Judeus foram perseguidos pela usura e não pela religião, diz presidente palestiniano

O discurso anti-semita do presidente palestiniano foi classificado de inaceitável pelos EUA e pela União Europeia. Netanyahu pede a sua demissão imediata.

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Mahmoud Abbas no Conselho Nacional Palestiniano, que reuniu em Ramallah, na Cisjordânia Reuters

O presidente palestiniano, Mahmoud Abbas, fez eclodir a polémica ao dizer, na noite de segunda-feira, que os judeus não foram perseguidos pela sua religião mas pela “função social ligada à usura e à banca”. O primeiro-ministro israelita exigiu a sua demissão.

Abbas “voltou a recitar o seu anti-semitismo e, aparentemente, continua a negar o Holocausto”, disse o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, nesta quarta-feira. “Chegou o momento de se ir embora.”

O discurso de Abbas foi proferido no encerramento do Conselho Nacional Palestiniano, que se reunia pela primeira vez em mais de 20 anos em Ramallah, na Cisjordânia, quando os jornalistas já se tinham retirado quase todos. Segundo o correspondente do El País em Jerusalém, o discurso foi transmitido em directo pela televisão palestiniana, mas tardou a ecoar em Israel, o que justifica que a polémica só tenha eclodido nesta quarta-feira. 

“Desde o século XI até ao Holocausto, os judeus europeus forma objecto de matanças a cada dez ou 15 anos”, disse Abbas que recorreu a autores judeus sionistas para sublinhar a tese que apresentou a seguir. “Posso citar três autores que sustentam que a inimizade para com os judeus não foi motivada pela sua identidade religiosa, mas pela sua função social ligada à usura e à banca. Os que viviam em países árabes nunca foram perseguidos”.

Abbas também negou que os judeus ashkenazi — oriundos do centro e leste europeu; os da Península Ibérica são os sefarditas — sejam semitas. “Não têm relação com os povos semitas.” Os judeus ashkenazi formam a maior parte da população de Israel e dela saíram a maior parte dos primeiros-ministros, entre eles Benjamin Netanyahu.
“Essa gente não tem nada a ver com Abraão e Jacó”, disse Abbas.

Não foi a primeira vez que o presidente palestiniano apresentou a sua polémica tese sobre o Holocausto. Diz a BBC que no início dos anos de 1980, quando escreveu a sua tese académica, Abbas defendeu que havia uma “relação secreta entre os nazis e os sionistas” antes da II Guerra Mundial e questionou que tivessem sido mortos seis milhões de judeus no Holocausto. Porém, em 2003, Abbas tinha-se demarcado publicamente do negacionismo ao dizer que “o Holocausto foi um crime contra o povo judaico e um crime contra a humanidade”.

No discurso de segunda-feira à noite, porém, voltou ao tema. Defendeu que Hitler incentivou a imigração de judeus da Alemanha para a Palestina ao permitir a transferência dos seus bens através de um acordo entre o Ministério da Economia do III Reich e o Banco Anglo-Palestiniano.

“Abbas desceu ao nível mais baixo”, reagiu o embaixador dos Estados Unidos em Israel, David Friedman. “A paz não pode construir-se sobre estas bases”, comentou Jason Greenblatt, o enviado do Presidente Donald Trump para o Médio Oriente.

John Kerry, que foi chefe da diplomacia do Presidente Barack Obama e esteve envolvido nos esforços de paz no Médio Oriente, falou em palavras "erradas, feias e inaceitáveis". "Estes comentários [de Abbas] são inaceitáveis em qualquer lugar e vindos seja de quem for. Mas são particularmente graves vindos de uma pessoa envolvida num processo de paz. Não há desculpa para o anti-semitismo, que deve ser condenado e não explicado".

Em Israel, Netanyahu, citado pelo jornal Haaretz, chamou “ignorante descarado” a Abbas”. Mas as declarações foram condenadas também na Europa, com a Alta Representante da política externa da União Europeia, Federica Mogherini, a considerar “inaceitável” qualquer “tentativa de justificar o Holocausto”.

As palavras de Abbas foram proferidas num momento crítico na região. Previa-se que no Conselho Palestiniano — que junta as várias facções, entre elas a Fatah, no poder na Cisjordânia, e o Hamas, que governa a Faixa de Gaza e que está paralisado e mergulhado numa profunda crise — definisse a resposta a dar à mudança da embaixada dos EUA para Jerusalém, já no dia 14 de Maio. Esta mudança significa que para Washington a cidade é capital do Estado de Israel, ignorando que os palestinianos reivindicam a parte oriental para capital de um futuro Estado.