Corais, lapas e amêijoas também produzem ómega-3

Estudo com a participação de investigadores portugueses demonstra, pela primeira vez, que há vários animais marinhos que são capazes de produzir ómega-3, ácidos gordos essenciais para a saúde humana.

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Enric Vives-Rubio /Arquivo

Afinal, a produção de ómega-3 nos ecossistemas do planeta Terra não é uma competência exclusiva dos micróbios marinhos, como as bactérias e microalgas fotossintéticas. Há espécies animais de origem marinha como os corais, moluscos ou poliquetas (vermes aquáticos), entre outros, que também conseguem produzir estes ácidos gordos essenciais para a saúde humana. Um estudo publicado por uma equipa internacional, com a participação de investigadores do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (Ciimar) da Universidade do Porto, na revista Science Advances encontrou em vários animais marinhos a “maquinaria genética” necessária para a produção própria de ómega-3.

Não será novidade para muita gente se dissermos que, por exemplo, as amêijoas e as lapas são muito ricas em ómega-3. Assim como o salmão, o atum ou a sardinha. Porém, até agora, pensava-se que as amêijoas e lapas iam buscar este precioso ácido gordo ao mesmo produtor primário de ómega-3 (bactérias e microalgas) que “alimenta” e enriquece o salmão, a sardinha ou o atum.

Agora, uma equipa de cientistas separou as águas entre os diferentes produtos ricos em ómega-3. Encontraram nas amêijoas, lapas, corais e outras espécies marinhas as enzimas capazes de “fabricar” este ácido gordo essencial para a saúde humana, fazendo com que conquistem o estatuto de produtores primários de ómega-3. “É uma alteração fundamental do paradigma que revolucionará a compreensão sobre a produção de ómega-3 à escala global”, anuncia Filipe Castro, investigador do Ciimar e um dos autores no artigo, no comunicado da instituição sobre este trabalho. Na base desta descoberta está um exaustivo estudo genético.

Os cientistas recorreram a uma base de dados de livre acesso (GenBank), fizeram uma análise de milhares genomas de várias espécies animais e identificaram genes envolvidos na biossíntese de ómega-3 que são tipicamente encontrados em microorganismos. “O que fizemos foi começar com uma análise da informação genética de organismos que envolviam espécies animais e outros microorganismos. Até porque não era suposto que estas enzimas que encontrámos existissem em animais”, esclarece Filipe Castro. O consórcio internacional juntou os investigadores do Ciimar a equipas de cientistas nas universidades de Stirling e St. Andrews (na Escócia), do Conselho Superior de Investigação Científica de Espanha e da Universidade de Deakin (Austrália) e do Instituto Australiano de Ciências Marinhas.

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David Ferrier

Depois de uma primeira análise geral, a atenção focou-se nalguns animais sobre os quais existe actualmente mais informação genética, desde os seus genomas até dados específicos sobre os genes expressos (os transcritomas). E, pela primeira vez, identificou-se a presença dos genes e enzimas que garantem uma capacidade endógena de produção de ácidos gordos polinsaturados, como os ómega-3, numa grande diversidade de espécies animais que vão desde os corais a crustáceos, passando pelos moluscos. “Dada a relevância ecológica e ocorrência significativa destas espécies animais na biomassa dos ecossistemas aquáticos – dos recifes de coral às fontes hidrotermais –, a sua contribuição para a produção global de ómega-3 será provavelmente muito relevante”, refere o investigador. 

Um "elefante no meio da sala"

“Os ómega-3 – e sobretudo os ómega-3 de cadeia longa e muito longa e, mais precisamente, os mais famosos conhecidos como DHA (ácido docosa-hexaenóico) – são componentes muito importantes para a saúde humana e essenciais a todos os organismos”, lembra Filipe Castro, referindo, como exemplo, os benefícios associados ao desenvolvimento neurológico e ao controlo de processos inflamatórios nas pessoas.

Na verdade, em termos de impacto na saúde, o facto de estarmos a consumir ómega-3 em “segunda mão” num salmão ou de “fabrico caseiro” numa amêijoa será indiferente. “É o mesmo ómega-3”, garante Filipe Castro. No entanto, esta descoberta que esclarece novos mecanismos da produção deste popular ácido gordo colocando uma série de desafios e abrindo um novo leque de oportunidades. “Por ser uma área tão importante do ponto de vista biológico, de compreensão de como é que funcionam os ecossistemas, existem muitos investigadores no mundo que se dedicam a calcular as quantidades de ómega-3 que são produzidas por diferentes componentes biológicos. Com esta descoberta que fizemos, esses modelos têm de ser revistos porque agora têm de incorporar uma espécie de elefante no meio da sala, que são os animais produtores primários de ómega-3”, diz o investigador.

Por outro lado, a procura de novas fontes de ómega-3 tem também levado os cientistas até soluções de carácter biotecnológico, assinala Filipe Castro. “O que estamos a descrever aqui são genes, que depois produzem enzimas que têm determinadas capacidades bioquímicas, conseguem converter determinados compostos em ómega-3. Não é totalmente disparatado presumir que muitos destes genes podem ser incorporados em soluções biotecnológicas, em que podemos ter sistemas sustentáveis de produção.” E, admite, esse será um dos possíveis próximos passos da investigação.

Podemos, assim, estar perante uma receita natural para a produção de ómega-3 “artificial”, construído no laboratório. É, diz Filipe Castro, o que se chama “biotecnologia azul”. “Estamos a descrever aqui moléculas, enzimas, que são umas pequenas fábricas que já conhecíamos de outros microorganismos, mas que estamos a descobrir agora em animais e que podemos usar noutros contextos.”

Miguel Fonseca, investigador no Ciimar e o principal autor deste estudo, conclui que “este trabalho é um exemplo claro do poder de abordagens genómicas comparativas de larga escala para compreender padrões biológicos, com implicações relevantes nas áreas da saúde humana, biotecnologia e nutrição animal”. E, citado no comunicado sobre o estudo, adianta que a continuação deste trabalho permite desde já antecipar “a existência de novos genes capazes de produzir ómega-3 em múltiplas espécies de micróbios aquáticos, incluindo cianobactérias, cujo potencial biotecnológico é imenso”.