Trump avisa Kim que pode acabar como Khadafi

O Presidente dos EUA baralhou-se com uma pergunta sobre "o modelo líbio" e confundiu um acordo diplomático para pôr fim a um programa nuclear com uma intervenção da NATO que acabou por derrubar um regime.

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Trump respondeu a perguntas de jornalistas na Casa Branca Andrew Harrer/EPA
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Os sorrisos de Pompeu e Kim na visita do americano a Pyongyang Reuters

Dois dias depois de a Coreia do Norte ter indicado a possibilidade de desistir da cimeira com os Estados Unidos se Donald Trump insistir numa “desnuclearização unilateral”, o Presidente dos EUA ameaçou Kim Jong-un com a possibilidade de uma intervenção militar, como aquela em que EUA e europeus ajudaram a oposição líbia a derrubar o seu regime – Muammar Kadhafi acabou morto às mãos dos rebeldes que o capturaram.

Ora a maioria dos analistas, estudiosos do regime norte-coreano, interpretara as palavras de Kim como um teste ao próprio Trump e uma necessidade interna. O líder da ditadura não pode parecer fraco no próprio país (face aos militares e à própria população), disposto a tudo para assinar a paz com a Coreia do Sul e acabar de vez com as ameaças de um ataque americano.

Kim já fez o gesto histórico de passar a fronteira para a cimeira de Abril com o Presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in. Desde então vários responsáveis de ambos os países, oficialmente ainda em guerra, têm-se encontrado e negociado formas de aproximação e melhoria nas relações.

Ao mesmo tempo, foi marcada a cimeira com os EUA, prevista para 12 de Junho em Singapura. O secretário de Estado americano, Mike Pompeo, até já esteve com Kim em Pyongyang, obtendo a libertação de três prisioneiros.

"A Coreia do Norte quer que o mundo saiba que vai chegar à mesa de negociações numa posição de força. Pode estar a sentir que é a única a fazer concessões", disse há dias a correspondente da BBC em Seul, Laura Bicker. A jornalista acredita que o que Kim fez foi “levantar dúvidas” – não indicar que está mesmo a considerar cancelar a cimeira.

O importante seria então que do outro lado não houvesse ameaças ou avisos explosivos e tudo deveria correr bem. Ora foi exactamente o que Trump não conseguiu fazer. Questionado na Casa Branca sobre a sugestão recente do seu conselheiro para a Segurança Nacional, John Bolton, que o “modelo líbio” pode ser replicado na Coreia do Norte, o Presidente americano disparou: “O modelo, se olharmos para o modelo com Kadhafi, foi uma dizimação total. Nós fomos lá acabar com ele. Agora poderia avançar-se para esse modelo se não alcançarmos um acordo, é o mais provável. Mas se fizermos um acordo, penso que Kim Jong-un ficará muito, muito feliz”.

O grande problema destas declarações é que se referem à missão da NATO em apoio à oposição armada, e na sequência da vaga de insurreições em países árabes, em 2011. Quando Bolton falou do “modelo líbio” estava, pelo contrário, a referir-se ao acordo assinado por Khadafi em 2003, quando este aceitou desistir do seu muito inicial programa de armas nucleares, incluindo o envio das suas centrifugadoras (as máquinas que enriquecem urânio) para os EUA.

O ano desse acordo foi o mesmo em que Washington invadiu o Iraque a pretexto de inexistentes armas de destruição maciça. A lição que líderes como os da Coreia do Norte ou do Irão tiraram dessa invasão e da intervenção de 2011 é que quem desiste de desenvolver as mais poderosas das armas se arrisca a ser derrubado. É precisamente com esse pretexto que Pyongyang tem resistido a abandonar os seus esforços para desenvolver armas atómicas.