Editorial

Há uma mão que ampara o líder do Montepio

O Parlamento recomendou ontem ao Governo que impeça a Santa Casa de participar nesta farsa. Eis por que não vai acontecer.

Uma pessoa com vasta experiência no sector financeiro explicava há dias que a ideia de colocar a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa a investir na Caixa Económica Montepio Geral era brilhante.

Todos sabem quais são os quatro grandes problemas da Associação Mutualista Montepio Geral, a entidade que detém a Caixa Económica com o mesmo nome. Por ordem crescente: apresenta capitais próprios negativos catastróficos; avalia nas suas contas a Caixa Económica por um valor que todos sabem que não corresponde à realidade; e mais importante, para cumprir com os seus compromissos perante quem lhes entregou as suas poupanças, tem de alcançar objectivos de captação de novas poupanças que ninguém acredita serem possíveis de atingir.

O cenário é desafiante, como gostam de dizer os gestores. Mas perante dificuldades não há nada como chamar à mesa o pragmatismo dos negócios.

E assim foi. Os capitais próprios negativos terão passado a positivos através de um truque contabilístico permitido pelas Finanças: em troca de centenas de milhões de euros em créditos fiscais a Associação aceitou perder a isenção de IRC. Nada de real se alterou, mas as contas parecem melhores. Ganhou-se tempo. Para os restantes problemas havia mais engenho e arte para aplicar. A Santa Casa e demais misericórdias investem na Caixa Económica quantias relativamente pequenas, mas com esse investimento credibilizam o irreal valor a que a Caixa está avaliada nas contas da Associação Mutualista. Mais uma vez, ganha-se tempo. Tempo para que a Caixa Económica comece a gerar lucros e a pagar dividendos e, assim, permitir que a Associação Mutualista possa cumprir com as suas obrigações perante os subscritores dos seus produtos. Problema número três resolvido. Se tudo correr bem, claro está.

Foi este esquema que foi esta sexta-feira a votos no Parlamento e que os deputados chumbaram, recomendando ao Governo que impeça a Santa Casa de participar nesta farsa. O Governo irá manter-se irredutível. Até porque nada fez até ao momento para resolver o quarto problema, o maior de todos: travar o presidente da Associação Mutualista que actua como se fosse dono da mesma, permitindo-se usar indevidamente o nome do primeiro-ministro para credibilizar a entrada de investidores no universo Montepio ou retira pelouros a administradores por delito de opinião, só para dar dois exemplos.

Perante tudo isto o que fará o Governo se o brilhante plano burilado falhar? “Temos de estar disponíveis”, dizia esta semana o ministro das Finanças em entrevista ao Jornal de Negócios. Ou seja, pagarão os contribuintes. Mas felizmente não há perigo. Perante as declarações de Centeno, o líder do Montepio, Tomás Correia, apressou-se a dizer ao Correio da Manhã que “o Montepio sente-se muito bem tratado pelo senhor ministro das Finanças, coisa que não aconteceu no passado, mas não precisará de nenhuma ajuda pública”.

Poder-se-á pensar que Tomás Correia está a gozar com Mário Centeno. Mas não está. Se há mão que tem amparado Tomás Correia é a deste Governo e se podemos ter dúvidas sobre o resultado do plano em curso, podemos ter a certeza que no que depender do Governo, Tomás Correia só largará o Montepio pelo próprio pé.