirmação que foi interpretada por excesso. Na última reunião na Assembleia Municipal do Porto, no ano passado, num contexto em que nos estávamos a despedir, disse que era pela minha parte a última função autárquica que desempenhava. E disse: nem excluo a possibilidade de me afastar a outros níveis, nomeadamente do PE. Isso foi visto como como uma declaração de que eu tinha uma vontade absoluta de me afastar da vida política. Não tenho, nem deixo de ter.

Está disponível para voltar a liderar a lista do PS às europeias?
Estou disponível para participar na vida do PS desde que, para isso, não tenha de renegar as minhas convicções mais profundas, dar o dito por não dito, pôr em causa aquilo que eu penso de mais profundo. Imaginemos que o PS, de facto, enfatiza nos próximos tempos a necessidade de projectar esta solução governativa no futuro. Nesse caso, é evidente que eu tenho de me afastar de tudo. É óbvio que não vou andar a fazer uma campanha eleitoral a dizer “votem no PS” sabendo de antemão que o PS tem uma linha de orientação que não é aquela que eu preconizo.

E se até às europeias ficar a página em branco?
Se eu não tiver de renunciar a nada e puder afirmar profundamente as minhas posições, no respeito pelas posições do PS, eu estarei disponível para participar na vida política. Agora em relação ao PE não tenho nenhuma decisão tomada.

No futuro, saindo do PE, admite continuar a fazer política na Assembleia da República? Integrar um Governo do PS?
Não excluo nem uma coisa nem a outra, não devo excluí-la.

Incluindo participar num Governo de António Costa?
Dependendo das circunstâncias. Para mim, fazer parte do Governo ou não nunca foi uma questão essencial. Não estou nada obcecado por isso. Quanto ao dr. António Costa , não tenho nenhum contencioso pessoal com ele, nem ele me deu provas de ter alguma vez entendido essa divergência [em relação aos entendimentos com o PCP e o BE] como um contencioso pessoal.