Opinião

O que disse o primeiro-ministro

Não devemos pois contar com a tática da avestruz. Pôr a cabeça na areia à espera que passe o vendaval.

Num recente evento político presidido pelo Dr. António Costa, ele pronunciou-se sobre a importância de se pensar a longo prazo, ou seja, estrategicamente, sobre o desenvolvimento da economia portuguesa.

O primeiro-ministro afirmou, se interpretei bem o que disse, que precisamos de incentivar a imigração de trabalhadores qualificados e com talento, incluindo o regresso dos nossos jovens no estrangeiro, como forma de aumentar a força de trabalho, uma vez que só a natalidade não permite renovar as gerações ativas.

Esta preocupação assumida publicamente e divulgada nos meios de comunicação, prende-se, deduzo eu, não só com a necessidade de aumentar o crescimento do produto potencial, mas também com a necessidade de melhorar os rácios de suporte, entre a população ativa e a população não ativa, designadamente o rácio de dependência global (reformados, pensionistas e jovens ainda em formação). No fundo trata-se de reforçar a sustentabilidade económica e social do sistema de Segurança Social.

Sábias palavras que subscrevo e que contrariam a tese dos que defendem soluções mitigadas, a curto prazo, baseados no princípio keynesiano “de que a longo prazo estamos todos mortos”, em vez de se preocuparem com as soluções estruturais.

Não podemos pois pensar apenas em soluções para os problemas presentes ou temporalmente próximos e adiar “sine die” soluções que devem ser preparadas hoje para terem resultados nos anos vindouros.

Os conselheiros do primeiro-ministro devem estar ao corrente dos indicadores, demográficos, económicos, de mercado de trabalho e de Segurança Social, publicados no Aging Report de 2018 com projeções até 2070, e avisadamente informaram o primeiro-ministro para lançar o alerta sobre as consequências da falta de população activa.

Só para ilustrar o futuro de que fala o primeiro-ministro, o Report constata, entre outros indicadores que:

Até 2030 a força de trabalho (15-64) vai diminuir cerca de 320 mil indivíduos, e até 2070 vai perder 1,74 milhões de indivíduos. Mas a força de trabalho (20- 64) vai perder até 2030 cerca de 310 mil indivíduos, e até 2070 vai perder 1,715 milhões de indivíduos. Finalmente a população ativa (20-64) que é o núcleo de onde sai a força de trabalho vai perder até 2030, 540 mil indivíduos e até 2070, 2,283 milhões de indivíduos.

Pior ainda é constatar a evolução dos rácios demográficos, macroeconómicos e de dependência nos quadros seguintes:

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A consequência da evolução da demografia e macro económica até 2070 pode ler-se no seguinte quadro:

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Os três quadros mencionados demonstram a lucidez do primeiro-ministro quando insiste numa visão estratégica para o futuro da economia e da sociedade portuguesas.

Como conclusão: é necessário aumentar a força de trabalho, o PIB potencial e a massa salarial para que a segurança social tenha capacidade financeira para solver os seus compromissos a médio e longo prazo.

Os números deste relatório são fornecidos ao Eurostat pelas autoridades portuguesas. Não devemos pois contar com a tática da avestruz. Pôr a cabeça na areia à espera que passe o vendaval.

CIDADANIA SOCIAL - Associação para a Intervenção e Reflexão de Políticas Sociais - www.cidadaniasocial.pt