Lisboa, Cidade Triste e Alegre: um livro de culto "inesgotável" que se torna agora uma exposição

A um ano de se tornar sexagenário, o fotolivro de Victor Palla e Costa Martins ganha nova vida no Museu de Lisboa, em Lisboa.

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A dupla de autores fotografada no final da década de 1950 (circa 1958) DR

Um livro que é um poema, ou uma história de Lisboa que é uma fotografia da cidade – e, agora, uma exposição. Lisboa, Cidade Triste e Alegre foi um retrato logo em 1959, ano da publicação deste volume que juntava fotografia dos arquitectos Victor Palla e Costa Martins e poemas de vários autores portugueses. Hoje, como descreve Rita Palla Aragão, comissária que o transforma na exposição a inaugurar esta quinta-feira no Museu de Lisboa, é “um ícone, um livro de culto”.

Em tempos uma raridade de alfarrabista depois de ter sido uma obra falhada no mercado na década de 1960, Lisboa, Cidade Triste e Alegre foi duplamente reeditado já depois da morte de Victor Palla, em 2006. Primeiro em 2009, depois em 2014, já na esteira de um interesse cada vez maior pela obra. Decisivo para tudo o que lhe aconteceu, das reedições pela Pierre von Kleist a esta exposição, foi, como recorda Rita Palla Aragão, neta do pintor e arquitecto modernista, o reconhecimento internacional do livro e poema gráfico. Em The Photobook: A History, obra editada pelos fotógrafos Martin Parr e Gerry Badger para a conceituada Phaidon em 2004, era considerado “um dos melhores álbuns de fotografia da história e era o único português”, lembra a comissária.

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Foto do livro com o enquadramento final pretendido por Victor Palla e Costa Martins DR

O interesse crescente pelo livro, “que se está a transformar num livro de culto da história da fotografia portuguesa”, diz Rita Palla Aragão, fez com que chegue agora ao Palácio Pimenta do Museu de Lisboa. Lá estará até 16 de Setembro, desdobrado em vários núcleos (dois dos quais de fotografia, com um total de 50 impressões), acompanhado de maquetes e cartazes e complementado por textos e intervenções de artistas e críticos culturais como Alexandre Pomar, André Príncipe, Mário Moura, Paulo Catrica, Pedro Mexia ou Teresa Siza.

Nesses núcleos há alguns inéditos, “directamente relacionados com a construção do livro – não tanto fotografias que a dupla de autores tirou e não incluiu na obra”, explica a comissária, antes materiais que documentam o acto de Seleccionar (o nome de um dos núcleos expositivos) implícito na composição do volume. Ou seja, “tiras de negativos de seis provas das quais apenas uma foi usada para o livro", tiras essas "que também têm fotos fantásticas”: a sua inclusão permite perceber melhor o trabalho de selecção de Victor Palla e Costa Martins, esclarecer “porquê estas fotografias, porquê estes enquadramentos” imortalizados em Lisboa, Cidade Alegre e Triste.

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Fotografia das páginas 40 e 41 do livro e respectivo desenho DR

Perante este livro, são sempre possíveis novos pormenores, novas interpretações, novos olhares. “Há um desenvolvimento da relação com o livro [que] acontecerá a todas as pessoas que visitarem a exposição”, promete a comissária. Um desses olhares novos sobre esta obra que está a um ano de se tornar sexagenária é o que alia o desenho à fotografia. Rita Palla Aragão diz que a novidade, a camada fresca que Lisboa, Cidade Triste e Alegre: Arquitectura de um livro traz, é a possibilidade de ver simultaneamente cada fotografia e o desenho que a acompanha, ambos da autoria dos arquitectos. No desenho estavam “as ideias que queriam ver na fotografia": “Isso traz-nos muita informação sobre como eles viam as imagens que fotografavam. Uma coisa é o que já conhecíamos do índice, em que eles descrevem por palavras o que tinham feito. Descreverem em desenho é muitíssimo interessante – registam ali tudo o que pensam que é importante numa fotografia.”

O volume, que inclui poemas de Fernando Pessoa, Almada Negreiros, Camilo Pessanha, Mário de Sá-Carneiro, Cesário Verde ou Gil Vicente, é o resultado três anos de trabalho destes arquitectos interessados na rua, na cidade, no quotidiano de meios populares como Alfama ou o Bairro Alto. Para lá das imagens que continha, o próprio design do livro, distintivo, tornou-o um objecto icónico. Regressar a ele como comissária foi, para Rita Palla Aragão, perceber que tem vida própria. “Esta experiência fez-me perceber, e é algo que me acompanhará sempre, que a abordagem a este livro nunca estará fechada. Ele é praticamente inesgotável.”

Notícia corrigida às 12h16 de 12 de Abril: a designação do antigo Museu da Cidade é Museu de Lisboa